Ao terminar o jogo, Léo Lima dá uma declaração à Sport TV... não lembro com exatidão as palavras, mas é algo do tipo: é necessário levar mais a sério o treinamento de finalizações ou alguns estão brincando demais nos treinos de finalização.
Desencadeia-se uma crise cujos prenúncios eram sensíveis. Pode se pensar que o meio – televisão – não foi oportuno, e toda uma gama de críticas adveio daí – o próprio Léo Lima fez um mea culpa: ele teria falado no calor da hora, um desabafo – , mas há que se reconhecer que a declaração teve o mérito de tornar patente o que estava latente: interessa, pois, que estamos mergulhados no seio de uma crise, de uma tempestade cuja formação já era sensível no ar faz um tempo.
Crise e oportunidade... Exaustão...
Crise. Não exatamente um momento oportuno; muito mais a conseqüência de uma série de impasses. Não sendo necessário elaborar uma lista exaustiva, basta lembrar:
Primeiro, a situação do patrocínio. Nós temos um patrocínio firmado com a Eletrobrás, mas este não se materializa. Pensem o que quiserem sobre os motivos desse impasse, pois o que me interessa é apenas a definição do momento da crise: impasse. Impasse e paradoxo: temos patrocínio e não o temos!
Segundo, a mesma coisa com o Aloísio. É contratado do clube, mas não pode jogar. Pensem novamente o que quiserem, pois o que me interessa é que a situação reforça a definição do momento como impasse. Novamente, impasse e paradoxo: Aloísio é jogador do clube e, ao mesmo, tempo não é!
Em tempos de impasse, convém manter a constância. Mas não sem a consciência de que a constância envolve riscos e perigos. Faz-se frente a uma série de obstáculos que têm o poder concreto de nos paralisar. E é necessário os remover.
Convém também o desapego e a economia de palavras. O que se tem de reforçar é o sentimento de confiança no futuro, mas isso não pode ser alcançado por meio de palavras. Há palavras nas quais não se acredita. Aquele que dá importância às palavras caí na exaustão.
Recomenda-se o desapego: uma solução se apresentará por si mesma. Não há qualquer garantia, entretanto, de que seja a solução desejada pela maioria. Esse tipo palavreado não é auspicioso no meio. Acredita-se fervorosamente que as ações são o essencial para se chegar ao destino desejado; acredita-se piamente que a solução é determinada por nossas ações, mesmo se as circunstâncias nos induzem a pensar o contrário; pois somos filhos de uma cultura na qual ocorreu a “divinização” da ação, na qual esta foi elevada a proporções míticas. Acredita-se piamente que, por nossas ações, podemos transcender as circunstâncias nas quais nos encontramos imersos...
Não há qualquer certeza de que venceremos a série B. Não há sequer certeza de que retornaremos a série A. Eu já venho sugestionando, sugerindo isso de modo meio dissimulado faz um tempo. Há uma tendência forte de que obtenhamos, pelo menos, a classificação, mas tendências repousam no passado; no caso, observando-se o desempenho dos times tradicionais, times “grandes” que caíram no passado. Mas o que nos interessa é o futuro. Há sempre... melhor: está sempre colocada a possibilidade de vivermos em um presente no qual ocorra a inversão ou até a reversão da tendência manifesta no passado.
Se não voltarmos, a maioria vai ver erro no real e não nas crenças que projetaram sobre este. Senso crítico aguçadíssimo, criticarão as ações da diretoria sem qualquer atenção as circunstâncias nas quais as ações ocorreram.
Posiciono-me de modo diverso: trata-se de afirmar o real, qualquer que ele venha a ser, em detrimento dos ideais e das crenças que conformam o panorama de nossa cultura. Normalmente, algo acontece porque as circunstâncias levam a esse resultado. Nossas ações agem sobre as circunstâncias, influenciam-nas, mas jamais determinam o rumo de sua transformação. A ação só é eficiente se está de acordo com os possíveis que já estão, de antemão, entranhados na própria circunstância. Derrotas e fracassos nos convidam a rever não apenas as nossas ações, mas principalmente aquilo que determina nossas ações: nossa inteligência da situação, ou seja, nossa própria percepção das circunstâncias.
Sei, no entanto, de antemão que todo esse palavreado suscita dúvida e ceticismo; a maioria, presa aos grilhõesda crítica, verá apenas uma defesa desajeitada do Roberto Dinamite; pois pensam no reverso dessa perspectiva que eu construo com palavras: acreditam que, por meio da ação, somos capazes de transcender as circunstâncias nas quais estamos imersos, quaisquer que sejam as mesmas.
