Boiadeiro: "Foi uma honra ter chegado a esse grande clube"

20/05/2020 às 11h05 - FUTEBOL

Nosso bate-papo da semana é com Marco Antônio Boiadeiro, ex-meia do Vasco e que defendeu outras camisas pesadas do futebol brasileiro. Por onde passou, colecionou títulos e amizades. E no Vasco, não poderia ser diferente. Só pra ter idéia, seu primeiro título da carreira foi justamente com o gigante da colina em 1989. Junto com Bebeto, Sorato, Mazinho e outras feras, Boiadeiro liderou a chamada SeleVasco na conquista do Campeonato Brasileiro ao bater o São Paulo em pleno Morumbi. Uma vitória pessoal, diga-se de passagem, já que 3 anos antes, quando atuava pelo Guarani, havia perdido esse título para o tricolor paulista.

Boiadeiro, hoje com 54 anos, é natural de Paulo de Faria (SP) e foi sempre criado na zona rural. Ele ganhou esse apelido assim que desembarcou em Ribeirão Preto, em 1985, para atuar no juvenil do Botafogo. Além de Guarani e Vasco, atuou por Cruzeiro, Flamengo, Corinthians, Rio Branco de Americana, Anápolis-GO, América-MG, Atlético-MG, União Barbarense-SP até encerrar a carreira no Sãocarlense, no interior de SP, em 2000. Treze anos depois, aos 47, Boiadeiro ensaiou uma volta aos gramados para jogar pelo Tanabi-SP, junto com o também amigo e veterano Viola. Mas durou pouco. Vale lembrar que, em 1993, foi convocado pela Seleção Brasileira para a disputa da Copa América, no Equador.

Pelo Vasco, Marco Antônio Boiadeiro teve conquistas maiúsculas. Além do Brasileiro de 89, ajudou o clube a conquistar o tricampeonato do Troféu Ramon de Carranza, na Espanha, no mesmo ano, ao vencer o Nacional-URU por 2 a 0. Em 1990, foi a vez de levantar o caneco da Taça Guanabara.

Nesse bate-papo descontraído e com jeitão caipira, Boiadeiro destaca sua convivência na época do Vasco, o título marcante de 89, a saudade de seus antigos parceiros e aproveita para mandar um recado para a garotada que está começando.

Confira!

Como foi pra você vestir a camisa do Vasco?

Boiadeiro: Pra mim foi um honra ter chegado a esse grande clube Vasco da Gama. Fui muito bem recebido e tive a felicidade de conquistar o título Brasileiro, se não me engano há 17 ou 18 anos que não chegava a uma final brasileira. E é onde eu fiz grandes amigos e irmãos. Tenho saudade demais até hoje. Foi prazeiroso demais fazer parte dessa história do Vasco, junto com o professor Nelsinho, o finado Alcir e toda galera.

Você conquistou muitos títulos pelos grandes clubes em que atuou. No Vasco, ficou marcado pela conquista do campeonato brasileiro de 89 e por fazer parte da SeleVasco. O que representou aquele momento pra sua carreira?

Boiadeiro: Pra mim foi meu primeiro título da carreira profissional. E foi mais importante ainda por me manter na minha carreira de futebol. Um título na carreira é muito importante. Te marca. E só tenho agradecer a Deus por tudo isso que me proporcionou.
Áí no Vasco, com essa conquista, a gente lembrando do começo... Depois veio o Bebeto, onde acho que foi a grande jogada. Bebeto é uma pessoa extraordinária, diferenciada e ídolo. E aí juntando a nós, acho que alavancou mais ainda o Vasco. Então isso foi muito importante. É claro que todos os jogadores, nossa senhora, formou uma SeleVasco! Isso fortaleceu muito. Foi muito bom pra gente.

Nos clubes que defendeu, você era um sujeito tranquilo e muito querido pelos companheiros. Acha que esse seu jeitão meio mineiro contribuiu para a harmonia dos grupos em que trabalhou?

Boiadeiro: Acho que a maneira da gente e o jeito da gente, temos que ser o que é. Eu sempre tive o meu jeito e a minha maneira. Não é tipo, não é nada. É o jeitão da madeira mesmo (risos). Só tenho que agradecer a Deus por isso, pelos amigos e pelas considerações. Eu sempre respeitei também e sempre me respeitaram. Eu falo sempre nas resenhas: “Vamos lá no Boiadeiro. Lá tem resenha. Lá tem história”. Então, era gostoso demais isso. E sempre procurando fazer o melhor, ser amigo, verdadeiro e procurar ajudar os que estavam começando. É sempre importante a gente poder fazer isso: fazer o bem e sem interesse. Acho que importante na vida é a gente não ter interesse. Ser amigo por amor, por considerar e poder ajudar da melhor maneira.

