Gilberto, ex-lateral do Vasco, relembra goleada histórica contra o São Paulo

21/11/2018 às 20h18 - FUTEBOL

Nesta quinta-feira (22/11), às 20h (de Brasília), o Vasco encara o São Paulo, em São Januário, pela 36ª rodada do Campeonato Brasileiro. Há 17 anos, também na Colina Histórica, pelo Brasileirão-2001, houve o confronto que talvez seja o mais lembrado no século até o momento entre as equipes, ao menos pelos torcedores vascaínos: vitória cruzmaltina por 7 a 1, em partida marcada pela expulsão de Rogério Ceni logo no início do jogo. Para recordá-la, além de outros momentos pertinentes à sua passagem pelo Vasco e até mesmo seu período na seleção brasileira, que inclui duas Copas do Mundo, o TORCEDORES.COM conversou, com exclusividade, com Gilberto, ex-lateral esquerdo do Gigante. Confira:

1 – Em relação ao confronto Vasco x São Paulo em São Januário, você esteve em campo no histórico 7 a 1 pelo Campeonato Brasileiro-2001, fazendo o primeiro gol da partida e dando assistência para o último. O que lembra daquele jogo, exatamente? De certa forma o placar surpreendeu vocês?

”Goleada sempre surpreende, até porque sempre foram dois grandes clubes. Além disso, quando fomos para esse jogo, o Vasco vivia naquele momento um processo político/financeiro complicado, Eurico estava buscando patrocínios, e a gente tinha uma possibilidade matemática remota de classificação para a fase seguinte (mata-mata). Claro que fomos para o jogo querendo a vitória, sabendo que seria possível, até por estarmos jogando em casa, mas não esperávamos que a partida se transformasse no que foi. Eu, Gilberto, particularmente falando, acredito que o início do jogo influenciou bastante: primeiro a expulsão do Rogério Ceni, depois a falha do goleiro Alencar no meu gol. Enfim, apesar do time deles ser muito bom, com ótimas peças (Kaká, França, Belletti, etc), na minha opinião isso acabou dando um ‘baque’ neles, essa perda de uma das referências, que era o Rogério. E o nosso time também era muito bom: Romário, Euller, Léo Lima, Hélton, eu…”

2 – Aproveitando o gancho: apesar, por exemplo, da grande perda de Juninho Pernambucano em relação ao elenco de 2000, o Vasco de 2001 tinha um time similar. Não igual, mas dentro do possível parecido. Na sua opinião, o que faltou à equipe para se classificar para a fase mata-mata do Campeonato Brasileiro (Cruzmaltino terminou a competição na 11ª colocação; só se classificavam oito)?

”Na realidade, a gente perdeu algumas peças sim. Após o fim do ano 2000, o Vasco perdeu o investidor (Bank of America), e isso ocasionou num período muito conturbado dentro do clube. Até mesmo o patrocínio de material esportivo foi afetado, o Vasco acabou criando sua própria grife durante o ano (VG Vasco). Eu, por exemplo, fiquei quase oito meses com salários atrasados. Ficaram no clube jogadores importantes da temporada anterior, como Romário, Euller, Juninho Paulista, Hélton, e o restante do elenco foi sendo completado com jogadores vindos da base (Botti, Siston, Bóvio, Léo Lima, Géder, etc). Era um momento de transição. Não era um mal time, e nós jogadores sempre temos alguma esperança, mas sabíamos que não tínhamos força e até mesmo qualidade para brigar pelo título naquele momento.”

3 – Hoje em dia, o Vasco também convive, fora de campo, com problemas políticos e/ou financeiros, e aparentemente de forma mais elevada. Mesmo sem estar presente lá dentro, como vê o clube agora? E o que acha que é diferente atualmente em relação à sua época?

”Acho que hoje o Vasco também vive crise financeira, sem capital para conseguir contratar jogadores de renome. Às vezes, até joga bem num determinado período da competição, mas não tem a força necessária para se manter, como têm, por exemplo, o Palmeiras, há 20 jogos sem perder, o Cruzeiro, que também ficou um período invicto, enfim. O Vasco joga duas partidas bem, depois joga quatro ou cinco mal, e assim por diante. Não há força para manter uma regularidade.

