Eurico fala sobre marketing, CT, São Januário e outros assuntos

06/11/2017 às 08h21 - POLÍTICA

Há cerca de 50 anos no Vasco, nos mais variados cargos, Eurico Miranda, o atual presidente cruz-maltino, tenta sua reeleição no pleito desta terça-feira, em São Januário. O mandatário defende que deve ficar à frente do clube para dar seguimento ao seu trabalho de reconstrução.

- Estou vindo com a chapa "Reconstruindo o Vasco" porque nestes últimos anos o que mais fiz foi reconstruir. Não houve tempo de fazer como eu gostaria de fazer, e não sei se nos próximos três vai dar para completar esse processo. Mas a intenção é essa, continuar a reconstruir. Quem decide é o quadro social - afirmou Eurico.

Além de Eurico, estão inscritas as chapas dos candidatos Fernando Horta e Julio Brant. Na entrevista ao GloboEsporte.com, o presidente comentou sobre seus projetos, atacou ex-aliados, como José Luiz Moreira e o ex-gerente de futebol Paulo Angioni, a quem responsabilizou pelo rebaixamento do Vasco, e reconheceu:

- Ficou uma mancha no meu histórico que não se apaga.

Confira a entrevista completa com Eurico Miranda:

A partir de 2019 a CBF planeja proibir treinos no mesmo local dos jogos. Atualmente, o Vasco utiliza o campo anexo e o principal para suas atividades diárias. Existe o projeto para construir um centro de treinamento?

Eurico Miranda: Claro que projeto nós temos, sem dúvida. Mas temos que ter coisas concretas. Estou terminando de pagar o CT que nós tínhamos, o Vasco-Barra, e eles (gestão Roberto Dinamite) não pagaram. Pelo descumprimento, tive que pagar praticamente o valor de um CT, foram mais de R$ 10 milhões. Tínhamos e temos o projeto do CT em Duque de Caxias, na Washington Luiz, mas houve obstáculos. Mas nós vamos ter.

Aqui em São Januário temos um negócio bem acoplado. Podem não considerar um CT, mas é como se fosse. A primeira coisa que temos que fazer, diante do quadro que se encontra, é regularizar financeiramente para depois partir objetivamente para fazer.

A CBF não tem a menor condição de impor nada para 2019. Tem que olhar primeiro como acontece no mundo inteiro. Em 2019 seria o ideal. Na Europa levaram nove anos para cumprir. Se puder ser para 2019, muito bem. Se não puder, não vai ter impedimento da CBF ou quem quer que seja. Andei pela América toda e vamos verificar se estão dentro dessas normas da Conmebol. Claro que não. Os próximos três anos têm tudo para serem melhores do que os que passaram.

Qual o planejamento para São Januário? Acredita que o estádio precisa ser remodelado?

Temos um projeto de ampliação, sempre preservando as características do estádio. Projeto feito, discutido, aprovado. Vamos ver se conseguimos transformar em realidade. Esse projeto, que não é de hoje, é de transformar o estádio para 45 mil pessoas, mas que seja autossuficiente. Não adianta tentar buscar, como vimos aí, recursos públicos.

Pode ser feito nos próximos três anos. O projeto principal é equacionar as coisas no Vasco, aí depois podemos fazer. Nós fizemos uma redução substancial da dívida, mas quando eu estiver com ela equacionada vamos poder partir para isso.

O senhor fez uma projeção mais otimista para os próximos três anos do ponto de vista financeiro. É possível reduzir mais as dívidas e também gerar mais receitas?

Gerar mais receitas nós já fizemos. A partir de 2019 vai mudar substancialmente a receita da TV, que é a maior. Depois vêm as indiretas. Depois de 2019, não vai chegar onde tem que chegar, mas vai aproximar. A divisão vai ser 40% igual para todos, 30% na exposição e 30% na meritocracia. O que significa isso para o Vasco? A TV sabe o que representa a exposição do Vasco, que vai ter o que a marca dele exige. Na meritocracia temos que ter um time que se coloque em posições acima.

Quando vamos buscar os patrocínios, todos são em função da própria televisão. A tendência é termos mais facilidade. Temos que buscar novas receitas, mas sejamos realistas, a maior é da televisão. Não é só do Vasco. De forma direta e indireta. Esses planos, esse sócio-torcedor... muita calma nessa hora. Não é como eles dizem.

