Confira a entrevista com Morais, jogador que atuou no Vasco entre 2002-2008

03/05/2020 às 16h37 - FUTEBOL

Nosso bate-papo de hoje é com Morais, que teve, no Vasco entre os anos de 2005 a 2007, seu melhor momento na carreira. Também nesta época, o atleta fez parte da primeira convocação de Dunga como técnico da Seleção Brasileira, mas não entrou em campo contra a Noruega. Posteriormente, ficou na pré-lista do Brasil para a disputa da Copa América de 2007, mas acabou cortado e não foi à Venezuela.

Morais é de Maceió-AL e começou no CRB com 13 anos. O Vasco, atento como sempre nas revelações do mercado, observou o jogador durante um torneio infantil no Espírito Santo e o convidou para de mudar para o Rio de Janeiro e fazer parte de sua base.

O meia foi promovido ao time profissional em 2001 e fez sua estreia no ano seguinte. Após passar um período emprestado ao Athlético-PR, firmou-se com a camisa vascaína a partir de 2005, quando ajudou Romário a ser artilheiro do Brasileirão. Aos 35 anos, hoje Morais atua no Confiança, de Aracajú-SE. Além dos times já citados, ele ainda coleciona passagens por Bahia, Atlético-MG, Criciúma, América-RN, São Bento e Botafogo-SP.

Na entrevista, Morais fala da importância do Vasco para a sua carreira, esclarece os verdadeiros motivos da sua saída em 2008, se defende das críticas por ter sido chamado de mercenário e revela que sempre teve o sonho de ter a cruz de malta estampada no peito.

Confira!

Qual a importância do Vasco para a sua carreira?

Morais: O Vasco me projetou. Cheguei lá com 13 anos. Foi a ponte para eu me tornar jogador. Sem dúvida que o clube que eu tenho o maior carinho é o Vasco. Pode ter acontecido qualquer coisa, mas não tenho que medir esse sentimento. É o time que ao natural, onde eu tiver jogando, vou torcer. Eu, meu irmão e meu pai.

Guarda alguma mágoa da direção do Vasco e principalmente do grupo de torcedores em relação à sua saída do clube em 2008?

Morais: Quando o Eurico saiu a gente estava num momento difícil pra caramba. Até hoje, né? Financeiramente até hoje o Vasco não se ajeitou. O Eurico tinha a mão firme ali. Ele conseguia manusear bem, mesmo com as dificuldades. Sabia onde encostar. Na verdade que, sem título, sobnra pra alguém. E sobrou pra mim. Eu via que quando ganhava, todo mundo ganhava e quando perdia era “Noite ruim Morais, Morais não rende e Vasco perde”. Até que a gente perdeu o jogo pro Santos de 5 x 1, tava suspenso pelo terceiro cartão e a reapresentação era segunda. A torcida foi lá, nem tinha jogado, todo mundo saindo e quando eu vi os caras “ah, vamos pegar”. Aí quando eu vi, era comigo. Sorte que um amigo me avisou lá, um que era porteiro e falou: “os caras estão na covardia contigo”. Aí eu vi que era pra mim. Em função do que se falava, “ah mercenário”, todo mês tinha proposta na fase boa minha ali. O Eurico me chamava. “Não vou te vender, não vou te vender. Se te vender vão prender o dinheiro e aí vou te perder e não vou ter dinheiro”. Só o que acontece: ninguém sabia disso! Chegava proposta do Hamburgo, chegava do Hertha Berlim. Aí o Eurico vem e me chamava: “olha, pode tirar o cavalinho da chuva que não vou te vender”. Era Atlético de Madrid, com uma dívida do Juninho Paulista que valia 5 milhões de euros. O cara queria pagar 1 milhão e o resto era da dívida. Aí o Eurico: “eu não vou te liberar nunca por dívida. Tem que ser em dinheiro”. Aí comecei a ser cobrado por ser mercenário. Poxa, tive proposta de ganhar 150 mil euros e eu ganhava bem menos. Ia ganhar 4 ou 5x mais. E eu ficava. Era moleque novo, solteiro, o que eu ganhava lá me sustentava. Vivia bem. Aí eu ví que era hora de sair, que não ia me acabar ali.

Era uma pressão muito grande naquela época, né?

Morais: Mesmo nos momentos difíceis eu jogava bola, eu rendia e me realizada, entendeu? Querendo ou não eu estava num clube grande, clube que eu sempre sonhei em jogar, São Januário (adorava São Januário). O time mesmo quando tinha um elenco fraco e a gente perdia o jogo fora. “Não se preocupa que tem 2 jogos seguidos em São Januário”. Começava a se aproximar da zona: “tem 2 jogos seguidos em São Januário”. A gente resolvia. Eu era feliz até a época que eu comecei a parar de render. Aí o dia a dia já ficou insuportável.