E em relação à diferença entre agora e minha época, acredito que naquele período nosso elenco era mais ‘blindado’. Quando tinha algum problema, o Eurico comprava a briga. Era ele quem mandava, quem falava, quem botava a cara. Naquela época, o Vasco não tinha uma oposição tão forte quanto tem hoje, até pelas coisas caminharem melhor dentro de campo. Os resultados vinham, então havia um pouco mais de tranquilidade. Se gastasse um pouco mais num determinado jogador, por mais que pudessem haver críticas em relação ao gasto excessivo, o cara ia lá e fazia jus ao valor, então não tinha como haver reclamações. Hoje, tem um cara no poder e outros 500 atrás querendo tomar o lugar. Além disso, na época do Eurico, quando tinha algum problema, ele ia lá e resolvia com a imprensa, não tinha toda essa exposição que tem hoje. Todo mundo sabe o que acontece em São Januário, até por conta justamente do crescimento da oposição.”

4 – E em relação a dentro de campo, tem acompanhado? Acredita que o Vasco escapa ou será rebaixado?

”Acho que o Vasco tem força. Principalmente dentro de São Januário, é uma torcida que incentiva e empurra muito. É claro que ela também cobra bastante, mas acredito que o Vasco poderia fazer valer mais o mando de campo. Jogando em casa, com a torcida lotando o estádio, acho que o Vasco consegue sair. São partidas difíceis que estão por vir, mas pelo o que tenho acompanhado, dá sim para se afastar mais da zona de rebaixamento.

O Vasco tem no Maxi (López) um cara que abraçou a causa, que chegou ‘vestindo a camisa’ e entendendo o momento do clube. Acho que ele está bastante comprometido. Tem jogador que está numa ótima fase mas chega no clube e não consegue entender o contexto que o time vive, mas o Maxi conseguiu e bem. Além dele, tem o Pikachu, que caiu de rendimento mas a qualquer momento pode voltar a fazer a diferença, e o Thiago Galhardo, que é um meia clássico e na minha opinião também tem que jogar.

O Valentim improvisou o Fabrício, que eu até gosto, acho um bom lateral-esquerdo, mas não é todo jogador que você tira da lateral, bota no meio e vai render. Acho que em alguns momentos ele deu conta, mas em outros não, ficando muito abaixo do que um meia pode representar. É diferente quando o Galhardo joga, que é um especialista da posição, sabe dar um passe em profundidade, botar o atacante na cara do gol. Acho que ele é um tipo de jogador que não aguenta os 90 minutos, mas eu começaria as partidas com ele e no final improvisaria o Fabrício para jogar o restante do tempo. Essa é minha visão estando de fora, como ex-jogador.”

5 – O que pode dizer sobre Alexandre Campello, atual presidente do clube e que trabalhou com você na época em que era médico?

”Era outra situação, outra época, mas eu tinha bom relacionamento, tanto com ele quanto com os outros médicos, doutores Clóvis Munhoz e Fernando Mattar. Não tenho nada de negativo a dizer, apesar de agora ele na presidência do clube (e não como médico) ser outro contexto.”

6 – Além do jogo contra o São Paulo, você também esteve em campo em outras duas goleadas marcantes aplicadas pelo Vasco, ambas por 5 a 1 e contra o Flamengo, na final da Taça Guanabara-2000 e no Campeonato Brasileiro-2001. Esse primeiro jogo foi num domingo de Páscoa e Eurico, na época, distribuiu chocolates para os torcedores, antes da partida. Já o segundo, assim como contra o Tricolor Paulista pela mesma competição, você também contribuiu com um gol e uma assistência. Era especial ganhar do Flamengo?

”Clássico, por si só, mexe muito com o atleta. Nós não temos esse envolvimento como o torcedor tem e como o Eurico tinha em relação ao Flamengo, que ele dizia que não podia perder o jogo. E isso nos deixava tensos, pois ficávamos pensando em como poderia ‘atiçar’ o outro lado (Fla) e em como eles poderiam crescer, já que o Eurico falava muito nisso. Mas a gente procurava focar mais no jogo em si.

