Muriqui: 'Não me arrependo de ter voltado ao Vasco'

14/03/2018 às 08h07 - FUTEBOL

Com passagens por Vasco, Atlético-MG e Avaí, Muriqui foi revelado pelo Madureira em 2004. Após passar por diversos times no Brasil, foi um dos primeiros a se transferirem ao futebol chinês, logo no início da era de grandes investimentos do país asiático. Em 2010, foi ao Guangzhou Evergrande e hoje, oito anos depois, é um dos maiores jogadores da China.

Em entrevista ao Torcedores.com, o atacante que já foi eleito o melhor jogador do ano na China em 2011 e 2013 – ano em que foi eleito também o melhor da Ásia – afirmou ter plena consciência do tamanho que atingiu no maior país do mundo, mesmo não tendo grande sucesso no Brasil. No início do mês, Muriqui foi eleito o sexto jogador mais influente da história da China, ficando à frente de nomes como Neymar (8°) e Pelé (23°).

“Eu tenho noção do que eu represento no futebol chinês. Eu fui o primeiro a vir para cá depois do início de grandes investimentos que os clubes chineses fizeram em atletas de nome do futebol brasileiro. Sei o que represento aqui”.

Muriqui também passou pelo Japão e pelo Catar, onde atuou com ninguém menos que Xavi Hernández, um dos maiores ídolos da história do Barcelona, a quem afirma ser o maior que atleta que já jogou ao lado.

“Me chamou muito a atenção a vontade que ele tem de vencer sempre, e isso fez com que a gente, que atuava ao lado, tivesse essa motivação a mais. Foi o jogador mais técnico com quem eu atuei ao lado”, frisou Muriqui.

Atualmente Muriqui atua pelo Meizhou Meixian Techand, equipe que subiu da terceira para a segunda divisão chinesa e vem fazendo grandes investimentos. Confira a entrevista completa do atacante ao Torcedores.com.

Torcedores.com: Você chegou ao futebol chinês no início da década, quando o campeonato local ainda não tinha o poderio financeiro que tem atualmente. Como é manter essa longevidade e a idolatria do torcedor chinês por tanto tempo, principalmente visto que vários brasileiros vão à China e têm problemas de adaptação?
Muriqui: O início é muito difícil. Quando você consegue uma adaptação rápida, fica mais fácil viver e se acostumar com as diferenças no dia a dia. Eu, graças a Deus, tive uma adaptação rápida e isso foi um ingrediente importante para o meu sucesso na Ásia. Os primeiros meses são importantes para definir como você vai render no clube, mas, felizmente, tive a ajuda de amigos que facilitaram minha chegada aqui.

Torcedores.com: Você foi eleito recentemente o sexto jogador mais influente do futebol asiático por uma pesquisa, ficando à frente de Pelé e Neymar, por exemplo. Tem ideia do tamanho que já possui no futebol local após as passagens por Qatar e Japão?
Muriqui: Sim, sim. Eu tenho noção do que eu represento no futebol chinês. Eu fui o primeiro a vir para cá depois do início de grandes investimentos que os clubes chineses fizeram em atletas de nome do futebol brasileiro. Sei o que represento aqui e é bacana ficar à frente de jogadores consagrados e ter o carinho dos torcedores aqui. Isso mostra que o que eu fiz aqui ao longo do tempo foi satisfatório e o respeito permaneceu ao longo dos anos.

Torcedores.com: Antes de partir para o Guangzhou, em 2010, passou por vários times no Brasil, incluindo Vasco e Atlético-MG. Sair do país naquele momento foi uma opção financeira ou houve outras motivações?
Muriqui: Na realidade foi uma aposta. Eu jogava no Atlético-MG, que tem enorme tradição, era titular da equipe, tinha uma estrutura maravilhosa e, quando decidi vir para cá, tive que pensar muito. Eu não conhecia nada do país, da cultura deles, do clube e do futebol que era jogado. Graças a Deus, deu tudo certo, tive uma adaptação muito boa e as coisas aconteceram da melhor forma possível. É claro que o pensamento prioritário de quem vem para cá é de ganhar dinheiro. O que o jogador busca aqui é fazer um pé de meia, dar melhor qualidade de vida para a sua família e, depois, aos poucos, vai vendo como funciona o futebol. Com o tempo, vai ganhando competitividade e sabendo que é cobrado por resultados aqui como em qualquer outra liga do mundo.

