Campello abre o jogo sobre Eurico, situação financeira e mais em entrevista

09/03/2018 às 08h02 - CLUBE

uando Martín Silva pegou três pênaltis do Jorge Wilstermann e garantiu o Vasco na fase de grupos da Libertadores, talvez o cruz-maltino que mais comemorou tenha sido o presidente Alexandre Campello. Não só pela natural torcida pela equipe independentemente do cargo administrativo, mas por tudo o que aquelas três defesas significaram para o futuro do clube na temporada.

Campello assumiu o Vasco no dia 23 de janeiro, em meio a uma crise financeira: salários atrasados, elenco insatisfeito e pouca previsão de receitas. Desde então, traçou metas. A principal delas, talvez, seja equilibrar o caixa cruz-maltino até 2020, último ano de mandato. E o plano seria bastante prejudicado.

Não só a diminuição das receitas do Vasco com premiações e bilheteria preocuparia Alexandre Campello, mas a situação do elenco comandado pelo técnico Zé Ricardo e as reações da torcida. Por ir à fase de grupos, o Cruz-Maltino já garante 1,8 milhão de dólares (600 mil dólares por partida em casa).

- Difícil dizer, mas seria muitíssimo mais difícil. Primeiro, porque traria uma instabilidade e descontentamento dentro do próprio elenco, apesar de este grupo ter provado que é maravilhoso. (Os jogadores) são unidos e dedicados. Mas poderia levar à instabilidade. O humor da torcida certamente mudaria. Além da perda de receita, porque temos premiações com as passagens de fase. Isso nos ajuda a honrar nossos compromissos. Teria sido muito ruim. São muitas coisas por trás daquelas defesas do Martín - diz Campello.

O presidente do Vasco recebeu o GloboEsporte.com em sua sala em São Januário nesta quinta-feira. O papo, de cerca de 40 minutos, abordou tudo: os projetos para os próximos anos, as contas do clube, reforços para a Libertadores, patrocínio, relação com Eurico Miranda, presidente do Conselho de Beneméritos...

De bate-pronto, porém, Campello estabeleceu equilibrar as contas do Vasco até 2020, último ano de seu mandato, como uma das principais metas da gestão.

- Já diminuímos as despesas, e não foi só com corte de funcionários. Fizemos ajustes inclusive no elenco. Eu diria que nossas ações vão reduzir ao longo do ano entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões. Estamos fazendo o dever de casa. Outros ajustes ainda serão feitos. (...) Nossa ideia é sobreviver com dificuldade em 2018, melhorar em 2019 e em 2020 ter capacidade de maior investimento. Não se transforma esse cenário da noite para o dia.

Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista exclusiva com o presidente do Vasco:

GE: Você está há pouco mais de um mês no cargo. O que mudou na sua vida quando se tornou o presidente do Vasco?

Campello: Minha vida profissional não mudou muito, continuo atendendo, operando. Agora com um horário mais restrito. Só adaptei a agenda. Antes tinha bastante horário livre, uma vida tranquila, e agora tenho um comprometimento muito grande com o Vasco. Passo 10h, 12h por dia no clube. Ou dentro de São Januário ou em reuniões fora daqui. Normalmente chego após o almoço e não tenho hora para sair.

Qual era o panorama do Vasco quando você sentou na cadeira de presidente no primeiro dia de seu mandato?

Encontrei o clube funcionando, com a estrutura do futebol funcionando. Mas com uma quantidade muito grande de funcionários e uma dificuldade financeira importante. Tínhamos uma ideia da situação, mas outra coisa é viver os problemas na prática. Há uma diferença.

Quando você assumiu, existia a expectativa da entrada de verbas grandes, como o pagamento referente a Philippe Coutinho e ao patrocínio da Lasa. E este dinheiro até agora não entrou nos cofres do clube...

Em parte não se concretizaram, em parte foram postergadas e divididas. Nós vamos receber o dinheiro do Philippe Coutinho, mas em três vezes. A previsão é de recebermos a primeira até a sexta da semana que vem. Neste período, tivemos algumas receitas menores, como uma parte que vem da TV, arrecadação de bilheteria e algumas outras.