Para mim, particularmente falando, essa partida de 2001 foi bacana pois estava voltando de lesão e pude ter uma boa atuação. Nessa época, acredito que eu estava na minha melhor fase vestindo a camisa do Vasco. Fiquei um longo período sem jogar e estava conseguindo corresponder. No momento que o Hélio dos Anjos (treinador) chegou, ele achou que o problema do Vasco era a lateral e queria me botar no banco, mas eu acho que consegui convencê-lo do contrário depois desse jogo (risos).

E eu já tinha jogado no Flamengo, então a torcida do Vasco tinha uma desconfiança, até por conta do meu irmão (Nélio). Existia uma cobrança muito grande para eu render no Vasco o que já havia rendido no Flamengo. E assim que fiz o gol, fiz questão de ir no banco comemorar. Acho muito complicado esse lance de jogador não comemorar gol contra o ex-clube, supostamente por ‘respeito’. Mas e o respeito com a torcida do clube atual que está no estádio apoiando o cara?! Acho que a melhor forma de você demonstrar respeito contra seu antigo clube é dessa forma, logicamente sem chegar ao ponto de menosprezar, mas comemorando com seus companheiros.”

7 – Para fechar o assunto Vasco, não dá para deixar de te perguntar sobre o pênalti perdido contra o Corinthians na final do Mundial-2000, no Maracanã. Até hoje lembra desse lance? Foi seu momento mais triste/difícil com a camisa do Cruzmaltino?

”Hoje eu consigo falar com uma naturalidade maior sobre esse assunto. Para ser sincero, eu considero duas as situações mais negativas da minha carreira: o fato de não ter conseguido ganhar uma Copa do Mundo, tendo ido a duas, e esse pênalti perdido. Sobre o pênalti, eu tava vivendo um bom momento, jogando ao lado de jogadores talentosíssimos. Acredito que eu nunca tenha jogado num elenco tão qualificado quanto esse do Vasco nessa época.

Eu lembro que eu treinava penalidades, até batia bem, mas não imaginava que chegaria ao ponto de bater um pênalti tão importante assim, justamente por conta da qualidade dos jogadores que tinham no plantel. Tinha muita gente à minha frente para bater. Porém, durante o tempo normal do jogo e a prorrogação, o Antônio Lopes tirou Felipe, Ramon (Menezes), Juninho (Pernambucano), enfim, jogadores que iriam cobrar, e aí ele chegou em mim e perguntou se eu estava bem para bater. E eu disse que sim.

Eu já tinha jogado com o Dida, em 1998, no Cruzeiro. Conhecia bem ele. Eu, como canhoto, sempre batia o pênalti cruzado, isto é, no canto esquerdo do goleiro. Mas justamente por ele já me conhecer, eu imaginei que ele iria cair nesse canto e resolvi mudar o lado da cobrança, mas não deu certo. Depois disso, o Marcelinho (Carioca) também perdeu, o que nos manteve vivos na disputa. Aí acabou que o Edmundo perdeu o último.

Enfim, eu também tive um momento ruim na Inglaterra, em que fui para lá e quase não joguei, mas um pênalti perdido é pior do que uma má fase, por isso considero esse um dos piores momentos da minha carreira. Mas aí passou-se um tempo, eu continuei no Vasco e, com profissionalismo, sem me abater no dia a dia, as pessoas foram vendo que aquilo faz parte do futebol e a vida seguiu.”

8 – Agora falando sobre seleção brasileira, você foi campeão da Copa das Confederações em 2005, como titular, e o Brasil jogando um vistoso futebol. O que acha que deu errado em 2006 para aquele brilhante time não ter ficado com o título?

