Carlos Germano relembra decisão contra o Real Madrid e elogia Martín Silva

01/12/2018 às 11h22 - FUTEBOL

A data ”1 de dezembro” é simbólica na memória do torcedor cruzmaltino. Neste dia, há exatos 20 anos, ou seja, em 1998, o Vasco fazia a partida mais importante de sua história até o momento, contra o Real Madrid, em Tóquio, no Japão, pela final do Mundial de Clubes.

Diferentemente do sistema de disputa atual, em que há três fases até se chegar ao jogo do título e são sete equipes competindo, naquela época a taça era disputada diretamente entre o campeão da Liga dos Campeões da UEFA e o vencedor da Taça Libertadores da América. E o Gigante da Colina acabou derrotado pelo time espanhol por 2 a 1, em confronto bastante equilibrado (há quem diga que o Vasco jogou mais) e decidido apenas aos 39 minutos do segundo tempo.

E para recordar este inesquecível momento, mesmo com a não-vinda do troféu para São Januário, suas conquistas pelo Cruzmaltino, comentar a fase de Martín Silva, além de outros assuntos, o TORCEDORES.COM conversou, com exclusividade, com Carlos Germano, ex-goleiro e ídolo do Vasco. Confira:

1 – Neste sábado, completam-se duas décadas da partida contra o Real Madrid. Quais suas principais recordações sobre este jogo? Na sua opinião, o que faltou ao Vasco para ficar com o título, já que, teoricamente, de modo geral, fez uma partida superior ao time espanhol?

”Foi um bom jogo. O Real Madrid começou melhor a partida, teve um primeiro tempo melhor que o nosso, estávamos meio perdidos ainda no jogo. Mas a segunda etapa foi toda do Vasco. Chegamos ao empate e tivemos mais uma ou duas oportunidades de vencer a partida. Infelizmente, não conseguimos, mas o Vasco fez um segundo tempo maravilhoso. Ao menos para mim, Carlos Germano, particularmente falando, realmente era merecido esse título do Mundial.”

2 – Foi seu momento mais triste com a camisa do Vasco?

”Sim, foi nosso momento mais triste não ter conseguido esse título mundial para o clube. Era um sonho nosso. Mas um dia o Vasco chega lá novamente e vai poder trazer essa alegria ao torcedor vascaíno.”

3 – Como era seu relacionamento com os goleiros reservas Márcio, Caetano e até mesmo Helton, que acabou se tornando titular quando você saiu do clube, no início do ano 2000?

”Era o melhor possível. Ainda tinha o Azul, que hoje participa do Showbol e de alguns jogos de veteranos. A amizade sempre foi a melhor possível, com todos eles. A briga era de alto nível, eram grandes profissionais, e a gente tinha que estar sempre bem. Mesmo estando como titular, tinha que manter um nível alto de treinamento e estar focado nas competições e em algumas metas. Pro clube, individualmente falando, sempre procurando levar o Vasco a uma melhor situação. Mas a amizade sempre foi a melhor possível.”

4 – Você conquistou três títulos marcantes pelo Vasco, isto é, Brasileiro 1997, Libertadores 1998 e Rio-São Paulo 1999, além de ter sido tetra campeão carioca. Qual dessas conquistas te marcou mais e por que?

”Realmente foram título importantíssimos. Eu acho que, para o torcedor vascaíno, o que marcou mais foi a Libertadores, pois foi um ano festivo para o clube, seu centenário, o Vasco tinha uma grande equipe, e é o maior título da América. Isso fica na lembrança de todo vascaíno e na nossa lembrança como ex-atleta também. Então, eu acho que foi esse: Libertadores da América no ano do centenário do clube.”

5 – De todos esses títulos conquistados, qual equipe, na sua opinião, aliando técnica e tática, era a melhor?

”Eu sei que foi bastante importante a conquista do estadual invicto (1992), assim como o tricampeonato carioca (1992, 1993 e 1994), com grandes jogadores, mas eu me apego muito ao time de 1997 e 1998, em que a base foi a mesma, mudaram poucas peças. Aquele time já jogava praticamente o futebol que se joga hoje, em termos de recomposição, entrega, auto-rendimento, enfim, uma intensidade muito forte nos jogos.

Então, o que se assemelha um pouco ao futebol que se joga hoje, eram as equipes de 1997 e 1998, onde todos tinham funções específicas dentro de campo. Era uma ‘engrenagem’: a ‘máquina’ tinha que funcionar corretamente, as peças eram muito bem encaixadas, em termos de jogo, da forma como entrávamos em campo. As tarefas eram muito bem executadas. Enfim, eram grandes equipes, com jogadores brilhantes e que faziam o que tinha que ser feito, com muita intensidade.”

6 – Seu ótimo momento no Vasco o levou à seleção brasileira. Você foi campeão da Copa América 1997 e posteriormente convocado para a Copa do Mundo 1998. Como foi, para você, aquele fatídico episódio antes da final contra a França? O que pode falar sobre aquela ocasião?

