Cristiano Mariotti

Cristiano Mariotti

Mestre em Ciências em Sistemas Computacionais, Consultor e Professor em TI. Carioca de família portuguesa, nascido e criado em Jacarepaguá, adoto São Januário como meu segundo lar e levo a cruz-de-malta em meu peito desde que eu nasci.

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Desconstruindo estorinhas

Em 01/04/2013 08:49
 

A situação VERGONHOSA de constatação do estado de risco de uma construção como o Engenhão (que gastou milhões de reais do dinheiro público para apenas seis anos de uso) reacende a polêmica sobre a utilização do ÚNICO estádio hoje, na capital fluminense, em condições de abrigar grandes jogos que é o estádio privado de São Januário.

Templo sagrado da torcida vascaína, erguido pela mesma e sem um centavo sequer de dinheiro público investido.Outrora palco de grandes eventos, até mesmo de desfiles cívicos e pronunciamentos do Presidente da República à época Getúlio Vargas, São Januário já comportou finais de campeonatos, tais como a primeira partida da final da Copa Libertadores da América de 1998 e da Copa Mercosul de 2000, e mais recentemente a primeira partida da final da Copa do Brasil de 2011. Símbolo de resistência de uma instituição contra os rivais que queriam ver o Vasco longe da Liga sob pretexto de não ter estádio próprio, hoje poderia ser a solução para esses mesmos mandarem lá suas partidas, aceitando em contrapartida que os grandes clássicos fossem lá realizados no período sem Maracanã e sem outras alternativas.

Se muitos ainda se apegam em um incidente que ocorrera na final do Campeonato Brasileiro de 2000 para contra-argumentar sua utilização, se esquecem de que, no entanto, tratou-se de um fato isolado, irresponsável mas sem consequências de morte ou de graves ferimentos irreversíveis para as vítimas, ao contrário do que, por exemplo, ocorrera no outrora “maior do mundo”, durante a final do mesmo campeonato nacional em 1992, em que com a queda do alambrado, ainda assim e ao meio de tantos feridos graves e com um cordão de isolamento feito pelos próprios torcedores do arquirrival, houve jogo normalmente, em uma prova maior de irresponsabilidade até hoje não dita de forma clara pela mesma parte da imprensa que hoje condena São Januário para eventos dessa natureza.

Ou então, o que dizer do tiro disparado das antigas cadeiras azuis na final da Copa América de 1989, Brasil 1 vs 0 Uruguai, acidentando ao pai de um jovem em sua cabeça durante a comemoração do gol de Romário à época? Em mais uma prova de que a segurança no estádio que tantos formadores de opinião pregam, muitas vezes, se torna falha, independentemente da praça de desporto ou do público presente na mesma.

E ainda sobre esse mesmo incidente da final de 1992 em pleno Maracanã: o acontecimento levou ao governo do estado a fechá-lo para reformas durante seis meses. Como consequência, tivemos um Campeonato Carioca durante o segundo semestre do mesmo ano com a grande maioria de seus grandes clássicos disputados em São Januário. No caso do Vasco, TODOS seus clássicos (tanto na Taça Guanabara quanto na Taça Rio) foram lá disputados, em tempos em que o Vasco tinha expressividade e representatividade junto às federações. Como “retaliação” (a si próprios em primeiro lugar), os eternos parceiros Fla-Flupreferiram mandar um de seus jogos no Estádio Italo Del Cima, em Campo Grande. Lugar apropriado na época para quem não reconhecia a nossa praça de desporto como de grande valia para eventos de alto nível.

Em síntese e para mim, não existem argumentos tão ou mais graves no interior de um estádio como esses dois últimos citados ocorridos que me convençamsobre a não-utilização de São Januário como casa para grandes jogos de clubes do Rio de Janeiro (clássicos regionais, inclusive) na ausência do Maracanã e do Engenhão. Se contra São Januário pesa o eterno argumento das ruas estreitas e de difícil acesso, o que dizer das ruas do entorno do recém-interditado estádio, então? Se o argumento for a briga entre as torcidas em seu entorno, o que a segurança pública tem a dizer sobre os tiroteios e as brigas entre torcidas na estação de trem na Ala Sul, no interior da praça de alimentação do shopping localizado no bairro adjacente e nessas mesmas ruas igualmente estreitas (tal como no relegado São Januário) em seu entorno?E o mesmo nos entornos do Maracanã, algo que sempre teve desde que me conheço como torcedor de futebol e frequentador assíduo dos estádios? Nas vias de acesso público, inclusive? Será que a violência só existe nos entornos de São Januário, mesmo não reurbanizado ainda?