”É o que já foi falado algumas outras vezes: a preparação não foi das mais adequadas. Daí você chega na Copa e tem alguns problemas que tem que tentar resolver. A equipe que jogou a Copa das Confederações e estava bem sofreu algumas modificações para a Copa do Mundo…

Além disso, acredito que houve um excesso de favoritismo em função de termos ganho em 2005 da Argentina, da Alemanha, e sem estar com Ronaldo, Roberto Carlos, Cafu… Se ganhamos desses times sem esses caras, imagine com eles?! Então, acredito que isso, de maneira geral, nos fez dar uma relaxa.

Mas eu, particularmente falando, estava ali pensando: ‘tenho que jogar pelo menos um jogo na Copa’, e torci bastante para a equipe ganhar os dois primeiros jogos para, no terceiro, contra o Japão, o Parreira poupar o time titular e eu poder jogar, até por ser na Alemanha, país onde eu estava atuando (Hertha Berlim). E eu consegui jogar e até fazer um gol.

Mas, resumindo, foi isso: entramos com um excesso de favoritismo e não conseguimos deixar que isso não atrapalhasse.”

9 – Na sua opinião, naquele momento você estava em melhor fase que o Roberto Carlos? Acha que deveria ter sido o titular?

”Eu aprendi que, em Copa do Mundo, você tem que colocar quem está bem. Recentemente, eu estive comentando jogos numa emissora de televisão e teve a questão do Willian, que não estava bem, e aí tinha o Douglas Costa, que acabou se machucando… Enfim, na minha opinião, tem que jogar quem está melhor, independente de quem seja. Se, teoricamente, a convocação representa a escolha dos 23 melhores jogadores do país, independente de qual país seja, é porque o cara tem potencial, qualidade para jogar.

Às vezes, o atleta jogou uma competição muito bem e um tempo depois, numa outra competição, não está mais no mesmo nível, mesmo que ele seja ‘o cara’. Acho que o Parreira poderia ter me mantido sim, acreditado mais em mim, mesmo que o concorrente fosse um cara com a importância do Roberto Carlos. Não que eu fosse entrar e a Seleção fosse mudar drasticamente de postura, de atuações, porém naquele momento acho que ele poderia ter apostado mais em mim, sim. Mas não tenho nenhuma mágoa.”

10 – Você e Roberto Carlos eram amigos? Existia algum problema de relacionamento no grupo?

”Não, nenhum problema de relacionamento. Eu e Roberto não éramos amigos íntimos, não existia um acesso tão grande, assim como com Cafu, por exemplo, também não, mas tínhamos bom relacionamento, respeitoso, profissional, sem nenhum tipo de problema. O grupo se dava bem.”

11 – Posteriormente, no ciclo seguinte, você também foi campeão da Copa América, em 2007, como titular, e disputou a Copa 2010, como reserva, entrando no segundo tempo na fatídica eliminação para a Holanda. Acredita que a ‘clausura’ imposta por Dunga e seus problemas de relacionamento com a imprensa atrapalharam o ambiente da Seleção?

”Não, de maneira alguma, pelo contrário, estávamos muito focados, muito unidos. É aquela coisa: o imponderável do futebol, que não tem muita explicação. No primeiro tempo, fizemos um grande jogo, espetacular. Saímos na frente, estávamos bem, e na segunda etapa, acabamos ficando com um homem a menos e a Holanda virou. Acontece.”

12 – Qual eliminação foi mais frustrante para você: 2006 ou 2010?

”Em 2006, eu fui para a Copa numa expectativa muito grande, justamente pela qualidade do elenco, que era até muito superior ao de 2010. Mas em 2010 tínhamos uma grande coisa a nosso favor, que era a questão da união. Éramos muito fechados, muito unidos, mas infelizmente não conseguimos chegar na final.”

13 – Para encerrar, voltando ao assunto inicial da entrevista, uma mensagem ao torcedor vascaíno.

”Tem que acreditar. A grandeza e a história do clube fazem com que o torcedor acredite. O Vasco vive um momento político muito difícil e um momento técnico, dentro de campo, também complicado, mas eu acredito muito na força do time jogando em São Januário.”

Foto: Reprodução Internet gilberto
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Fonte: Raphael Fernandes/Torcedores.com

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