Paulo Fernandes/ Vasco.com.br

Torcedores.com: Teve uma passagem apagada pelo Vasco no ano passado, voltando ao Brasil após sete anos no futebol asiático. Quais foram as dificuldades que teve na volta?
Muriqui: É difícil falar porque tudo que eu fale pode soar como desculpa. Eu cheguei com uma expectativa muito grande, depois de muito sucesso no mundo asiático, e chegou o momento que eu decidi voltar ao Brasil porque queria ficar perto da minha família, jogar na minha cidade, voltar pra casa. Além disso tudo, no Vasco eu tinha uma história no início da minha carreira que ficou mal escrita. Uma história que eu fiz lá atrás, e queria apagar aquela imagem com os torcedores. Ao retornar ao futebol brasileiro, tive problemas de lesão por conta do tempo de inatividade, acarretando em problemas no joelho, dores na lombar e acabei perdendo a pré-temporada. E isso pesou muito no meu início. Quando eu estava pronto para jogar, o time já estava encaixado, houve troca de comando e o treinador tinha outras ideias de jogo, sem contar comigo. Como todo jogador quer jogar, acabou gerando uma insatisfação porque queria estar em campo ajudando meus companheiros, dando alegria para a torcida, mas, infelizmente, as coisas não aconteceram da forma como planejei. Valeu a oportunidade, mas as coisas não saíram como eu pensei, mas agradeço ao clube e saio do país querendo escrever novos capítulos na minha carreira.

Torcedores.com: Se arrepende de ter voltado ao Vasco no ano passado?
Muriqui: Não me arrependo de ter voltado ao Vasco. Foi uma escolha minha porque eu ainda tinha dois anos de contrato no Japão. O que eu me arrependo foi de ter acelerado meu retorno aos campos. Acho que eu poderia ter feito um trabalho de reforço muscular mais completo, um trabalho de prevenção de lesão por mais tempo e, talvez, a história poderia ter sido diferente. Eu tenho certeza de que, se eu tivesse em condições normais, as coisas no clube teriam acontecido de forma diferente.

Torcedores.com: Aos 31 anos, se transferiu ao Meizhou Meixian Techand, da segunda divisão. Quais são as principais diferenças em relação à primeira divisão local e ao próprio futebol brasileiro?
Muriqui: O Meizhou é um clube que subiu agora da terceira para a segunda divisão e está com planos de clube vencedor. Eles estão com um projeto muito interessante para os próximos anos, visando a primeira divisão, e fico feliz por ter sido escolhido para iniciar esse projeto para alcançar esses objetivos. Nossa equipe tem menos experiência nesse tipo de competição, mas esperamos surpreender os rivais. Não sei se conseguimos o acesso nesse primeiro ano, mas queremos ganhar confiança para obter rodagem, maturidade para conseguir, quem sabe, subir em 2019 para a divisão de elite do futebol chinês. O futebol brasileiro é muito jogado, muito tocado. Aqui na China é muita correria, muita velocidade, e a bola rola muito. Acho que essa é basicamente a principal diferença.

Torcedores.com: Como enxerga a convocação de jogadores brasileiros que disputam o Campeonato Chinês para a Seleção Brasileira? Há uma evolução no campeonato nacional para que seja uma vitrine como são os campeonatos europeus hoje?
Muriqui: Eu acho legal isso por um lado. Porque, independentemente de onde o cara está jogando, o treinador está observando. Por outro lado, os jogadores que estão sendo convocados são homens de confiança do treinador. Acredito que eles são convocados muito mais por serem conhecidos do Tite do que pelo futebol que estão jogando aqui. É claro que estamos falando de jogadores de muita qualidade, como o Renato Augusto, o Paulinho, que jogava aqui, e o Gil. Mas são atletas que já trabalharam com o Tite, que já conhece o potencial deles. O motivo da convocação não é exclusivamente pelo o que eles estão apresentando aqui na China, e sim por eles já terem trabalhado juntos.

Torcedores.com: No Qatar, você atuou ao lado de Xavi. Foi o principal jogador que atuou ao lado? Como era a convivência?
Muriqui: Me surpreendeu muito ter tido a oportunidade de atuar com o Xavi. É um cara muito profissional, que não foge de treinamento, exceto quando é muito necessário. É um cara muito educado, muito respeitoso, não só comigo, mas com todos do clube. Me chamou muito a atenção a vontade que ele tem de vencer sempre, e isso fez com que a gente, que atuava ao lado, tivesse essa motivação a mais. Foi o jogador mais técnico com quem eu atuei ao lado e foi muito bacana ter dividido vestiário com o Xavi.

Torcedores.com: Pretende voltar a jogar no Brasil?
Muriqui: Acho difícil voltar a jogar no Brasil novamente. Não descarto a possibilidade, mas, se tivesse que voltar, gostaria de jogar pelo Madureira, que é o clube que me revelou, e o Avaí, pelo qual tenho muito carinho, ajudou muito na minha carreira. Não sei se isso um dia vai acontecer, até porque não depende só de mim, mas são dois clubes que eu teria uma vontade de atuar num possível retorno ao Brasil.

No Guangzhou Evergrande, último time que esteve antes de se transferir ao Meizhou e no qual é ídolo, Muriqui disputou 130 partidas, marcou 66 gols e distribuiu 44 assistências. Conquistou cinco vezes o Campeonato Chinês, uma vez a Copa da China, a Super Copa da China e a Liga dos Campeões da Ásia.

Fonte: Torcedores.com