Como foi o processo fracassado com a Lasa? Qual sua participação?

Quando assumimos, o contrato já estava assinado. Para ter início no dia 31 de janeiro. Então, não havia o que fazer, apenas aguardar o pagamento. Próximo disso, fizemos contato com o presidente da empresa para tratar da ativação. Vieram ao Rio às vésperas do jogo contra o Flamengo e, inclusive, foram ao jogo conosco. Conversamos e ficamos esperando o dinheiro. No dia 31 ele nos procurou e falou que estava com problema com fluxo de caixa, que era um investimento que viria de fora do país.

Ele pediu até o dia 14, e nós decidimos esperar. Ainda demos uma folga até a sexta, dia 16. Nesse período, falamos algumas vezes e ele deu algumas justificativas. Depois do dia 16, disse que não podia mais aguardar e que iniciaríamos a rescisão. Há uma cláusula de dez dias. Documentamos isso. Passados os dez dias, nós iniciamos o processo de rompimento.

O Vasco tem direito a algum ressarcimento?

No contrato tem uma multa prevista, e claro que vamos em busca dos direitos do clube. O Vasco não pode sair prejudicado. Vamos exigir o cumprimento do contrato com o pagamento da multa rescisória.

O clube fez uma reformulação grande de funcionários, com diversas demissões. Este processo já foi concluído? Quantas pessoas foram dispensadas?

Trabalhei muito anos no Vasco, e as pessoas que não convivem no clube não entendem... O Vasco sempre foi meio paternalista, tem medo de mandar embora. Acho até louvável, mas temos que preservar a instituição. A meu ver isso era uma dificuldade. Havia um número excessivo de funcionários e estamos tentando readequar.

Nessa nossa primeira movimentação, fizemos alguns ajustes, até para podermos honrar nossos compromissos. Se não me engano, foram 112 demissões. Contratamos em torno de 15. Paralelamente, estamos fazendo consultorias que vamos apresentar nos próximos dias. A partir desse estudo, poderemos fazer outros ajustes.

Essa previsão para 2020 é realista ou otimista?

Os problemas não estarão solucionados até lá, mas, se conseguirmos colocar em prática tudo o que temos planejado, o Vasco estará equilibrado. Digo 2020 porque é o fim do meu mandato. Ainda estará com dívidas, mas com equilíbrio. Hoje vemos clubes endividados que tem superávit. Não estão livres da dívida, mas transformaram ela em longo prazo.

Houve um acordo para parcelar a dívida com o Martín Silva. Como foi essa negociação?

Estamos honrando as coisas lá de trás também. Foi um trabalho de toda diretoria. O Fred (Lopes, vice de futebol) é quem trata diretamente. O Martín é um jogador importante, um líder que tem um papel fundamental. Mas, independentemente disso, se devemos, queremos pagar. Não importa a relevância do atleta.

Esse momento de otimismo no futebol te ajuda a tentar apagar um pouco a má vontade da torcida em relação a você desde a eleição?

Acho que os resultados. Não só isso, mas o trabalho que tem sido feito vai demonstrando a que viemos e isso vai mudando. De qualquer forma, acho que essa insatisfação é muito mais de um núcleo politico do que da torcida. Ando pela rua e vejo muita gente solidária que fala que quer o Vasco bem. O vascaíno quer ver o resultado.

Desde quando você assumiu, com certeza já respondeu muito sobre Eurico. Isso te incomoda?

Não me incomoda. Me causa certo espanto, porque é uma preocupação exarcebada com o Eurico. a preocupação deveria ser muito mais com o time, como esportivamente o Vasco se comporta e como a gestão atual está conduzindo o clube, como está se comportando, como tem feito. Acho que é isso. O vascaíno tem de parar de olhar para trás, tem de olhar para frente. Analisar seus atos, o que estamos fazendo, e pelos resultados esportivos, financeiros, econômicos. E vocês são culpados, porque perguntam, dão eco...