Mas claro que precisamos de receitas alternativas. Se formos ao passado, a maior receita era de bilheteria. Hoje nem sei em qual colocação ficaria, mas não está entre as primeiras. Se eu for jogar para um grande público no Maracanã, 80% da receita é para despesas. Se não for grande público, esquece. As despesas são fixas. Acumulamos prejuízos.

Quais os planos para os próximos três anos para o programa de sócio-torcedor e para a área de marketing?

Está sendo um trabalho bem feito. Nós tivemos um problema, as coisas foram feitas erradamente no início. Tivemos diversos projetos que foram piadas, como o "Vasco é meu". Os caras divulgavam números e na prática não era isso. Hoje temos um projeto de sócio-torcedor mais responsável, porque não querer ter 40 mil com direito a vir ao estádio, e não tenho esses 40 mil lugares. Mas pensamos em oferecer vantagens aos participantes para que possam usufruir, e isso está em andamento.

É muito mais para fora do Rio de Janeiro. Na época atual, se não der vantagens... Esse projeto está bem elaborado, mas não sai da noite para o dia.

Qual sua perspectiva para o futebol do clube, principalmente diante dessa possibilidade de conquistar uma vaga na Libertadores, e também do trabalho feito nas divisões de base?

O futebol foi o que se pôde fazer, diante do quadro se apresentou. Não pudemos fazer o investimento que queríamos. Mas as coisas foram evoluindo. Hoje é evidente, e acho que vai acontecer, já disse isso lá atrás, que o objetivo era irmos para Libertadores. Aí vamos ter que fazer. E vamos fazer. Com uma coisa concreta podemos fazer o investimento.

A base eu considero como a maior realização deste meu período. Da forma como estava... e base não é um trabalho imediato, e nós tivemos resultado a curto prazo. O trabalho continua sendo desenvolvido. Temos um horizonte que se abre. Não é porque surgiu A, B ou C. A base se municiou, tem hoje todo um preparo que permite que se revelem os jogadores. E vão continuar surgindo. Formação física, psicológica, fisiológica... isso dá resultado. Tenho um Caprres da base. Acredito muito nessa base, que vai nos permitir formar uma equipe forte para disputar a Libertadores do ano que vem.

Com certeza vai ter um investimento maior. O time vai ser reforçado. Com certeza vai. Conseguimos acertar na escolha do técnico, da comissão técnica... Todos os atletas que estão emprestados são com opção de compra. Quando digo que terá investimento, ao terminar o Brasileiro vamos fazer, mas sempre com muita calma. O treinador vai avaliar, vai dizer os pontos em que acha que se precisa reforçar, e vamos ver. Sem essa história de barca. Ideia é manter a base.

Este ano houve acusações do Ministério Público sobre uma suposta relação do senhor com torcidas organizadas. Pretende mudar sua forma de lidar com elas?

O MP diz o que quer. Precisa comprovar. Não tenho, nunca tive, e nunca vou ter. Essa ligação que querem dizer. Entendo que, desde lá de trás, torcida organizada é da maior importância para o futebol, como torcida. Mas como negócio, como grupo de marginais que se infiltram, nunca tiveram cobertura minha. Dizem, mas não provam.

(Sobre o caso do torcedor que agrediu o zagueiro Rodrigo na porta do hotel) Não posso impedir que um cara desse faça o que fez. Repudiamos. Mas qual a ligação que ele tem comigo? É mentira, nunca foi funcionário do Vasco. Nunca.

Eu quero é esclarecer. Se eu tenho funcionários que pertencem a torcida organizada... não viraram funcionários porque são de torcida organizada. Eu não posso impedir que participem. Por exemplo: abrimos um programa de estágio, aí tenho que perguntar se é de organizada? Só se agora temos que fazer dessa discriminação.

A lei não permite esse tipo de coisa, não posso perguntar se é homossexual, bissexual... a lei não permite. Mas agora obriga a perguntar a um candidato se pertence a torcida organizada? Se tem alguém que pertenceu ou pertence, eu não vejo problema. Vejo problema se, em sendo funcionário do Vasco, cometeu este ou aquele problema, que aí é outra coisa. Aí teu tenho que apurar. Mas eu não discrimino negro, branco, se mora na favela, se não mora na favela. Nunca admiti isso.

