Dependente, futebol do Rio busca governo, Vasco é um caso à parte

24/04/2006 às 14h29 - CLUBE

O futebol carioca pede socorro. Com dívidas milionárias, e há tempos conhecidas, as equipes do Rio de Janeiro apostam na força de suas marcas para conseguir equilibrar seus caixas. Mas ficam na dependência de programas governamentais.

Atualmente três programas são as esperanças dos grandes do estado. Gol de Placa, a única já em vigor, Timemania e Rio Show de Bola fazem dirigentes de Flamengo, Fluminense e Botafogo - o Vasco é um caso a parte, sonharem com dias melhores.

Os três projetos envolvem a participação da esfera pública no futebol, mas com uma diferença básica. Gol de Placa e Rio Show de Bola são programas do governo do estado do Rio, com investimentos diretos, enquanto na Timemania o governo federal não precisará colocar dinheiro.

No Gol de Placa, o governo estadual subsidia os ingressos dos jogos no Rio de Janeiro, comprando uma carga dos clubes por um valor um pouco inferior ao cobrado nas bilheterias e repassando por R$ 1 aos torcedores que apresentarem notas fiscais de, no mínimo, R$ 50.

\"O futebol carioca está começando a ficar dependente do gol de placa. Hoje de 70% a 80% dos ingressos vendidos são do Gol de Placa\", explicou Élcio Venâncio, presidente da SportPlus, agência de marketing esportivo responsável pelo desenvolvimento do programa.

Em 2005, primeiro ano do projeto Gol de Placa, a média de público dos jogos no Maracanã no Campeonato Estadual chegou perto das 50 mil pessoas. \"Foi excelente. Eu vejo pelo público nos estádios\", disse Márcio Braga, presidente do Flamengo.

Mesmo sem os números da atual edição do Estadual fechados, os clubes aprovaram a continuidade do programa. \"Foi muito bom e continua sendo. Voltou a trazer público para os estádios e tirou o clube de um sufoco financeiro\", afirmou Roberto Horcades, mandatário do Fluminense.

No Congresso
Os outros dois projetos que podem ajudar a recuperar as finanças do futebol carioca ainda não estão em vigor. O mais próximo de começar a valer é a Timemania, uma nova loteria que irá explorar a marca dos clubes que disputam as três divisões do Campeonato Brasileiro.

O dinheiro arrecadado com esta loteria, porém, irá passar longe do controle dos clubes. A parte do montante arrecado destinado ao futebol será de 25%, mas todo o dinheiro será usado para abater dívidas fiscais das equipes.

\"É um projeto inteligente e bom para todo mundo, porque o governo não está colocando dinheiro algum nele\", explicou Bebeto de Freitas, presidente botafoguense. \"Os clubes emprestam sua marca, mas o dinheiro não entra em seus cofres\", continuou.

Bebeto, ao lado de Márcio Braga e Roberto Horcades, foram dos principais dirigentes que trabalharam pela nova loteria. \"Não é utilização de dinheiro público, mas a única forma dos clubes, tendo em vista administrações nefastas do passado, para fazer com que o futebol continue operacional\", disse o dirigente tricolor.

Além de se esforçarem para mostrar que o governo federal não precisará colocar dinheiro público para salvar os clubes, os dirigentes concordam que, sem a Timemania, muitas equipes correm o risco de acabar.

\"Se não houvesse esse realinhamento, não dava para ter outras ações para financiar o futebol brasileiro\", afirmou Márcio Braga. \"Os clubes estão em estado de insolvência e sem nenhuma capacidade de investimento. E, sem clubes, como se faz futebol\", continuou o presidente rubro-negro.

Bebeto de Freitas lembra que, no Botafogo, a situação fiscal representa quase 70% da dívida total do clube. \"O Botafogo, hoje, como alguns outros, é um clube impossível de ser administrado com essa dívida\", lamentou.

Juntos, os três clubes declaram ter dívidas de, aproximadamente, R$ 270 milhões, sendo R$ 120 do Botafogo, R$ 110 do Flamengo e R$ 40 do Fluminense. \"São dívidas impagáveis\", afirmou Horcades.

A situação delicada, inclusive, tirou força dos dirigentes do futebol na negociação com o governo. \"O que está vindo já está bom, mas não vou dizer que está ótimo\", disse Márcio Braga, sobre os ganhos dos clubes com a loteria.

A aprovação da Timemania, porém, ainda não saiu. A lei que regulamenta a nova loteria ainda está no Congresso Nacional aguardando a votação de destaques para que possa ser sancionada em definitivo pelo presidente Lula.

Show de bola
O terceiro programa que envolve a esfera pública com o futebol é o Rio Show de Bola. O projeto chegou a ser lançado para o Estadual deste ano, mas esbarrou em problemas burocráticos.

\"Vamos preparar um plano de mídia para o Estadual do ano que vem\", explicou Venâncio, da SportPlus. Pelo projeto, os clubes deverão ter um aporte de R$ 30 milhões para investir em seus departamentos de futebol, melhorando a estrutura no Rio.

Pelo programa, serão vendidas seis cotas de R$ 5 milhões para empresas que queiram patrocinar o futebol do estado. Estas empresas deverão ter isenção em impostos de até 80%. O dinheiro, porém, não será repassado aos clubes integralmente.

\"Para a gente mandar dinheiro, temos de mandar mediante notas fiscais. O Botafogo, por exemplo, tem de provar algum gasto. Eles (clubes) têm de apresentar nota fiscal\", continuou Venâncio.

Inicialmente, o projeto previa investimentos de até R$ 80 milhões. Com isso, imaginava-se a contratação de um grande jogador para cada um dos grandes clubes do estado. O valor, porém, ficou acima do que a lei permitiria como investimento do governo estadual.

Apesar dos problemas financeiros dos clubes e da dificuldade para a implementação do Rio Show de Bola, Venâncio ainda acredita no sucesso do projeto. Principalmente pela força que o futebol tem na mídia.

\"Há seis anos a gente faz a comercialização do futebol carioca. A gente vende placa e tapete (que ficam posicionados ao lado dos gols). O futebol continua sendo um grande negócio, é uma mídia\", terminou.

Fonte: Pelé.Net