
O apóstolo Paulo dizia, em sua carta aos coríntios: “quem dera me suportásseis na minha insensatez”. E eu vos digo, irmãos vascaínos, fiéis leitores e companheiros de minha militância clubística: “suportai todos vós o meu abatimento”.
Confesso a vocês: tenho andado triste.
Esta semana, encontrei um email antigo de um amigo e dei um reply para ele me escrever. O e-mail voltou com mensagem de erro, e joguei seu nome no Orkut (que é onde se encontram os amigos “perdidos”). Encontrei o perfil, mas a surpresa não foi nada agradável: tinha uma cruzinha do lado e a data de seu falecimento, ano passado.
A gente perde amigos sem ver! É assim a metáfora da vida, a metáfora do esporte: não vivemos só de vitorias, temos os dias nebulosos das perdas, e elas doem e ferem o nosso coração!
Hoje pela manhã vi no jornal uma foto do treinador vascaíno abatido, de chinelo, cabeça entre as pernas, desolado. A matéria mostrava o Vasco como um time de desesperados, incompetentes, arruinados. Ele reclama dos jogadores, reclama do elenco, diz que não fazem o que ele manda. E eu me pergunto: quem escala Jorge Luiz, Eduardo Luiz, Leandro Bonfim e Rodrigo Antonio pode reclamar que esses caras não obedecem ou não sabem o que fazem???? O pior deles é o Bonfim, que sabe jogar e parece um defunto em decomposição, morrendo à míngua como se fosse tecnicamente miserável como os outros!
Será que o Pedrinho precisaria que o Renato ensinasse o que fazer em campo???
O treinador acredita mesmo que um time como esse do Vasco pode ter três atacantes (um deles lento e pesado) e apenas um marcador no meio-campo? Que tática é essa???
A caixa de e-mails traz centenas de mensagens de torcedores irritados, crucificando o presidente Roberto Dinamite pela apatia e pela morosidade com que comanda o Vasco diante da ameaça de naufrágio. Eles não aceitam a “covardia” de não ter demitido Lopes logo de cara, acumulando uma perda de pontos absurda que afundou o clube na lama de agora. Outros tantos acusam a gestão anterior de ter iniciado o ano sem pré-temporada e sem dinheiro nos cofres, deixando um clube falido à revelia do craque-estátua e à beira do rebaixamento.
Não sei de mais nada! Ta tudo errado mesmo.
Só sei que estou triste. Muito triste!
A verdade é que aquele golaço contra, de ombro, em favor do Santos no domingo passado, me deixou desolado, meio desanimado. Aquilo me deu uma sensação de que a velha Lei de Murphy estava solta, e que tudo daria errado para o Vasco. Xô, pessimismo, mas é verdade! Fiquei com medo, fiquei abatido!
É, gente, cronista também é humano, falho, se emociona, se abate! Não tem só palavras de ânimo, de exaltação. Minha fé no Vasco é inabalável, meu amor pelo clube é infinitamente maior do que qualquer resultado, classificação, título ou picuinha! Chega uma hora em que os adversários se esgüelam de provocação e eu não os ouço: quando mergulho profundamente na paixão por essa bandeira, fico surdo, não sinto mais nada, os adversários desaparecem... bobos, tolos... eles esperneiam e somem na névoa que os encobre... eu abro os olhos e só vejo o amor que há pelo Vasco, pela bandeira tremulando, pela cruz-de-malta sobre o peito! Os outros não são nada, não nos atingem quando lembramos nosso amor por essa bandeira linda que o nosso VASCO DA GAMA tem!
O futebol é importante porque é revelador. Aqui no Brasil a gente vê isso claramente! O futebol mexe com os brios, mexe com a moral, mexe com o bem estar, mexe com a saúde, mexe com tudo. No futebol há política, religião, sexo, dinheiro, trabalho... tudo! Mais do que isso: o futebol revela o caráter das pessoas. Já viu aqueles religiosos de plantão, que professam o perdão, o bem e o amor, adeptos do discurso da fraternidade universal? Pois é, eles juram que desejam o bem e tão somente o bem, que amam incondicionalmente e que perdoam como deseja seu mestre. Mas, pergunto eu: eles querem ou não querem ver o mal e a derrocada do clube de que não gostam? Na cabeça do brasileiro, desejar esse mal não é mal: é “rivalidade”. Eles esquecem que, quando seu time perde, ficam tristes, abatidos, afligidos. Quando a pimenta é na cueca do “irmão”, eles incrementam o tempero picante: torcem pela ruína, acalentam o mal, proferem a maldição, semeiam a vingança! Travestem-se de uma Dra. Lorca de chuteiras, e atestam, com a mãozinha no coração, como se fossem anjos do bem sentenciando sobre si mesmos: “no futebol, torcer pelo mal dos outros pooooode”! Ficam loucos ao ver a nossa ruína!
Domingo estarei em São Januário. Quero morrer ou viver abraçado ao Vasco, aos vascaínos, à minha torcida. “Se alguém quer matar-me de amor, que me mate no Vasco” – eu cantava, parodiando os versos do vascaíno Luís Melodia. Amo meu Estádio de São Januário, glória da história deste país sem história, memória viva da consciência negra que se comemora hoje, força propulsora da paixão nacional que é o futebol! Na alegria ou na tristeza, lá estarei: torcendo, vibrando, chorando, me emocionando, abraçado a essa torcida apaixonada, que me alegra e me consola, me dá força e me levanta! Lembro das palavras de fim de noite, no telefone, do amigo Robson França, leitor das minhas colunas que tornou-se presente em minha vida como tantos outros anônimos que eu prezo como irmãos... “não pode desanimar, Hélio... tem que erguer a cabeça”... é isso aí, Róbson! Taí a pontinha de inspiração: uma coluna escrita, como você disse que tinha de ser! Diferente de todas as outras, mas com uma proposta clara: mostrar a todos os vascaínos que temer é normal, que ficar triste é normal, mas que nós não desistimos, encaramos a batalha, somos guerreiros, cumprimos nosso destino: eu estarei lá! O mesmo Manuel Bandeira de "Carnaval" e "Os Sapos" também escreveu versos tristes como "O Bicho" e "Madrigal Melancólico". Altos e baixos. A arte imita a vida!
Valeu, amigo Rob-gol! Em suas palavras, renasce a esperança.
No fim da noite, saindo do trabalho e voltando para casa, parei em um sinal da Avenida Rio Branco, esquina com a Sete de Setembro. Tinha um cachorro de rua se refastelando com um naco de frango. Ele comia bem e parecia saudável.
Mas parou de comer... e olhou nos meus olhos!
Pronto.
Quando vi aquele olharzinho ingênuo e perdido de um vira-latas de rua, lembrei-me do amigo que se foi, do gol de ombro, do Vasco, da maldade das pessoas.. e fiquei, de novo, triste.
Muito triste!
* As informações, notícias e opiniões expressadas neste espaço são de inteira responsabilidade do colunista.
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