Independentemente disso, o Eurico é o presidente do Conselho de Beneméritos. Qual a importância dele e do poder para o clube?

É um poder do clube. O clube tem cinco poderes, não é só o residente administrativo. Tem o Conselho de Benemérito, o Fiscal, o Deliberativo e a Assembleia, que tem um presidente. Tem uma série de coisas que precisam passar pelo Conselho. Uma série delas precisa passar pelo Conselho de Benemérito. Por exemplo, se eu resolver ampliar São Januário, isso precisa passar pelo Conselho. Precisa de aprovação. Muita coisa precisa de aprovação no Conselho.

Você acha que deturpam a importância de Eurico para o clube?

Eu acho que as pessoas confundem. Tenho visto muito isso em comentários. Quando as pessoas tomam conhecimento que ele é o presidente do Conselho de Benemérito, acham que tem uma atuação na gestão do clube. E não é verdade. O clube tem cinco poderes. O presidente administrativo sou eu. A administração do clube cabe a mim. Mas para que haja equilíbrio e uma defesa do próprio clube existem outros poderes.

Isso não deixa que um presidente comprometa o clube. Para isso, preciso passar pelo Conselho. Entendeu? Isso é uma defesa ao clube. Se não, entra alguém aqui com uma administração temerária, com atitudes que poderiam colocar o clube em risco. É um contraponto. Tem de passar pela aprovação do conselho.

Mas as pessoas não entendem isso e acham que, pelo fato de o Eurico ter a presidência de um dos poderes, tem gerência sobre a gestão. Isso não é verdade. É um mau entendimento da maneira como o clube funciona. Está no estatuto do clube.

O torcedor ainda pode esperar reforços para a Libertadores?

Estávamos em busca de alguns nomes, mas as primeiras tentativas não tiveram êxitos. Os times não quiseram liberar, tinham contrato, enfim. Mas ainda assim estamos em busca. (Nota da redação: o prazo para inscrições na fase de grupos termina nesta sexta-feira).

Já foi falado publicamente que o Carlos Leite emprestou dinheiro ao Vasco no começo do ano, num momento de crise. Você é a favor dessa relação entre clube e empresário?

O idela é que o clube não precise recorrer a nenhum recurso, quer seja ele de banco ou de pessoa física ou de quem quer que seja. Esse é o ideal. Mas no momento em que você não tem tempo hábil nem facilidades para pegar recursos no banco e nenhuma outra pessoa física disposta a emprestar, não vejo nenhum problema.

Até porque o que o Vasco fez não foi um empréstimo de graça para que eu pudesse amanhã ou depois ser cobrado para dar algum retorno. Foi um empréstimo feito com condições semelhantes às que teríamos com o banco. Então, estou absolutamente à vontade, porque estarei pagando por isso, porque não é aquele favor que você faz pensando na frente. Se você me empresta mil reais e eu faço questão de te pagar os juros, você não pode me cobrar nada. Isso é um negócio.

Durante a campanha, o senhor havia dito que queria um valor mais baixo no novo plano de sócios. O que o fez mudar de opinião?

O valor foi o necessário. Existia um pedido para que fosse aberto, e ele foi aberto. Não é caro. A taxa de adesão é necessária, o clube precisa de aporte. Pode ser dividida em quatro vezes. Temos que deixar de hipocrisia, tem muita gente pedindo o valor de R$ 200 que é para reativar um monte de gente de mensalão. Essa que é a verdade.

O cenário (fez mudar de ideia). Podemos até abrir mais para eleição, mas quando tivermos de fato um número grande de pessoas fidelizadas participando. Essa oscilação é um risco para o clube. O Vasco precisa de sócios que entrem e permaneçam. Toda essa chiadeira talvez tenha origem na frustração de alguns.

Fonte: GloboEsporte.com

Enquete

Você é favorável ao retorno de Antônio Lopes no cargo de dirigente?

Deixe seu comentario