Coluna Hélio Ricardo Rainho

Coluna Hélio Ricardo Rainho

Hélio Ricardo é “carioca da gema”. Nasceu na Tijuca, cresceu entre a Praça XI e o Irajá. Bacharel em Comunicação, pós-graduado em Marketing, é também ator, diretor e autor teatral. Vascaíno engajado, escreveu o livro Mauro Capitão Galvão – Lições de Vida, Lições de Futebol. Pesquisador de teatro, culturas urbanas, escolas de samba e futebol.
08/07/2010 13:12:00

Ah, se fosse com o Vasco...

A imprensa está vivendo mais dias de calamidade e dor. O noticiário está povoado com as notícias escabrosas, revoltantes e desesperadoras de um dos casos de assassinato mais cruéis e hediondos da historia de nosso país. Todos ficam atônitos esperando novas informações sobre um crime absurdo, estúpido, digno de gente sem alma, gente-bicho, gente-monstro, gente-não-gente.

O pior de tudo isso é que, pela natureza do fato, o noticiário, que deveria ser policial, tornou-se "esportivo". Está na Placar, no Globo Esporte, no SporTV, no ESPN, no Lance!, no Jornal dos Sports... enfim, é um escândalo policial envolvendo a mídia esportiva. A razão, todos sabem. O assassinato da modelo Eliza Samudio tem, envolvido até o último fio de cabelo relaxado, o goleiro Bruno, ex-Flamengo.

Ou “do Flamengo”.

E é daí que o meu pavor se instaura. Não bastassem os requintes de crueldade de uma morte onde um atleta é acusado de assistir ao esfacelamento de uma pessoa que é mãe de seu filho diante de seus próprios olhos, cimentando os ossos e dando a carne para cães comerem, o fato é que, mais uma vez, a história se repete este ano: incidência criminosa envolvendo um atleta da equipe rubro-negra carioca.

Nessas horas não se tem vingança, não se tem revanche, não se tem mesquinharia na alma nem picuinha moral. Mas os fatos são inegáveis: o que é que acontece na sede daquele clube que, em tão pouco tempo, aparece tanta lama, tanta sordidez, tanto caso de polícia?

O tratamento diferenciado a gente já conhece. Ou porque “a maioria vende” (e o capitalismo selvagem cega a imprensa) ou porque há conluio direto, tudo que ali acontece é sufocado. Se fosse um atleta do Vasco, certamente todos estariam exigindo que o ídolo-maior Roberto Dinamite abrisse a boca e se pronunciasse. E eu pergunto: quem – QUEM?!?!?! – sequer cogitou a possibilidade do senhor Zico, recém-empossado diretor, vir a público comentar o fato? Eu não sei se ele “tem obrigação de comentar” ou não, mas acho – particularmente – que devia! É a figura célebre do clube, assumiu recentemente. Não vai dizer nada? Não acha nada? Não tem nada a dizer sobre esse mar de lama que envolve a Gávea nos últimos meses?

Anos atrás o Flamengo entrou para a “história” por ter o primeiro presidente de clube preso e algemado no país. Aliás, nem sei se fora do país isso já ocorreu. Acontece que o Brasil é um país onde os bons exemplos irritam e os maus exemplos são considerados virtuosos. O traficante é herói! É feio que nem o diabo, mas anda de moto com várias namoradinhas na favela. Elas se amam ou se odeiam, mas não têm nenhuma revolta contra ele. A ausência de um Estado oficial faz com que os entes oficiosos se tornem heróis de meninos, que se espelham nas piores figuras de cambalacheiros e marginais possíveis. Aliás, nossa política também é assim: os mentirosos e enganadores geram novos políticos de laia igual. Será que um presidente algemado e preso é boa coisa para meninos de um clube? Ainda existe trabalho de base, acompanhamento, direcionamento de carreira?