O problema não é querer imputar isso ao clube. É cumprir. Se tem uma penalidade, compete a quem fiscalizar? Sou eu? É a autoridade policial. Eles sabem quem não podem e deixam. Tenho que colocar um cartaz do tamanho de um bonde na porta? O policial sabe. Se tem que comparecer na delegacia, o que tem que fazer? Só isso. Dizem que eu incentivo. Pelo contrário. O prejuízo foi do Vasco, causado por esse pessoal chamado de oposição que criou esse tipo de coisa. Prejuízo financeiro e técnico. É só ver a coisa como é.

Esse cidadão, o presidente do conselho fiscal, teve um surto e acho que queria ser candidato a presidente. Sentou comigo, e eu perguntei se ele achava que tinha condição de ser presidente do Vasco. Disse: "Acho". Segunda pergunta: acha que tem condição de vencer uma eleição no Vasco, em especial contra mim? Aí a resposta pronta foi: "Depende do resultado do futebol". Ou seja, quando pretendem fazer algo político, precisam torcer contra o futebol, contra o Vasco. Tudo que puderem fazer, vão fazer.

É a resposta a tudo o que aconteceu. Acha que o torcedor de verdade do Vasco vai fazer algo contra o clube sem ser incentivado por alguém? Eu só incentivo a favor. Nunca permiti violência. Meu histórico é prova disso. Nos outros clubes acontecem invasões, aqui não veem isso. Podem ver tentativas, mas são coibidas.

A lista de sócios votantes, que as chapas de oposição apontam irregularidades, talvez tenha sido mais uma vez o assunto mais discutido nesse período eleitoral. O sócio que vier a São Januário no dia 7 de novembro votar pode ter certeza de que as eleições serão limpas?

Eleição no Vasco sempre foi limpa. Na eleição passada, tinha Ministério Público, OAB... Quem presidia a eleição era o Roberto Monteiro, que agora diz que as eleições podem não ser limpas. O outro fala que tem mensalão. Então ele se elegeu com o mensalão, esse Fernando Horta? A eleição no Vasco sempre foi limpa, mas quando o cara perde diz que é fraudada. Você coloca a lista, publica a lista, dá o prazo para as impugnações... Algumas impugnações foram aceitas. Acho que só uma, dentro do prazo, que não foi aceita.

Aí fazem pesquisa encomendada. Cada um com a sua. Aí veem que têm que criar alguma coisa. E criam. São factóides. Esse pessoal que fala em lista não quer saber do Vasco, quer saber das pretensões deles. Querem fazer o que fizeram no Vasco. Arrasaram com o Vasco. Ah, porque na lista tem um série de funcionários. E daí? Funcionário não pode? Não tem ninguém sem CPF. Só os remidos. Foi feito um recadastramento. Falam em sócios falecidos. E daí? Eles vão votar no dia? Continuam na lista se não comunicarem.

O voto é pessoal, tem que se identificar, ver se tem condição, se consta na listagem... A listagem foi publicada no site do Vasco, com todos os prazos. Aí começam a ver que está difícil o retorno deles, aí começam a criar esse tipo de coisa. Ação na Justiça, depois outra, mais outra... Você acha que eu iria fraudar uma eleição para permanecer no Vasco? Nunca fiz, não farei. Isso é cargo espinhoso para mim, pode não ser para eles, que acham que podem administrar o Vasco por email.

Um das críticas feitas por seus opositores é de que é excessivamente centralizador e que só confia nos seus filhos para delegar responsabilidades. O que tem a dizer sobre isso?

Meus filhos são capazes, competentes. O que está na base (Álvaro Miranda) é professor de educação física e está nisso há mais de 15 anos. Tem todos os cursos necessários. É de absoluta confiança. Ponto. O outro, o Eurico, está se prejudicando. Está ajudando o Vasco... é advogado, militante, tem seu escritório e outros negócios, que ele deixa de lado.

Eu entreguei o futebol a uma pessoa chamada José Luiz Moreira, só que ele entregou o futebol a uma pessoa que demonstrou absoluta incompetência, o Paulo Angioni. Me obrigou a intervir e mandar embora. O Sr. José Luiz Moreira ficou magoado. E o meu filho, o Eurico (Brandão), que é Grande Benemérito do Vasco, veio para salvar em uma situação muito difícil.