”A gente lamentou muito a forma como foi, o jogo em si, o placar. Sabemos que o Brasil, quando entra numa competição, geralmente é o favorito, pela história que tem, mas nem sempre faz bons Mundiais. Na Copa de 1998, a gente começou meio que derrapando, o time foi se encontrando durante a competição. O ápice foi o jogo contra a Holanda, na semifinal. Foi nosso melhor jogo.

Qualquer competição que você jogue, seja uma Copa do Mundo ou um Campeonato Carioca, seu nível de concentração tem que ser muito forte. Imagine uma final de Copa e você tem um problema daqueles horas antes?! Tira todo o foco, tudo que é preparado em termos de concentração… Enfim, nesse aspecto, o que aconteceu foi muito ruim, refletiu muito dentro de campo.”

7 – Voltando ao assunto Vasco, trazendo para o presente: tem acompanhado o time? Acha que o Cruzmaltino consegue ou não se livrar do rebaixamento contra o Ceará?

”Eu acompanho todos os jogos do Vasco, sem exceção. Tô sempre ligado no Vasco. A gente, que viveu ali dentro muitos anos, praticamente respira o clube no dia a dia. Mesmo que distante, você está sempre presente, ligado, conectado, querendo saber das pessoas como as coisas estão funcionando dentro do clube. O Vasco não está num momento bom, foi um ano difícil, mas eu tenho uma esperança muito grande de que o time consiga se manter na primeira divisão.”

8 – Você foi preparador de goleiros do clube durante um bom tempo recentemente, inclusive na época do título da Copa do Brasil 2011. Na sua opinião, o que fez o Vasco sair de um momento tão bom quanto o desse referido ano para voltar a conviver com rebaixamentos e períodos difíceis?

”Na época que eu era preparador de goleiros, o Vasco conseguiu montar, em 2011, um bom time, que acabou sendo desmontado no ano seguinte, depois da eliminação na Libertadores. Alguns jogadores saíram, outros permaneceram, e o Vasco, desde então, foi se desmantelando. Foi perdendo jogador, perdendo jogador, o que culminou novamente numa queda, em 2013. Já em 2014, conseguiu uma recuperação, voltou pra Série A, mas aí veio a eleição no final do ano e, em 2015, novamente o Vasco cai. Então, resumindo, de 2011 para cá foram momentos muito difíceis para o clube.”

9 – Você ainda era o preparador quando Martín Silva foi contratado, no início de 2014. Na época, você deu uma declaração/opinião dizendo que o Vasco não precisaria se preocupar com goleiro durante quatro temporadas (2014, 2015, 2016 e 2017). Justamente em 2018, passou-se o período citado por você e Martín caiu de rendimento. Como você avalia isso? Achou justa a titularidade conquistada por Fernando Miguel nessa reta final de campeonato?

”O Martín Silva já era para ter vindo um ano antes, em 2013, mas ele estava ‘preso’ jogando a Libertadores, tanto que foi considerado o melhor goleiro das Américas nesse ano. Já queríamos a vinda dele para o Vasco há bastante tempo.

O meu comentário foi em relação ao que o Martín é e vai continuar sendo: um grande profissional, um grande goleiro, e que o Vasco estaria bem com a presença dele durante esses anos. E foi justamente isso que aconteceu, né?

Mesmo eu saindo do clube em 2015, ele permaneceu. A gente conversava bastante sobre ele ficar no clube, criar uma identificação. Ele é um goleiro de três Copas do Mundo (2010, 2014 e 2018). Com a qualidade que ele tem somada ao tempo de casa, a identificação dele com o Vasco com o passar dos anos iria ficar cada vez mais forte. E eu não vejo o Martín fora do Vasco, de forma alguma. Acho que são fases, momentos, nos quais as coisas não estão funcionando bem. Isso acontece com qualquer jogador profissional. E também passa-se pelo momento do time, que contribui para isso. Mas nada que o Martín Silva não possa reverter.

Eu sei que a cobrança é grande. O time se encontra numa situação delicada, a cobrança da torcida será maior ainda. Ele teve um erro num jogo contra o Grêmio, mas todo mundo está sujeito a erros. Era um momento decisivo? Sim, mas momento decisivo para o Vasco foi o ano todo, não apenas esse. O bom de tudo isso é que o Fernando Miguel entrou bem, então dá uma certa tranquilidade para o torcedor vascaíno. Isso é importante.

Acho que o Vasco está muito bem servido, seja com o Martín, com o Fernando, com o Jordi ou com o João Pedro. Tem que torcer para passar esse pesadelo que vem vivendo esse ano em relação ao rebaixamento e se organizar melhor para o ano que vem, ter um projeto melhor, pois o clube vem sofrendo com isso. Eu sei que faltam recursos financeiros, e um clube como o Vasco tem que ter, mas eu acho que tem que manter os goleiros que tem. O Vasco tem grandes goleiros.

