Vetada após sugestão de Eurico, grama sintética ainda divide opiniões

19/05/2017 às 18h12 - FUTEBOL

A discussão sobre o gramado artificial ganhou um capítulo importante em 2017. O piso da Arena da Baixada está proibido para o próximo ano após votação entre os clubes na CBF. O veto à utilização do recurso no Brasileiro a partir da próxima temporada impacta diretamente no estádio do Atlético-PR, que agora vê seu futuro em jogo. Desde que a grama foi instalada em Curitiba, no ano passado, ela virou assunto entre jogadores, dirigentes, imprensa e torcedores.

Mas, afinal, qual a participação do gramado no desempenho dos times e atletas? Quais os prós e contras? Para responder essas questões, o GloboEsporte.com ouviu a opinião de jogadores de 12 clubes da Série A que atuaram na grama sintética durante o Brasileirão de 2016. Não foram ouvidos os times que caíram para a Série B no ano passado e que subiram para a elite em 2017. A Chapecoense, devido à tragédia aérea, também ficou fora. No próximo domingo, o Furacão faz o primeiro jogo pelo Brasileirão em casa, diante do Grêmio, pela segunda rodada.

O que foi motivo de análise, discussão e debate vai contra a visão dos envolvidos no espetáculo. A maioria dos jogadores que atuou na Baixada avaliou que o Furacão não leva vantagem com o piso. Além disso, a maior parte dos boleiros disse que não sentiu dificuldade para jogar no gramado artificial.

– Na verdade, a gente até se sentiu bem. É uma grama que não é tão dura. Quando terminou, a gente até elogiou o gramado. O que eu senti e ouvi dos companheiros não teve palavras negativas – disse o lateral-esquerdo Marcelo Oliveira, do Grêmio.

Entre as opiniões, os atletas comentaram sobre a diferença do piso, o tempo de bola e a adaptação à novidade, assim como a velocidade que o gramado impõe ao jogo, que, na opinião do meia Dudu, só melhora a partida.

- É diferente, sim. A grama é muito boa e o jogo fica mais rápido. Eu, particularmente, gostei bastante de jogar lá.

Opinião semelhante à do meia Camilo, do Botafogo.

- Senti diferença. A bola fica muito mais rápida, demora um pouco para você se adaptar por não estar acostumado a treinar e jogar nesse piso. Mas depois que se acostuma fica um jogo rápido.

O volante Renato, do Santos, lembra que o Furacão, derrotado apenas uma vez pelo Brasileirão em casa no ano passado, teve derrotas recentes na Arena, para Coritiba (na final do Campeonato Paranaense) e San Lorenzo (pela fase de grupos da Libertadores da América), ambas por 3 a 0.

– Eles estão acostumados. Mas não é tanta vantagem. Senão eles seriam imbatíveis, mas recentemente perderam jogos lá dentro. É uma questão de adaptação.

O zagueiro Rodrigo Caio, do São Paulo, foi além na avaliação. Segundo ele, o piso da Baixada tem boa qualidade e se assemelha ao gramado normal. Ainda conforme ele, as vantagens para os dois times jogando são iguais.

– As vantagens são as mesmas. Vamos nos adaptar a jogar lá. Se não falassem, não sentiria que o gramado é sintético. Quando é sintético tem aquela borrachinha, lá não tem. É um campo normal, como o do Corinthians, misturado. Acho que não tem vantagem alguma.

 

Teve quem não gostou

Entre os jogadores ouvidos que tem uma avaliação contrária, o zagueiro Ronaldo Alves, do Sport, entende que o Furacão se beneficia por estar acostumado ao gramado.

– Acredito que, por conta dessa característica do gramado, eles levam uma certa vantagem porque o time adversário tem que ter uma rápida adaptação ao gramado. Eles ainda molham antes, o que intensifica isso. O gramado não é ruim de jogar, mas acho que eles levam certa vantagem, sim.

Em relação à qualidade do piso, o lateral do Corinthians, Fagner, foi o único a não aprovar. Segundo ele, o gramado é duro e dificulta os atletas.

- Jogar na Arena da Baixada é bastante diferente. O gramado é duro, e prende o pé do atleta - disse.

 

Por que ter a grama artificial?

 

Historicamente, o Atlético-PR sofre desde a reforma da Arena da Baixada e a instalação do teto retrátil com a dificuldade de manter o gramado em boa qualidade. Dois principais motivos levaram o clube a trocar a grama natural pela artificial. Um é que o piso na Arena era tradicionalmente irregular. Como um rio passa embaixo do estádio e o sol praticamente não atinge o gramado, o campo tinha várias falhas e era alvo constante de críticas dos adversários.

