
Convém não ficar desesperado, muito embora nós já estejamos, não é? Convém, entender que a luta contra o rebaixamento faz parte do aprendizado do torcedor nesses tempos de renovação do futebol, onde já não existem mais os incaíveis. Muitos vascaínos não sabem disso. Para eles, o rebaixamento é o impensável. E isso é um dos componentes que nos levou aonde chegamos!
Nômade virtual, deslizando pelo éter das interfaces, mergulhando nesse universo espectral e sombrio, descubro uma pequena cintilação aqui, um fulgor acolá: na maioria das vezes, são femininas as vozes que aquecem o meu coração e renovam as minhas forças para a próxima batalha – contra o São Paulo -! Não são vozes isentas de revolta, nem repúdio, mas são vozes que nunca perdem de vista o essencial.
As meninas compreendem que o essencial da relação torcedor-clube é a lealdade e não a “paixão”. Elas sabem que qualquer que seja o resultado, hão de permanecer leais ao clube, a tudo aquilo o que ele representa – e que não vai deixar de representar por contas uma eventual temporada ou mesmo duas temporadas na segunda divisão -!
Já os meninos... caras, coisa desastrosa! Para a maioria de nós, a relação torcedor-clube é da ordem da paixão e isso justifica todo e qualquer despautério! E Isso, vascaínos, é um baita problema, porque a paixão nos convida a condutas irracionais – foi por este motivo que as elites inventaram, nos anos quarenta, que o torcedor é um apaixonado ( essa redução do torcedor ao elemento passional em contraste tácito com a razão – que seria o apanágio dos dirigentes - foi um meio empregado para desqualificar o amor das classes populares por seus clubes.). Nesse modelito elitista de torcer, a paixão não reconhece objetivos. Daí os torcedores que ainda torcem nesse velho modo, flutuam à mercê de suas paixões... e todo cuidado é pouco: o que se vê nesse ano, é um bando de vascaínos vivendo em ritmo de psicose maniaco-depressiva! “And the Yoyo man, always up and down...”
Séculos a fio, as mulheres fizeram o trabalho sujo das emoções para nós, os homens. Agüentaram com muito bom humor e paciência o nosso lado “Peter-Pan” que é ainda meio dominante (uns anos atrás, em uma derrota contra o urubu, por um nadinha, não lancei meu radio de pilha contra a parede! Descontrole emocional, histeria...). Acontece que, nos anos 60-70 do século passado, elas cansaram de brincar de Wendy.
Elas não querem mais viver com o Peter-Pan; elas querem parceiros, iguais; querem homens capazes de se autocontrolar emocionalmente e não aqueles ainda presos a esse arremedo de masculinidade que corre para a barra da saia da primeira “mama” à sua disposição quando enfrenta o menor obstáculo emocional.
Daí, elas decidiram que era hora dos Peter-pans crescerem. Um baita problema, pois nós, tolos que somos, acreditamos que podemos controlar racionalmente as nossas emoções. Alias, esse era o grande argumento: o que pretensamente nos tornava superior às mulheres e explicava a dominação masculina na sociedade ocidental era a nossa maior propensão para a ação baseada na razão, no cálculo racional! Elas eram boas em lidar com o lado emocional!
Óbvio que essa pequena mutação modifica completamente o papel masculino nas sociedades ocidentais (pelo menos); óbvio também que nós homens – que sempre nos apegamos às nossas “vassalas”, sempre tão compreensivas com os nossos surtos por conta de nossa dificuldade de lidar com as paixões – não temos o menor pendor (social) para o trabalho das emoções que em nossos corpos tendem a evoluir para sua intensidade máxima, a paixão “avassaladora”!
O futebol é esse caldeirão. Mário Rodrigues , o principal ideólogo das elites conservadoras (o poeta da mídia que conseguiu frear o ímpeto popular nascido na colina, que conseguiu deter o poder de renovação desencadeado pelo Vasco nos anos 30, limitando a potência renovadora do Vasco a uma participação honrosa na questão racial e a criação de um nicho de mercado onde os “negros” e os “brancos” pobres poderiam subir na vida – profissionalização, carteira assinada, emprego,etc...) compreendeu que o futebol cumpre um papel fundamental na sociedade brasileira, qual seja: é um rito no qual sublimamos nossas pulsões irracionais, permitindo a tal civilização brasileira na qual o principal valor seria a cordialidade – por exemplo, o “racismo” cordial (sic!) -...
Nas arquibancadas, cada torcedor é um leão ou o animal selvagem que preferir. A paixão desenfreada na arquibancada é a contrapartida da repressão generalizada às emoções que vigoram no cotidiano masculino – pois o masculino é definido como “pura racionalidade” -... a paixão desenfreada na arquibancada é o “outro” de nossa subserviência ao poder no cotidiano... a paixão desenfreada na arquibancada é o “outro” de nosso conformismo generalizado! E o torcedor histericamente apaixonado é peça fundamental na máquina repressiva da elite brasileira!
Eis-nos, então... nós, os machos, diante de um problema colocado pelas mulheres: é preciso “devir-mulher”, como dizia Guattarri. Ou seja, núpcias ou aliança: se a mulher entra em devir e passa por um processo de mutação, o seu parceiro ideal, o homem, é carregado por esta e acaba obrigado a modificar seu comportamento e conduta por contas das mudanças ocorridas no pólo feminino das núpcias (como diz uma amiga de minha companheira: Ela quer mais que os filhos dela se lembrem sempre da comidinha... do papai!). Se elas colocam que o trabalho das emoções é fundamental para a parceria (núpcias ou aliança), não nos resta outra escolha...
Mas convém não falar muito disso aqui, pois a maioria torcedora (nas arquibancadas, ritualizam-se papéis masculinos muito apreciados, mas incompossíveis com o real atual, como o “chauvinista”, por exemplo) confunde-se “mulher” com “mariquinha” (basta ouvir os cantos dos “enrustidos” organizados para notar isso!). O outro da maioria masculina torcedora é a “bichinha” – essa paródia do feminino - e não a mulher... por isso, os “machões” de arquibancada são tão descontrolados e tão dados a histeria de massa...
Basicamente, a luta contra o rebaixamento deve ser pensada, entre outras coisas, como um desafio para melhorar a nossa capacidade de lidar com emoções, para compreender como as emoções são elementos fundamentais na constituição e realização de nossos objetivos (não por acaso, os que não gostam da atual diretoria ficaram tão excitados e falantes nas listas após a nossa derrota contra o Galo; a “emoção” que os avassala define o objetivo deles! Não é questão de “oportunidade de ouro”, não é racional, pensado e nem é cinismo; não é que “torcem contra”... é expressão do como sentem a vida política vascaína! É conduta histérica, nostalgia do grande “macho” latino que ´avassalava´ o clube!); pois nossos objetivos não são puros frutos da razão e da racionalidade;
A luta contra o rebaixamento é uma oportunidade para não deixar que elas – emoções – evoluam para a paixão desenfreada e o comportamento irracional; para demonstrar que a sabemos dosar e impedir o seu livre curso que faz com que percamos de vista que o fundamental do torcer não é a paixão, mas a lealdade irrestrita ao clube que escolhemos aconteça o que acontecer! É, também, uma oportunidade para demonstrarmos que nós, homens vascaínos, estamos à altura dessas fêmeas fabulosas, as vascaínas, que nós tantos amamos...
* As informações, notícias e opiniões expressadas neste espaço são de inteira responsabilidade do colunista.
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