Revelado no Vasco, Allan admite: "Sou mais um torcedor do Vasco na Europa"

02/03/2018 às 21h55 - FUTEBOL

Na sexta temporada no país europeu, o português de Allan sai carregado de sotaque. Na Itália, mudou de paladar, aprendeu a apreciar a pasta mais do que o arroz e feijão, mas não se esquece dos familiares e amigos que ficaram à beira do Piscinão de Ramos, expostos à crescente violência na cidade onde nasceu, às duras que levou da polícia nos tempos de anonimato. Nessa época, foi campeão mundial sub-20 com a seleção, era o 12º jogador de um grupo que tinha Danilo, Alex Sandro, Casemiro e Philippe Coutinho, todos eles bem cotados para a Copa na Rússia. 

O Napoli é líder do Italiano, tem a chance real de ser campeão, desbancar o Juventus e quebrar jejum de 28 anos. Como lida com isso? 

Nossa expectativa é ser campeão, há três anos trabalhamos para isso, o mesmo grupo de jogadores. Nosso torcedor está muito ansioso, mas não podemos imitá-lo, isso pode nos atrapalhar. Fazemos um bom campeonato (em 26 partidas, são 23 vitórias e apenas uma derrota), mas precisamos viver um jogo de cada vez. 

Passa pela sua cabeça que a última vez que o Napoli foi campeão italiano foi com Maradona? 

Faltam ainda 12 jogos e eles são os mais perigosos. Procuro não pensar tanto nisso, mas tem torcedores que falam conosco, dizem que não temos noção da festa que eles farão se formos campeões. Posso dizer que os torcedores do Napoli são os mais apaixonados por futebol que eu já vi na minha carreira. Eles esperam há muito tempo por esse título. 

Se o grupo de jogadores é o mesmo, o que faltou nos outros anos? 

No primeiro ano, brigamos pelo título até o final, mas faltou experiência para o time nos últimos jogos. No segundo, não fomos tão bem e terminamos em terceiro, mas tudo nos serviu de aprendizado. O Juventus está acostumado a ganhar, tem um time muito forte. Entendemos nesse tempo que temos de errar o menos possível. 

É seu melhor momento na carreira? 

Sem dúvida, venho fazendo uma temporada excelente, conseguindo manter regularidade muito grande (Allan jogou todas as partidas do Napoli na temporada até agora). Estou fazendo bons jogos, ajudando a equipe a conquistar os pontos necessários. Mas não está sendo fácil. Fomos eliminados na Liga dos Campeões e entramos na Liga Europa. Contra o Red Bull Leipzig, demonstramos que poderíamos ter avançado (o time foi eliminado no número de gols fora de casa) e ficamos chateados. Agora o Italiano é o único objetivo que temos pela frente. Trabalhamos muito por esse sonho e estamos maduros o suficiente para realizá-lo. 

Por falar em sonho, a Copa do Mundo ainda é uma meta para você? 

Venho acompanhando as convocações, Tite já disse que tem muitos jogadores certos, mas enquanto houver um pouco de chance, tenho fé de ser chamado. Venho fazendo um grande campeonato com meu time, com muita regularidade, muitos jogos seguidos atuando bem. Aqui na Itália as pessoas me perguntam por que ainda não fui convocado para a seleção e digo que não tenho como responder isso. Se Deus quiser, a chance pode aparecer. 

Pode pesar o fato de o Campeonato Italiano ter perdido prestígio? 

Não sei, porque se parar para pensar, ele chamou jogadores que estavam na China. Paulinho agora está no Barcelona, mas foi convocado jogando na China. Se tiver boa vontade, não é tão difícil de acompanhar o Campeonato Italiano. Pode estar hoje num nível abaixo do Campeonato Inglês, do Campeonato Espanhol, mas é um campeonato top 3 mundial. Não é difícil nos ver. 

Você ainda acompanha o Vasco? 

De longe, sempre procuro acompanhar, tenho alguns amigos que estão no clube até hoje. Sou mais um torcedor do Vasco na Europa, foi o clube que me deu a oportunidade de eu me tornar quem eu sou hoje. Estou na torcida para que possa fazer uma grande Libertadores, o Vasco tem de disputar essa competição todos os anos. 

E a área do Piscinão de Ramos, onde você cresceu, ainda frequenta? 

Tenho muitos amigos lá até hoje, tenho familiares, vou lá até hoje, quando estou de férias no Brasil. Nunca vou abandonar aquele lugar, todas as vezes que vou, me sinto bem, sou muito feliz. 

Como você tem visto a violência crescente na cidade e na Maré? 

Acompanho as noticias daqui, o Rio está um lugar muito violento, mas é uma cidade maravilhosa, tem tudo de bom que uma pessoa possa procurar. Fico triste, espero que possa ser uma fase e passe o quanto antes. É difícil ver gente da família sendo roubada, notícias de assalto, é uma coisa que me preocupa. 

Você já passou por alguma experiência ruim onde cresceu? 

Passei sim, as pessoas que moram na comunidade sempre passam por isso. Várias vezes a polícia me revistou, perguntou para onde eu estava indo, o que está fazendo naquele lugar. A gente acaba sofrendo esse tipo de discriminação. A verdade é que não fui o primeiro e nem vou ser o último a passar por isso. 

Acha que essa intervenção militar na cidade possa ajudar? 

Tomara que ajude, seja a polícia, seja o exército, o importante é que as pessoas possam ter paz de novo. 

E o que dizer da vida na Itália? 

Cresci muito aqui como pessoa, é um país ótimo. Não sou de sair muito, vou mais aos restaurantes. No Brasil, não era muito de macarrão, só queria saber de arroz e feijão, mas aqui aprendi a gostar de uma boa pasta. Se passo um dia sem comer, já sinto falta. Em Nápoles tem sol, as pessoas são bem abertas, nesse sentido é bem parecido com o Rio. 
 

Fonte: O Globo Online