Em 2007, você chegou a receber propostas oficiais de clubes europeus, mas resolveu ficar visando ser campeão no Vasco. Se arrepende da decisão?

Morais: Hoje, estou em casa agora, nessa quarentena, o cara fica pensando. “Poxa, de de repente eu poderia ter feito uma carreira na Europa. Não ter jogado muito tempo, mas ter vivido lá um contrato de 4 ou 5 anos, conhecer, ter história pra contar, pois no final o que fica é a história”. Cara, mas joguei, tava no Vasco! Também nunca fui aquele cara desesperado, “ah Europa”, sabe? Claro que fica a história que todo mundo quer ir pra Europa, a gente dá as entrevistas, mas eu não era isso o tempo todo não. Eu tive meu sonho de infância ali, de jogar no Maracanã e estampar a cruz de malta no peito. Eu e meu irmão éramos torcedores desde moleque. Não fica (arrependimento). Eu estava no Vasco, então não pesava tanto!

Você chegou a ater algumas aposentadorias na carreira. Acha que essas pausas atrapalharam sua caminhada no futebol, onde poderia ter ido mais longe?

Morais: Sem dúvida alguma em relação à carreira. Mas é escolha. Eu saí de casa muito cedo, com 13 anos. Minha primeira aposentadoria eu tomei com 27 anos essa decisão. Mas era uma parada que eu já vinha pensando com uns 24 ou 25. Com 13 anos, passava o ano inteiro no Rio de Janeiro. Só ia pra casa em dezembro. Eu pensava muito em casa. Eu, moleque novo, só pensava: “tem que equilibrar isso aí”. Meu pai me ajudava muito. Meu pai é contador. Então desde moleque, graças a Deus, meu pai mandava sempre eu poupar. Carreira curta, então eu já fui equilibrando. Eu falei: “vou baixar custo e começar a ir mais pra casa”. E comecei a ficar assim. Na primeira vez, eu quis largar mesmo. Eu falei: “chega, vou tocar um negócio em Maceió e vou parar”. Só que aí bateu o vício de voltar, né? Voltei para o Atlético-MG e depois fui para o Criciúma e aí parei de novo. Só que quando eu saí do Criciúma, eu já parei decidido em minha cabeça. “Não, vou jogar 1 semestre e vou parar outro, até quem queira. Que se não quiser, eu fico na minha casa. Se não a vida vai passar aí, meu pai tá envelhecendo e minha mãe também”. E foi escolha. Não me arrependo! Meus filhos nasceram também quando estava no Corinthians, em 2009. Então ficava muito longe. Uma vez que eu cheguei em casa, os meninos me estranharam. As coisas foram me mostrando e eu fui tomando minhas escolhas, Acabei criticado por muita gente mas, enfim, escolha minha.

Você acredita que seu melhor momento no Vasco foi entre 2005 e 2006 quando atuou com Romario no ataque e teve Renato Gaúcho como treinador?

Morais: 2005 e 2006, sem dúvida, vivi meu melhor momento técnico e de confiança.

Lembro que na época o Romário te elogiou bastante...

Morais: Ajudei o Romário a chegar ao milésimo! (risos)

No Vasco, você criou um drible que ficou conhecido como danos morais. Uma espécie de caneta com toque de letra. Isso se eternizou na memória do torcedor. Como se sente diante desse reconhecimento?

Morais: Fiquei feliz com o drible porque fazia muito quando era criança ainda em Maceió e desde que fui para as categorias de base no Vasco nunca mais tinha tentado. Até que naquele momento resolvi fazê-lo e deu certo.


Conta pra gente como está o Morais hoje e os planos para o decorrer da temporada.

Morais: Eu estava parado. Tinha jogado pelo Brasiliense ano passado e parei. E tive essa oportunidade num clube aqui de perto de casa, em Aracajú, que é do lado de Maceió. E fui pra lá. Só que estava muito tempo parado. E não joguei lá ainda. Estou treinando, estava começando a me preparar para, de repente, pegar a reta final do Estadual. Mas desde início, meu foco sempre foi a Série B. Tenho contrato com o Confiança até o final de novembro. Vou torcer, botar os dedos no chão, pedir a Deus pra nos livrar desse mal aí para que eu possa jogar mais um pouquinho.

Você pensa em encerrar a carreira de vez após disputar a série B com o Confiança? E já sabe se pretende fazer um jogo de despedida em algum clube específico?

Morais: Não penso em jogo de despedida. E a aposentadoria definitiva vai depender do meu rendimento. Se eu conseguir render e me realizar, continuo.

Fonte: Marcus Jacobson - Detetives vascaínos