Você pensou em seguir carreira no futebol após pendurar as chuteiras ou preferiu assumir de vez a vida de fazendeiro ?

Boiadeiro: Carreira de futebol eu nunca pensei não. Até tentei uma época mexer, levar alguns meninos, mas é diferente porque você tem que estar no meio de muitas coisas que não gosta. Então, fica difícil. Pra não ter problema ou criar atrito, é melhor ficar de fora. Quando sempre tem uma pessoa ou menino que eu conheço, que eu vejo que posso ajudar, eu ajudo. Não fui pra treinador ou mexer com essa parte porque eu joguei futebol por acaso. Eu nasci e criei na fazenda e de repente fui jogar bola. É um dom que Deus me deu. Mas pra me acostumar as vezes na cidade, ficar... Eu fiquei mesmo porque eu consegui chegar no profissional que era muito difícil e fui mantendo até onde deu. Até porque minha carreira era o que eu sabia fazer. Eu gostava de ir pra fazenda, “não adaptava”, mas eu gostava do futebol. Eu queria uma fazenda do lado, um curral ou alguma coisa pra eu mexer, mas não tinha isso. Eu sentia muita falta. Então, eu pude vir e tocar minha vida que eu toco até hoje com tudo que Deus me deu e o futebol também.
Apesar que se fosse hoje eu ia jogar só uns 2 ou 3 anos e eu acho que já parava, porque o que está dando hoje de grana...(risos)
Claro que a gente acha que cada um na sua época, mas hoje eu pararia mais cedo. Questão de gosto.
Não segui carreira também porque nas coisas a gente tem que ser claro. Não gostava de avião. Concentração pra quem não joga bola, não é fácil. O cara só vai levar a vida dele mesmo normal depois que pára de jogar bola. Porque não tem jeito de levar... Ah, falar assim: “a tua vida, vou sair ali, vou chegar mais tarde, vou dormir mais tarde...” É complicado. O trem tem que ser muito sério e muito bem profissional mesmo, senão ele vai um ano bem e aí começa a não levar a vida do profissional e cai de produção. Então tem que ser muito bem preparado pra aproveitar de uma maneira mais tranquila. Não fui pra carreira, mas acompanho, gosto e tenho vontade. Se fosse um time perto de mim pra mexer, até eu gostaria. Eu gosto, mas não consigo ficar ali no meu dia a dia. Não é meu feitio, meu dom. Fora isso, eu tenho que agradecer tudo pelas amizades, pelo que eu passei na minha vida, pela experiência de vida e pelo aprendizado.

Por toda essa experiência, que citou agora, qual mensagem que você deixaria pra essa garotada que está começando?

Boiadeiro: O que eu posso passar para as pessoas é a humildade, perseverança, garra, determinação. A coisa mais difícil eu falo: “o futebol, chegar no profissional, é igual mega-sena: por aquele numerozinho, por aquela partezinha”. Por isso mesmo que é difícil chegar. É muita responsabilidade e muita cobrança. É um caldeirão. Ganhando ou perdendo, a cobrança sempre vai existir. Tem que estar preparado pra isso tudo. Não é fácil. Eu falo pra meninada: “não pensa que é mil maravilhas não. Não adianta você falar, que não é“. É cobrança, é sinceridade, é honestidade. Tem que ter muito jogo de cintura. Muita tranquilidade e cabeça boa. As vezes você não tem nada e de repente tem tudo. Então tem que ter uma cabeça muito boa. Nunca achar que não vai acabar. Eu falo: “aproveita guardar enquanto tem, porque quando não tem, não tem jeito de guardar”. Tem que pensar muito bem. Sempre ter alguém do lado conversando e falando, não deixar subir pela cabeça e ser sempre humilde porque a hora que chega no profissional você fala: “Ah, agora consegui o que eu queria”. Não, agora vão começar os problemas! Então, estar sempre focado e preparado pra poder não deixar cair. Sempre no mínimo manter em todos os setores. Acho que isso é importante. Um abraço a todos, muita saudades. Um abraço a todo pessoal do Rio e obrigado por tudo sempre. Um abraço em todos do Vasco. Muito obrigado por tudo!

Fonte: Marcus Jacobson - Detetives vascaínos