Tenho lá minhas dúvidas de que o Flamengo não dê assistência a seus meninos. É claro que deve dar. Mas acho que a instituição precisa se explicar à sociedade, porque, em um mesmo ano, teve três de seus maiores ídolos envolvidos com gente do tráfico de drogas e com um assassinato brutal. Todos eles garotos-propaganda do fornecedor. O clube parece estar virando um “paraíso” para os que querem viver a vida que querem, antidesportiva, sem treinar e sem dar exemplo, aparecendo nas noitadas e orgias, jogando futebol como se fosse biriba. Ninguém quer bancar o sacristão, mas recentemente viu-se um mont de gente desse elenco numa festa de prostitutas num sítio, espancando mulheres que não queriam transar sem camisinha. A instituição dessa desordem e dessa bagunça não quer dizer nada? A instituição permanece ilesa?

Se fosse outra instituição, a imprensa cobraria alguma coisa?

Semana passada a Copa do Mundo mostrou outra situação desastrosa. Um jovem jogador que se diz “Atleta de Cristo” resolveu cravar as travas de sua chuteira nas coxas de um jogador adversário ante os olhos do mundo inteiro que acompanhava uma seleção brasileira em ação. Foi expulso, comprometeu absolutamente o jogo e o Brasil acabou eliminado. Jogada "ensaiada na Gávea", que também contou com um frango e uma boca calada do goleiro Júlio César (melhor do mundo???), que deveria ter mão dura ali e língua solta pra avisar que “era dele”. Esqueçamos o jogo e a eliminação. Vocês viram a entrevista do Felipe Mello depois do jogo? Ele disse assim: “Fui expulso por uma jogada normal, diferentemente de um cuspe ou um soco na cara. O árbitro foi rude. A prova disso é que o Robben continuou jogando. Tenho força suficiente para quebrar a perna dele”. Que atitude estranha... que negação de fato consumado... que autosuficiência bélica... que postura assustadora!

Ano passado tivemos um episódio em que o lateral esquerdo Juan, ao ser driblado pelo atacante botafoguense Maicossuel, reagiu xingando e colocando um dedo em sua cara, numa atitude descalibrada de intimidação e agressão. O juiz - um desses geniais que temos por aqui - deu-lhe apenas um cartão amarelo. O Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro indeferiu o pedido de punição e liberou o jogador para atuar normalmente no jogo seguinte.

Na Copa de 1994, o lateral esquerdo Leonardo protagonizou uma das cenas mais grotescas do nosso futebol, soltando o cotovelo na cara do americano Tob Ramos e dizendo, depois, que “não sabe como fez aquilo”. Seu prêmio de consolação será, em alguns dias, assumir o comando da nova seleção brasileira pós-Dunga.

Adriano e Wagner Love andaram todo o primeiro semestre às voltas com companhias estranhas. A revista Veja publicou uma matéria descortinando o assunto, e comentou com acidez a atitude de Adriano ao usar uma mensagem patética em uma camisa com a frase: “Deus, perdoe as pessoas ruins”. A matéria da Veja dizia assim: “Em sua lógica peculiar, as ‘pessoas ruins’ são aquelas que o criticam, e não os parceiros de noitada que andam com fuzis, matam pessoas, estragam a vida de outras tantas e são hoje a maior chaga social da cidade do Rio de Janeiro”.

A mesma matéria lembra de quando o goleiro queridinho Júlio César – esse do frango que nos tirou da Copa – foi flagrado pela Polinter em um grampo telefônico pedindo ajuda a um traficante para encontrar um carro roubado.

Matéria recente do jornal Extra mostrou um caso de pedofilia onde o delator disse ter esperado “quase 20 anos”, tomando “coragem para denunciar o suspeito” e achando estranho “como o crime foi ignorado pelos ex-presidentes do clube. Na mesma matéria, o conselheiro tutelar Edmilson Ventura, informado da denúncia pela Coordenadoria de Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes da Defensoria Pública, se pronunciou da seguinte forma sobre o clube em questão: “Eu gostaria de saber como isso acontece dentro de um clube cuja presidente é uma vereadora, o vice (Hélio Ferraz) já foi candidato ao Senado e o ex-presidente (Márcio Braga) já foi deputado federal duas vezes. Ou ele é mesmo inocente ou é tudo muito estranho”.

Eu pergunto a vocês: o que têm em comum Felipe Mello, Juan, Leonardo, Adriano, Wagner Love, Júlio César, o ex-presidente Edmundo, o dirigente pedófilo e Juan?

Uma coisa os iguala: o time.

