Paulo Autuori:"Devo muito ao Botafogo"

Em 03/04/2013 08:35
 

Já eram duas da madrugada quando o clube liberou o banho de piscina para a garotada que saía do baile. Paulo Autuori, então com 15 para 16 anos, mergulhou com a alegria que lhe faltaria por muito tempo. O falso sintoma de uma gripe forte derrubou-o e, três dias depois, sem força no lado direito do corpo, não conseguia calçar os sapatos para ir ao médico. O diagnóstico de pólio custou a chegar a seus ouvidos. Onde contraíra? Na piscina, talvez. O drama tirou Autuori do time de futsal do Grajaú Country, mas a história não acabava ali. Como técnico, foi bicampeão da Libertadores (Cruzeiro, em 1997, e São Paulo, em 2005) e campeão mundial (São Paulo, em 2005). Nesta quarta-feira, Autuori se reencontra com o Botafogo, clube pelo qual conquistou o título brasileiro de 1995.

Ficou deprimido quando teve de parar de jogar bola?

Naquele tempo, não existia depressão (risos). Dos 9 aos 16 anos, meu negócio foi futebol. Jogava salão no Grajaú Country e, quando pensei em ir para o campo, peguei pólio. Eu era vacinado, mas fiquei com uma sequela na perna (direita). No Hospital Barata Ribeiro (na Mangueira), convivi com deficientes físicos irreversíveis. Aquilo era o meu mundo. Eu é que tinha que dar força aos caras.

“Peguei pólio. No hospital, convivi com deficientes. Aquilo era meu mundo”

Um técnico bicampeão da Libertadores e campeão do mundo precisa provar o quê?

Minha vida não me permite pensar assim. Minha luta não é com ninguém, mas comigo mesmo. Quero ser melhor do que sou. No futebol, há muita coisa a se fazer por esse buraco que a gente deixou entre a época vitoriosa e essa de agora.

Como pode contribuir? Pensa em ser dirigente?

Eu me sinto em condição de dar alguma colaboração, trabalhando com pessoas que tenham passado pelo esporte. Quem cuida do futebol do Bayern de Munique? Franz Beckenbauer, Uli Hoeness e Rummenigge. Por que você acha que o Guardiola preferiu o Bayern aos emergentes Manchester City e Chelsea? O Chelsea é do Abramovich. Deu na telha, ele tira o técnico. O City é de um árabe. É a mesma coisa.

Quer presidir um clube?

Presidente, eu não quero ser. Mas falo para o jogador: prepare-se. Você pode ser presidente de clube. Não é só pensar em acabar a carreira e virar técnico. Hoje, há outras opções.

“Lá na Europa, pagam (ao técnico) menos do que aqui. Bem menos”

Então, pensa em presidir uma Federação ou a Confederação Brasileira?

Quero estar num grupo de pessoas com coragem para fazer mudanças. Iríamos bater de frente com muita gente. Mas, antes disso, quero gerir clube, fazendo a integração entre o primeiro time e a base. Previ, quando estava no Qatar, continuar como técnico por mais três ou cinco anos e, depois, pensar em outra situação.

A Federação do Rio e a Confederação Brasileira deixam a desejar?

Totalmente. Faltam conceitos claros sobre o que deve ser o papel de uma federação e uma confederação. Uma federação tem que ajudar os clubes. O dinheiro que entra ali é para ser distribuído entre os clubes. A CBF não pode só pensar na seleção, mas no futebol brasileiro como um todo. Tem que oferecer boas condições, ajudar os clubes, habilitar profissionais, padronizar estádios… Aqui no Brasil, tem que acabar esse negócio de, após um jogador ser expulso, aparecer um desembargador, torcedor do clube, para dar o efeito suspensivo. A Fifa não permite isso. Isso tira a credibilidade. É um desrespeito.

O treinador brasileiro tem remuneração muito alta?

Muitos treinadores lá fora já vieram dizer pra mim que o mercado no Brasil é bom. Boto nos dedos de uma mão os treinadores tops no mundo que ganham muito, muito bem. Mourinho, Guardiola, Capello, Arsène Wenger, Guus Hiddink… Falei cinco? Então, não passa disso. Esses caras são exceções. Agora, a média… Vai ver lá na Espanha… Pagam menos do que aqui. Muito menos.

A classe pensa assim?

Pelo amor de Deus, eu tenho que ter liberdade para pensar assim, agir e falar sem medo do que a classe vai pensar. O jogador é o artista e, não, o técnico. Estamos trocando um pouco as bolas. Os protagonistas são a torcida e o jogador. Veja bem: não digo que quem está aqui não merece. Vou te dar um exemplo: devo muita coisa ao Botafogo. Devo minha carreira, porque foi o clube que me abriu as portas quando ninguém me conhecia. Quando cheguei ao Botafogo, eu era chacota. Chacota! Onde eu for, não vou esquecer o clube, a instituição, os torcedores. Chega um momento em que, em troca, você tem que dar alguma coisa ao futebol. Mesmo que eu me sacrifique em termos financeiros, tenho que fazer.

“Devo minha carreira ao Botafogo. Quando cheguei lá, eu era chacota”

O mercado europeu não vai se abrir ao técnico brasileiro?

Infelizmente, não temos mercado na Europa. É pela falta de qualidade do treinador brasileiro? Não. Nossa classe não se preparou para acompanhar a evolução do preparador físico, fisiologista, médico, fisioterapeuta. Esses profissionais são tops no Brasil.

É verdade que não receberá multa em caso de rescisão?

Nunca tive isso. Provo facilmente. Meus salários no Brasil nunca foram astronômicos porque minha cabeça era de dirigente.

A saída do Dedé é boa ou ruim?

Vamos analisar nas duas vertentes. Na financeira, é importante. O clube não pode ter vergonha de dizer isso. Desportivamente, não. Para você fazer um time que aperte lá na frente, vai precisar de um zagueiro que diga: “Vai, que eu garanto”. O Dedé tem esse tipo de personalidade e ganhou confiança técnica para fazer isso. É uma perda.

Por que nossa seleção está tão mal?

Não é a seleção. O momento do futebol brasileiro é que está complicado. Mano (Menezes) não teve o elo de uma geração para outra que os demais treinadores tiveram. Esse elo pode ser o Ronaldinho, o Kaká, o Julio Cesar… Mas é muito pouco em relação ao que outros tiveram. E tem mais: se alguma coisa de organização ou estrutura der errado, vai haver uma pressão na equipe. Você tem que ter muita estrutura para disputar uma Copa em casa.

“O efeito suspensivo tem que acabar aqui no Brasil. Isso tira a credibilidade”

A troca do Mano pelo Felipão atrapalha?

Eu acho que não foi legal. Mostra que não se está trabalhando com coisas claras na cabeça. A mudança de rumo foi brusca. O que se fez, jogou-se fora. Perdemos muito tempo.

Sob o seu comando, o Botafogo surpreendeu ao ser campeão brasileiro em 1995. Que lembranças tem?

O gramado do Caio Martins estava sendo reparado, e a gente treinava atrás do gol. No começo, ninguém acreditava. Depois, vieram Leandro Ávila, Gonçalves, Donizete… Tivemos um pouco de sorte também. É muito fácil falar em trabalho, mas eu era um total desconhecido, num clube onde ninguém sonhava ser campeão brasileiro.