É estarrecedor quando as autoridades públicas responsáveis por garantir a segurança são capazes de autorizar jogos entre grandes torcidas, muitos se deslocando a mais de cem quilômetros da capital e com risco de se encontrarem pela Via Dutra ou por ruas ao redor do Estádio da Cidadania, em Volta Redonda. Com todo respeito ao belo estádio da cidade do Sul-Fluminense, os mesmos problemas de ruas estreitas e de divisão de torcidas no interior desse estádio (sem um muro ou um vão específico) poderiam ser utilizados como argumentos para proibir a sua utilização.Ao contrário disso, são ignorados por quase todos da mídia esportiva. Já quando se trata de São Januário, é encarado como uma temeridade liberar a divisão igual de ingressos para ambas as torcidas. Quais são os argumentos para que nos convençam de que, no Estádio da Cidadania e mesmo sem qualquer divisão em concreto, isso seja possível e em São Januário, não? Quais são os argumentos de que, no mesmo estádio do município sul-fluminense, poderá haver divisão igualitária de torcedores, com riscos de incidentes menor do que em São Januário?

Que fique bem claro que, obviamente, o Maracanã (assim que liberado) deve voltar a ser o palco dos grandes clássicos do Rio de Janeiro. Afinal, é um estádio do Rio de Janeiro construído com dinheiro público do contribuinte, e portanto, É NOSSA CASA TAMBÉM. No entanto em sua ausência, soa como desprezo relegar a utilização de São Januário. Aparenta ser muito mais uma questão de má vontade com o clube ou ainda, questão de não querer dar a mesma vantagem no qual o Botafogo vem usufruindo há tempos ao Vasco.

Sobre o TAC (mal redigido e assinado sob a complacência do ex-VP Jurídico e do nosso atual Presidente), trata-se praticamente é um termo proibitivo, intimador em seu conteúdo, e não somente ajustador como haveria de ser. Uma vez que o Vasco cumprisse tais exigências explicitadas nesse termo, haveria de se posicionar para que, no próximo Campeonato Carioca e em caso de fechamento do Maracanã e do Engenhão, houvesse uma assinatura de TODOS os clubes concordando em jogar em nosso estádio nos jogos em que o clube tivesse direito ao mando de campo. Medida sensata, dentro do que foi estabelecido pelo termo e sem maiores contestações das autoridades, que por conseguinte, não teriam argumentos mais para tal proibição.

Se o Vasco realmente deseja exercer seus direitos, o caminho é esse. Do contrário, vira bravata de nosso diretor-executivo Renê Simões e gerundismo de nosso Presidente, que horas antes na última quarta-feira, afirmara (em mais um discurso gerundista): “estamos trabalhando para mandar nosso jogo contra o Botafogo em São Januário”; e que horas depois, no mesmo dia, viria a confirmação do que todos já desconfiavam: nada feito!

Pensamentos dos sem-estádios

“Eu não entendo o porquê de tanta gente criticar o gramado de Moça Bonita. O gramado está em ótimo estádio. Já que é tão difícil emprestar estádio, acho que seria interessante mandar alguns jogos do Brasileiro aqui, até o Maracanã ficar pronto”. (Abel Braga – treinador do Fluminense).

“Estão dizendo que houve retaliação, eu não acredito, até porque seria uma atitude extremamente mesquinha e pequena por parte do Vasco da Gama, que tem uma grandeza muito maior do que isso. O Roberto (Dinamite, presidente do Vasco) é uma pessoa que seria incapaz desse tipo de atitude, então não acredito. Deve ter acontecido algum outro problema que eu não sei.”(Maurício Assumpção, Presidente do Botafogo).