Outro motivo é a economia. Desde a época da Copa do Mundo de 2014, o clube utilizava uma máquina que funcionava como um "sol artificial", mas com o custo de R$ 100 mil por mês. Ou seja, com o piso, o clube conseguiu reduzir os gastos com manutenção e despesas gerais e economizou por volta de R$ 2,4 milhões por ano. Além disso, com o "tapete", o Furacão resolveu as dificuldades que tinha de florescer grama na Baixada e ainda conseguiu colocar em prática o conceito multiuso do estádio, com a realização de vôlei, UFC e shows, aumentando a receita.

 

Em 2016: campanha invejável casa, terrível fora

O Atlético-PR terminou o Brasileirão de 2016 com a melhor campanha como mandante. O único time que conseguiu vencer o Furacão na Arena da Baixada foi o campeão Palmeiras. Em toda a competição, foram 15 vitórias e três empates, com um aproveitamento de 84,2%. Por outro lado, o retrospecto complicado do Rubro-Negro como visitante sustentou os argumentos de que o time poderia ser favorecido pelo gramado sintético. Em 2016, o Atlético-PR terminou com uma das quatro piores como visitante (ao lado dos rebaixados Figueirense, Santa Cruz e América-MG), finalizando o campeonato com apenas duas vitórias fora de casa.

 

Pioneirismo e aval da Fifa

Ação pioneira no futebol brasileiro, o gramado sintético da Arena da Baixada foi instalado no início de 2016, após dois meses de obras no estádio. Com o objetivo de propiciar um melhor campo de jogo aos jogadores, a iniciativa teve o aval da Fifa, que emitiu o certificado Pro válido até o dia 6 de março de 2018. Estima-se que o Atlético-PR gastou cerca de R$ 4 milhões na instalação da grama.

 

Mais velocidade em jogo não é verdade, diz fabricante

A grama foi instalada pela GV Group, formada pelas empresas Global Stadium (portuguesa) e Italgreen (italiana). Segundo o diretor Rogério Garcia, diferente do que os jogadores costumam alegar, o jogo não fica mais rápido com a grama artificial.

– As informações que os jogadores têm são um dogma porque um dos testes da Fifa é justamente a velocidade da bola. É testado o modo que ela rola, o lançamento angular no seco e no molhado, o pique... Uma vez que o campo precisa ter o mesmo desempenho do natural, quando dizem que a bola corre mais é uma falácia, porque se não for similar à grama natural a Fifa não homologa - explicou por telefone ao GloboEsporte.com.

De acordo com Garcia, o Atlético-PR adquiriu os equipamentos que a Fifa usa nos testes anuais para homologar os gramados artificiais para poder fazer testes constantes no campo e não correr nenhum risco, sem perder a absorção de impacto ou velocidade. Para garantir a qualidade do piso, o clube mantém a varreção de forma regular para que o piso continue uniforme, sem altos e baixos.

– A manutenção do Atlético-PR para nós, como fornecedor, causou até surpresa. Eles são cautelosos e extremamente exigentes. Para um cliente normal, isso poderia ser feito a cada duas semanas. O clube faz toda semana e tem todo um cuidado de testar o campo de maneira regular para atender aos padrões da Fifa - completou.

O diretor ainda confia que o veto ao uso da grama artificial será revisto. Sem citar nomes, Garcia garante que diversos clubes da Série A e B estão em tratativas para instalar o gramado.

– Não acredito que a proibição vá se confirmar. As pessoas que não falam bem não acompanharam a evolução desse tipo de material e tendem a criticar sem conhecer. Ele é completamente plano, não há qualquer irregularidade. Ele simula exatamente as condições de um gramado natural. No lado econômico é um investimento que se paga rápido, até pelos estádios terem o conceito multiuso. O Atlético-PR deixou de gastar. Os clubes vão ver como poderão economizar, não só na questão da manutenção, mas para ter mais datas para eventos e potencializar a receita do clube. Certamente daqui para frente essa visão tende a mudar.

 

O que diz a CBF
Em fevereiro deste ano, em congresso técnico realizado na sede da CBF, foi decidido que nenhum estádio no ano que vem poderá ter campo com grama artificial. A proposta foi levantada pelo presidente do Vasco, Eurico Miranda. Os clubes se dividiram, mas a maioria aprovou a ideia, com 15 votos a favor e 5 contra.