Se fosse outro clube, que tratamento isso teria?

Que tipo de cobrança se faz de algum órgão –sei lá qual, Ministério Público??? – quando uma instituição centenária, que povoa e influencia o imaginário e a vida social de milhares de crianças em todo o país, oferece à sociedade atitudes e exemplos como esse? Que tipo de cobrança deveria fazer a imprensa nesse sentido? Que atitude deveriam ter seus dirigentes – e, nessa hora, me comove a situação da presidente Patrícia Amorim, que pegou um estopim nas mãos, sendo ela uma ex-atleta e vereadora de respeito? Não é execração pública, nem rivalidade, nem hostilidade: se isso aqui fosse uma pátria de verdade, um país ordeiro e respeitável, sério e digno, haveria acareação, interrogatório, análise, parceria, fórum, discussão... alguma coisa, porque qualquer instituição é, sim, socialmente responsável pelo

É bom que se entenda que meninos que matam gatos e peladeiros que agridem adversários fazem, muitas vezes, “escola” para crimes piores. As divisões de base não acompanham isso? Onde estão psicólogos, entidades interessadas na educação e na formação de jovens do país? Um clube com a proporção do Flamengo não pode ficar de braços cruzados vendo tantos casos se repetirem e achando que “ bandeira não tem nada a ver com isso”... tem , sim! A bandeira não é bandeira, é instituição! Se tem glórias, se tem retorno financeiro, se tem espaço na mídia para ser endeusado e até receber títulos que, apra alguns, não existem, por que não assumir a faceta das responsabilidades também? Alguma coisa está errada na instituição quando ela acolhe, acata e não consegue impedir o fluxo de párias à sociedade.

Sabem o que é isso? A arrogância, tão alimentada pela mídia, de que aquele time “é o maioral”, “ganha tudo”, “pode tudo”. Essa blindagem moral prolifera um discurso de arrogância e superioridade que, misturado a uma gênese transversa de corrupção instaurada no país, faz dessas pessoas gente consciente de que “ninguém pode impedi-los de nada”. Uma sociedade sem limites é uma sociedade cruel. É o que vemos por aí.

E se fosse o Vasco? E se fosse o contrário? Sim, porque todo clube já teve seus detentos e seus “marginais”. Basta lembrar a execração pública – muito bem citada pelo colunista Vitor Roma – do goleiro vascaíno Barbosa na Copa de 50, bem diferente dessa lambeção de saco que fazem com o Julinho César “melhor do mundo” depois da falha grosseira na eliminação do Brasil.

Como brasileiros, como pessoas de bem, requeremos alguma providência do clube! Daquele clube! Porque não é possível – não pode ser possível! – que uma instituição desportiva de âmbito nacional possa gerar tantos personagens protagonizando façanhas lamentáveis, povoando páginas policiais, e se manter incólume, atada, diante de tudo, como se não tivesse responsabilidade institucional sobre tantos casos e aberrações. No mínimo, um posicionamento não-marqueteiro, não oportunista, mas sério e em favor da sociedade brasileira!

As autoridades deveriam fazer alguma auditoria para acompanhar e orientar o clube a tratar essas pessoas. Porque não é possivel errar tanto, sujar tanto a sociedade.

E a imprensa deveria rever sua parcialidade, seu protecionismo, seu embandeiramento rubro-negro, e cobrar responsabilidade de quem a tem!

Não sou a favor da execração de clube nenhum. Mas fatos são fatos. E providências devem ser providências. Como cidadão que paga impostos e sai na rua, esqueço a camisa de time e gostaria de ver a RESPONSABILIDADE INSTITUCIONAL nesta hora!

Que isso sirva de lição também para o nosso Vasco! Se a tragédia fosse nossa, opositores acusariam situacionistas, situacionistas acusariam opositores, terceiras e quartas vias estariam metendo dedos na cara uns dos outros, numa briga interna boboca que não interessa a ninguém! Já chega de crise pré-datada e de conselheiros se burilando! Ninguém mais agüenta isso!

O Brasil não pode mais sambar sobre a impunidade!




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Quem mais atuou: Fernando Prass (26), Alecsandro (25) e Diego Souza (24)

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