Se eu não tivesse acreditado nos caras que eu coloquei, o Vasco com certeza não cairia. Fui acreditar e, quando acordei, já era tarde. Se eu acreditar, como tenho que acreditar no futebol só em mim, posso afirmar que comigo não cai para a Série B, mesmo. Mas trouxe esse Zé Lu Moreira e esse Paulo Angioni, esse executivo do futebol, e que foi o grande responsável por tudo o que aconteceu. E quando eu fui, não fui a tempo. Não fugi da responsabilidade. Disse que a responsabilidade é minha, o que vou fazer? Eu tenho que assumir. Ficou uma mancha no meu histórico que não se apaga. Quem tem a história que eu tenho no futebol pode falar o que quiser, mas isso é uma mancha na minha história, no meu passado.

Quando dizem que sou centralizador... centralizo no seguinte, isso precisa ser explicado. Gostaria de não precisar. A situação que encontrei tinha que passar, como passa até hoje, por mim. Não quer dizer que eu faça, mas tem que passar por mim. Controlo o que se paga, o que compra, para saber se pode ou não pode. Se eu comprar, tenho que pagar. Não sou nada centralizador, sou responsável. Se as pessoas fazem e dá certo, tudo bem. Se dá errado, o responsável sou eu. Com regime presidencialista, o presidente é o responsável. Se não fez, permitiu que fizesse.

Há nas chapas de oposição alguns dos seus ex-aliados. Como encara essa situação? Havia um acordo para o senhor apoiar o Fernando Horta nessa eleição?

O Otto (Carvalho, membro da chapa de Fernando Horta e presidente do conselho fiscal) teve um surto. O Horta passou aqui e foi totalmente omisso. Eu não faço acordos que não cumpra. Quem me conhece, dentro de fora do Vasco, sabe que não preciso assinar. O que ocorreu com o Fernando Horta foi o seguinte: disse para ele participar e, ao natural, passa a ser o candidato. Mas não participou nada. Zero. Pelo contrário. Como eu iria apoiar um sujeito que esteve dentro e não participou? Se não participou comigo, imagina "sem migo". Evidente que não.

Eu não forço nada, não exijo nada. Se eles, os vice-presidentes amadores, deixarem de ser, serão meus ex-aliados? Só sei que sou o presidente do Vasco. Não gosto de falar a meu respeito, mas tenho 50 anos de serviços relevantes prestados ao Vasco. A única coisa que esse pessoal deveria era ter respeito por mim, e não tem.

Ocupei todos os cargos que se possa imaginar. O Fernando Horta... qual foi o cargo que ocupou antes? Nenhum. O que ele conhece de Vasco? Zero. Como outros... Caem de para-quedas e pensam que podem ser presidentes do Vasco. Não pode dar certo, não têm experiência de Vasco. Não compara. Costumo perguntar a essas pessoas se eles sabem quantos portões têm em São Januário, e eles não sabem. As outras sedes não conhecem de jeito nenhum.

Em termos de Vasco, não quero nenhum aliado. Quero que sejam aliados do Vasco. Quando entenderem que não sou benéfico ao Vasco é outra coisa. Lógico que tenho os que estão comigo, e eles sabem do que é feito, do que passamos. Eu poderia chegar e dizer que a situação é assim, assim... para denegrir o Vasco? É a última coisa que vou fazer.

As contas de 2016 ainda não foram votadas. Por quê?

Porque o conselho fiscal, que tem esse seu Otto, não verificou as contas como deveria, apesar de todas estarem à disposição. Verificariam tranquilamente. Chegou a dar um parecer negativo sem ao menos analisar as contas (Eurico pede que um de seus vice-presidentes vá ao almoxarifado buscar uma caixa com o movimento contábil do clube e a apresenta).

Tão logo eles terminem, serão votadas. Eles falam, mas não tem nada a ver. Não tenho dúvida que serão aprovadas. Aliás, para eles não faz diferença nenhuma. Querem utilizar de uma forma política. Aqui os documentos estão todos tranquilos, sem problema.

Fonte: GloboEsporte.com