Segundo a CBF, a Fifa permite o uso da grama a partir do seu padrão de qualidade, mas faculta a autorização ao regulamento da competição. Neste cenário, a ideia do Vasco aprovada pela maioria dos clubes e não se trata de opinião da CBF. Por isso, após decisão dos clubes, o item foi no regulamento do Campeonato Brasileiro da Série A 2017, presente no artigo 22 do documento.

Veja abaixo todas as opiniões dos jogadores:

Você sentiu diferença em jogar na grama artificial da Baixada?

Wilson, goleiro do Coritiba: Não senti muita diferença. É um campo rápido, mas já jogamos em muitos gramados com a grama bem baixa e um piso mais duro, que deixa a bola mais rapida também. Estamos adaptados a campos assim.

Kleber, atacante do Coritiba: É um pouco diferente, o jogo é mais rápido. Mas nada demais, que possa atrapalhar

Lindoso, volante do Botafogo: “Não senti tanto. Claro que é uma coisa diferente do normal, mas é uma grama sintética de nível muito bom. Você consegue jogar com trava mista normalmente, não é aquela grama sintética dura. É muito confortável, gostei muito, a bola correu bem, deixa o jogo mais rápido, é um campo sem irregularidades. Você pode ter certeza de que vai fazer um passe na direção que pretende e a bola vai chegar. Houve esse probleminha aí e vai ter essa retirada, mas eu gostei bastante da grama”.

Richarlison, atacante do Fluminense: “Gramado é um dos melhores do Brasil. Quando joguei, não senti maiores dificuldades, é um campo muito bom para jogar. Não faz muita diferença”.

Renato, volante do Santos: “A bola corre um pouco mais do que o normal, mas não tem nada muito desigual. Às vezes a gente pega campos ruins que prejudicam nosso jogo, mas lá o gramado está em perfeitas condições. O que varia um pouco é o tempo da bola”.

Dudu, meia do Palmeiras: “É diferente, sim. A grama é muito boa e o jogo fica mais rápido. Eu, particularmente, gostei bastante de jogar lá”.

Rithely, volante do Sport: “Não vejo tanta diferença, não. O jogador acaba se adaptando rapidamente".

Ronaldo Alves, zagueiro do Sport: “Acho que o jogo fica mais rápido. No gramado sintético, a bola corre mais do que o normal e isso acelera o jogo”.

Rafael Carioca, volante do Atlético-MG: “Não senti muita diferença e não acho que o Atlético-PR leva vantagem nisso, não. Parece muito gramado normal lá. A grande diferença é que a bola corre muito, e essa é a principal adaptação que temos que ter quando joga lá”.

Wesley, meia do São Paulo: “É bem diferente do tradicional. Mas não é desculpa caso aconteça uma derrota”.

Rodrigo Caio, zagueiro do São Paulo: “Não senti diferença, é um campo muito bom. A bola corre muito rápido. Por ser sintético, tem de usar mais força no sintético do que em campo normal. Gostei e achei um campo que nem parece ser sintético. Me adaptei pelo pouco que joguei”.

Fagner, lateral-direito do Corinthians: “Jogar na Arena da Baixada é bastante diferente. O gramado é duro, e prende o pé do atleta”.

Everton, meia do Flamengo: “Sente a diferença porque é um gramado muito rápido, em que a bola corre mais rápido do que o normal. Então você sempre tem de estar ligado no domínio, acho que é uma vantagem que os atacantes têm de a bola ficar muito mais rápida”.

Réver, zagueiro do Flamengo: “É claro que a gente sente um pouco. Principalmente no tempo de bola, na velocidade que o jogo ganha. Às vezes um domínio sai errado, fica mais complicado. Mas sabíamos que seria assim e fizemos o possível para nos prepararmos e diminuirmos os riscos. Infelizmente, não saímos com o resultado que gostaríamos. O Atlético-PR teve seus méritos e acabou saindo com a vitória”.

Camilo, meia do Botafogo: “Senti diferença. A bola fica muito mais rápida, demora um pouco para você se adaptar por não estar acostumado a treinar e jogar nesse piso. Mas depois que se acostuma fica um jogo rápido. Creio que não foi nenhum problema, basta que os clubes tenham estrutura para poder jogar nesses gramados. Em termos gerais eu gostei porque o jogo fica rápido, vivo, muito bom”.

Arrascaeta, meia do Cruzeiro: “Acho que não tem muito campo no Brasil com grama sintética. Joguei contra o Atlético-PR, que tem grama sintética, e foi bom, a bola correu bem, quica mais. Mas vai levar um tempo mais (para adaptação)”.

Fonte: GloboEsporte.com