O Vasco, se ainda não notaram, é “um” dos times na série B. Tende-se a não se ver essa realidade, pois ela fica encoberta por termos que falam do passado e não do presente, eternizam o passado: O Vasco é uma instituição, um time grande, tradicional; os demais, meros figurantes! Faz anos que essa realidade vem se desmaterializando, tornado-se um mero ideal; e certamente, se caímos, não foi por contas de A ou B e sim pela negação radical do que esteve na cara por anos a fio. Ano após ano, o clube veio se debilitando e as medidas tomadas eram mero paliativo, porque se acreditava piamente poder se fazer frente às circunstâncias, pois muitos as viam como frontalmente contra os ideais que agigantaram o clube. Nesta perspectiva, adaptar-se as circunstâncias – o que chamam de modernização do futebol - seria negar o passado, seria o trair, seria perder a identidade.
Há certo resplendor, há certa beleza nesses atos corajosos ou temerários – dependendo do ponto de vista de quem os aprecia – que visavam salvaguardar o nosso passado. Pena que este não era um possível encravado nas circunstâncias, mas apenas no imaginário envenenado por excessos ideológicos que muitos acreditavam críticos, que muitos acreditavam suficientemente potente para transcender a circunstância.
No momento, passa-se por uma transformação radical dentro do clube, desencadeada após o rebaixamento, cujo fito é reverter o processo de decadência e declínio que é conseqüência, é resultante do apego a uma idealização do passado (imaginário) – que nunca foi um possível na circunstância –, um esforço que vem comprometendo o máximo de nossas energias disponíveis (por exemplo, grana)!.
Crise também pode significar exaustão. Não é muito claro se temos ou não reservas energéticas para fazer frente as nossas necessidades atuais (impasse e paradoxo: temos, mas não temos! Potencialmente temos, mas não se realizam; salários atrasados...)! Se não removermos os obstáculos, a crise deixa de ser impasse e desemboca na exaustão. É o momento atual da crise: o que está acontecendo, passagem do impasse para a exaustão. Para reverter, constância e confiança no futuro, aceitação dos riscos inerentes a ambas, são as ferramentas necessárias e não a crítica que, no presente, só as solapa.
Não há qualquer garantia de que se consiga reverter o declínio rapidamente sem uma injeção de gás ou até de que não seja tarde demais mesmo com injeção de gás – leia-se, por exemplo, aporte da Eletrobrás e possibilidade de reforçar o elenco (não dá para descartar também a possibilidade de que o elenco atual dê para o gasto, ou seja, supere-se, gere a energia suficiente; mas, no momento, o ceticismo é generalizado com relação a isso) -. Não há qualquer garantia de que retornemos a série A, pois o futuro é aberto – pode ser que sim, pode ser que não -!
Sabe-se, portanto, quais são as ações necessárias para voltarmos à série A, as que removam os obstáculos que nos paralisam (portanto, a crítica atualmente é inepta e disruptiva: critica-se por hábito, porque se vive em uma cultura – mídia, meios de comunicação social, faculdades de jornalismo, que endeusa o poder da crítica, faz dela o seu capital e o seu dogma; “feitiche” da crítica: Como se tudo o de ruim que acontece fosse apenas falta de espírito ou senso critico...). Mas essas ações acima referidas são possibilidades entranhadas nas circunstâncias atuais? Ou demandam um lapso de tempo que, considerando-se o objetivo atual – retorno para a série A -, já não temos e são apenas possibilidades imaginárias?
Dito isso, haverá quem projete tudo isso que eu falei em termos de uma clivagem Eurico Miranda/Roberto Dinamite – ao que parece: a única peleja que os mobiliza -; para alguns, o que eu escrevi será uma tentativa canhestra, desastrada de defender o Roberto Dinamite. Para outros, será falta de senso crítico, um convite à complacência ou ao conformismo, poesia e discurso vazio, sem falar nos que verão apenas um convite à inação e ao fatalismo ou até... pasmem! Uma astuta manobra ideológica que visa alienar os vascaínos. Poucos, muitos poucos compreenderão que é uma “crítica" da panacea crítica!
É um direito do leitor, expressar o que sente e também sua opinião sobre o que eu escrevi; criticar aquilo que tem de ser criticado (na opinião dele, leitor, óbvio!)! Um direito que eu respeitarei; a algumas opiniões, no entanto, sequer irei me opor, pois estão atoladas nessa clivagem - Eurico/Roberto ou Casaca/muvianos –, debruçam-se sobre as possibilidades de circunstâncias passadas e não sobre as do presente; estas opiniões, no que me concerne, são asteróides na imaginação cósmica ou ideológica de alguns, e como já dizia o Darth Vader: “Asteroids do not concern me!”
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