E o torcedor tem que abraçar, pois o Martín, quando o Vasco precisou dele, ele sempre foi muito mais positivo do que negativo para o clube, até em momentos que poderia sair mas preferiu continuar, pois queria manter uma identificação, raízes dentro do clube, e isso é importante.

Eu torço muito pelo Martín, cara. Torço mesmo. Não tenho tanta intimidade com o Fernando Miguel, mas já ganha minha admiração pelo que vem fazendo pelo clube. Eu gosto das pessoas que ajudam o clube, a gente trata isso com muito carinho. Acho que é muito possível fazer um grande trabalho em 2019.”

10 – Como avalia o período de ‘jejum’ de goleiros revelados pelo Vasco que se tornaram titulares do clube, como foi com você, por exemplo?

”A base tem que se preparar mais, formar novos goleiros. O último foi o Helton, isso tem bastante tempo já. Hoje a gente tem o Jordi, além dessa rapaziada que está subindo. Tem que preparar os meninos. Eu sei que estão fazendo um trabalho, mas em cima de tanta pressão é difícil. Imagine botar um rapaz desses num jogo tão importante assim?! Tem que ser aos poucos: joga um Carioca, vai pegando bagagem, até se tornar um ídolo vascaíno.

E só pra complementar, eu também tive problemas na época que comecei. Eu era muito jovem, comecei a jogar no Vasco com 19 anos. Tive problemas de desconfiança por parte da diretoria. Do torcedor, nem tanto, pois antigamente tinha preliminar, então eles já me conheciam da época do sub-17 e sub-20. E apesar da desconfiança de algumas pessoas da diretoria, eles me bancaram. E eu consegui corresponder.”

11 – Como era seu relacionamento com Alexandre Campello, quando ele era médico do clube e você jogador e posteriormente preparador de goleiros?

”Sempre foi o melhor possível. O doutor Alexandre gostava de ser goleiro quando tinham as ‘peladas’ da comissão técnica, e agarrava muito bem por sinal. Tem até uma história curiosa: uma vez, quando tínhamos acabado de ser campeões da Libertadores, durante aquela semana seguinte, ele havia me pedido um par de luvas para jogar uma ‘pelada’, e naquele momento eu só tinha comigo as luvas usadas no jogo do título. E eu as dei para ele. Aí, ele até falou: ”pô, Mano (chamava o Carlos Germano assim), mas essas foram as que você foi campeão”. Aí eu falei: ”não, doutor, sem problemas. É um presente, pode usar”. Nem sei se ele usou as luvas ou se guardou (risos).

Enfim, tenho amizade grande com ele, e tô até em falta de aparecer no clube para conversar com ele. Os amigos a gente tem que ajudar sempre, de todas as formas.”

12 – Qual sua opinião sobre a administração exercida por ele?

”Todo presidente que entra no Vasco atualmente sofre, pois precisa ‘apagar o incêndio’ de gestões anteriores, e isso é muito ruim. Em relação ao Alexandre, eu torço para que ele se dê bem, torço mesmo, pois ele indo bem, fazendo um bom papel dentro do clube, o Vasco vai estar crescendo. Ele é um cara decidido. Tomara que ele consiga e que as pessoas possam ajudar. Todo mundo tem que ajudar.

Toda essa situação que o Vasco se encontra, todo esse ‘abismo’, é falta de boas administrações. Claro que também faltam recursos, para fazer um bom futebol tem que haver dinheiro, mas se esses recursos sumiram é porque aconteceu alguma coisa. Não é normal um time grande como o Vasco estar passando por isso. Um ano é um time, no outro é o goleiro tal, atacante tal, zagueiro tal, enfim, o Vasco não é isso. Tem que ter sempre os melhores. A culpa não é dos jogadores, mas sim da forma como têm sido feitas as coisas dentro do clube. Tem que dar alguns passos atrás para poder começar a reorganizar a casa.”

13 – Por fim, uma mensagem ao torcedor vascaíno.

”A mensagem que a gente sempre deixa para o torcedor é que eles estejam sempre abraçados com o clube. Sempre, tanto nos momentos bons quanto nos ruins. E o torcedor vem fazendo isso muito bem. Infelizmente, a torcida vem sofrendo muito, mas o amor é eterno. É do avô para o pai, do pai para o filho, enfim. Esse sentimento é único. Criei minhas filhas dentro do Vasco, são vascaínas, então isso vai passando, daqui a pouco são meus netos. E o Vasco é tudo isso, essa identificação, essa família que é montada ali dentro. Eu cresci vendo isso, vi o Vasco crescer. Morei embaixo da arquibancada.

O torcedor não pode abandonar o Vasco, tem que abraçar, estar de mãos dadas com o clube, onde o Vasco estiver. Pensamento positivo, sempre visando o melhor para o Vasco. Esse é o desejo de todo torcedor vascaíno e meu também. É o que eu peço. O Vasco é eterno em nossas vidas.”

Foto: Reprodução/Internet Germano atuando pela Seleção
Germano atuando pela Seleção

Fonte: Torcedores.com

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