Em tempo: enquanto Roberto pensa em parceria com esses e mais com o clube rubro-negro “pelo bem do futebol do Rio de Janeiro”, há mais do que provas suficientes para lhe mostrar que, quando o assunto envolve dinheiro e interesses próprios, cada um pensa em si. É capaz, inclusive e nesse atual cenário, de num futuro próximo vermos tricolores, botafoguenses ou até mesmo rubro-negros dando voltas olímpicas em São Januário, ao passo que para o Vasco fica o dissabor de estar PROIBIDO de utilizá-lo envolvendo seu mando de campo contra esses demais clubes. Cada um que zele por seus direitos. Resta saber se, nessa relação de reciprocidade, o Vasco terá pulso e trabalhará de verdade para barganhar seus direitos de exercer seu mando de campo em um futuro próximo, na ausência do Maracanã como palco principal do futebol carioca.

Pensamento do Baixinho

Ao ser perguntado pelo Jornal Extra sobre São Januário, Romário manda seu recado: “É um estádio muito bem organizado. Tem problemas, como todos os outros, mas é confiável. Agora que os jogos foram para o Raulino de Oliveira, começam a falar que lá tem rachadura. Mais um estádio feito com dinheiro público! É muita falta de respeito. Lá em São Januário, você não vai ver esses problemas que estão acontecendo nos outros. Sabe por quê? Porque é privado. Aí, você cuida com amor”.Dentre concordâncias e discordâncias (normais) que possuo com sua pessoa, apenas perguntaria ao Baixinho se tivesse essa oportunidade: onde assino tal declaração, pontual e coerente de sua parte?

Fim da linha

O campeonato carioca, infelizmente, terminou. Só por um milagre (o mesmo que operou a classificação do Vasco para a segunda fase da Copa Mercosul em 2000 ou até mesmo o da mesma decisão nesse mesmo ano), que nosso clube avança para as semifinais da Taça Rio, e dali pegar a Via Dutra para jogar no “seguríssimo” Estádio da Cidadania, contra quem quer que fosse. E cá entre nós, realmente não merecemos: conseguir somente UM PONTO de nove possíveis contra equipes de menor investimento, sendo que o único ponto fora conseguido contra um time (Olaria) que consegue, no domingo seguinte (ontem) tomar de CINCO do “poderoso” Friburguense é forte indício de que temos algo de MUITO errado. E que, dessa vez, PASSA LONGE de ser o recém-assumido técnico, esse sim, um dos melhores atualmente em nosso futebol.

Agora, é esquecer esse certame, até mesmo porque tal milagre só poderia crer se tivéssemos um time como o do ano 2000 citado por mim. Muito pelo contrário: temos time que somente faz com que nos ajoelhemos em oração para não sermos rebaixados. A questão de momento é utilizarmos esses últimos cinco jogos para terminarmos de forma digna (é o que nos resta) e já nos prepararmos durante os quase dois meses que teremos para as competições nacionais, que são as que mais valem. Utilizar esse tempo como laboratório, dispensar quem não merece continuar e contratar pontualmente. De preferência, dois zagueiros, um lateral-esquerdo, dois meios de campo e um centroavante que resolva nossos problemas. Dessa forma, por mais que me doa dizer, mas será MUITO MELHOR anteciparmos o sofrimento agora do que nos autoenganarmos e retardarmos o sofrimento para um bem pior ao final do ano.

E segue a fila...

E ao que tudo indica, serão agora DEZ certames completados sem esse título. Nesse período, CINCO deixados de ganhar pela diretoria do ex-Presidente (uma Taça Rio, um vice-campeonato e o esdrúxulo NONO LUGAR em 2006 nesse período) e CINCO deixados de ganhar pela diretoria atual (cinco vice-campeonatos de Taças de turno e NENHUMA DECISÃO de campeonato disputada). Sobre essa sequencia de vice-campeonatos em taças perdidas, segue abaixo a imagem com o lembrete dessa mesma torcida, lançado em faixa no dia da posse do Presidente atual do clube em julho de 2008, que foi um dos argumentos utilizados para que mudanças (para melhor) fossem feitas.

Chega de vice!

 

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