Nunca fiz questão de esconder o quanto eu gosto de um futebol mais bruto e, às vezes, até mais truculento. Além da comparação com outros esportes, onde uma mão acidental no peito geralmente não faz um atleta forte e saudável rolar no chão por 30 segundos com a mão no rosto, clamando por atendimento médico, a minha defesa do que chamo de “rugbyzação do futebol” quase sempre esteve ancorada em um argumento simples: mais contato significaria menos interrupções e, portanto, mais tempo de bola rolando.
Pois bem, eu errei — ou, no máximo, acertei só de raspão.
De uns meses para cá, finalmente tive acesso a estatísticas mais detalhadas de bola rolando e passei a me debruçar sobre o tema com mais cuidado. O recorte que consegui ainda é pequeno (começa em 2024), mas os primeiros números já foram suficientes para derrubar algumas convicções. A ideia de que um futebol mais duro resolveria o problema do tempo útil não se sustenta quando você começa a cruzar dados por árbitros, campeonatos e segmentos do jogo. Tolerar contatos ajuda, sem dúvida, mas bem menos do que eu supunha.
Sem mais enrolação, observe a tabela abaixo, que reúne árbitros do Brasileirão 2025 com 15 ou mais jogos, cruzando tempo médio de bola em jogo com indicadores clássicos de arbitragem, como faltas por jogo, cartões, pênaltis e faltas por desarme.
O que salta aos olhos não é a inexistência de relação entre esses números, mas o quanto essa relação é tênue. Árbitros que marcam menos faltas tendem, sim, a apresentar médias um pouco maiores de bola rolando, mas a diferença está longe de ser estrutural. Em muitos casos, juízes com número elevado de faltas conseguem jogos relativamente fluidos, enquanto outros, com menos intervenções formais, apresentam partidas igualmente fragmentadas. Isso sugere que o impacto do critério disciplinar existe, porém é marginal.
Veja bem, ao comparar Davi Lacerda (23,27 faltas por jogo e 54:28 de bola rolando) com Alex Stefano (34,05 faltas por jogo e 51:06 de bola rolando), a inferência imediata é que a bola rola mais com árbitros que não “picotam” o jogo. No entanto, essa relação não é linear nem automática. Como explicar, por exemplo, que os jogos de Felipe Fernandes de Lima, um dos árbitros menos tolerantes ao contato, tenham apenas 20 segundos a menos de bola rolando do que os de Davi e 27 segundos a mais do que os de Claus?
Isso acontece porque o principal vilão do tempo útil não é exatamente o excesso de faltas marcadas. A bola para toda hora por uma série de motivos que fazem parte da própria estrutura do jogo, como laterais, escanteios, tiros de meta, cartões, impedimentos, substituições, gols, pênaltis, atendimentos médicos e checagens do VAR.
Trata-se, por natureza, de um jogo fragmentado, com uma média que gira entre 90 e 100 paralisações por partida. Além disso, em boa parte do tempo, ao menos uma das equipes está confortável e satisfeita com um empate ou uma vantagem mínima, o que reduz qualquer urgência em acelerar cobranças de laterais ou tiros de meta, por exemplo. Deixar de apitar as insuportáveis faltinhas do futebol moderno certamente contribui para um jogo mais fluido e mais agradável de assistir, mas isso, isoladamente, não é suficiente para alcançar os 60 minutos de bola rolando que a FIFA trata como referência ideal.
Quando ampliamos o olhar para os campeonatos, como mostra a tabela abaixo, essa conclusão fica ainda mais clara. A comparação entre o Brasileirão e as principais ligas europeias revela diferenças importantes no perfil disciplinar, mas ganhos relativamente modestos em termos de jogo útil.
Premier League e Bundesliga, por exemplo, apresentam médias significativamente menores de faltas por jogo do que o Campeonato Brasileiro. Ainda assim, o tempo de bola rolando durante os 90 minutos (mais acréscimos) permanece concentrado na mesma faixa: algo entre 54 e 56 minutos. La Liga, Serie A italiana e Ligue 1 se situam nesse mesmo intervalo, apesar de estilos, culturas e critérios de arbitragem bastante distintos. Menos faltas, portanto, não significam automaticamente muito mais futebol jogado.
Veja bem, isso não significa fazer pouco caso enfadonho estilo de arbitragem brasileiro. Para mim, via de regra, quanto mais faltas, cartões e pênaltis (especialmente os da zona cinzenta, altamente interpretativos), pior. A partida perde fluidez, ritmo e dinamismo. O ponto aqui é outro. Reduzir esse tipo de interrupção melhora a experiência do espectador, mas, por si só, não é o que vai entregar 6, 8 ou 10 minutos a mais de bola em jogo.
Existe um piso de interrupções que o futebol carrega consigo. A arbitragem pode influenciar no tempo de bola rolando, mas de forma limitada, pois os antigos regulamentos e os rituais do esporte definem o piso.
A tabela abaixo, que detalha, entre outras coisas, o tempo médio de jogo, o número de paralisações, os acréscimos anunciados e o tempo efetivamente jogado, mostra que o futebol brasileiro não está tão distante das principais ligas europeias, mas que ainda assim há boa margem para avanço.
O árbitro não pode simplesmente deixar de marcar laterais ou escanteios, tampouco tem como controlar o número de gols. O que lhe cabe é agir com mais rigor contra a cera e as simulações, adotando uma postura que, em certa medida, demonstre empatia com o time que, naquele determinado momento, quer mais jogo do que o adversário.
Ainda assim, essa mudança dificilmente partirá do indivíduo. O problema é estrutural e a solução precisaria vir de cima, ou seja, da CBF e de sua Comissão de Arbitragem. Não basta anunciar diretrizes genéricas, como a orientação para que apenas os capitães debatam com os árbitros. A ideia é boa, mas, como muitas normas no Brasil, “não vingou”.
Medidas mais objetivas são necessárias. Para mim, a criação de bônus atrelados a metas de bola rolando poderia ser um divisor de águas no futebol brasileiro. Não é razoável esperar do árbitro uma postura de cavaleiro honrado em um ambiente de guerrilha, mas, talvez, havendo incentivo concreto, ele passasse a defender com mais firmeza o tempo útil de jogo.
Para ser justo com a CBF, a adoção do sistema multibolas já representou um avanço significativo, e o VAR semiautomático tende a contribuir ainda mais. Faltam, contudo, a implementação da Goal Line Technology, a padronização objetiva de critérios (sem faltinhas, claro) e, sobretudo, um pacto entre todos os atores do jogo para coibir simulações, cera e reclamações excessivas, com punições efetivas a quem insistir em condutas que roubam valiosos segundos de jogo.
No cenário ideal, a discussão nem deveria passar tanto pela arbitragem, mas pela IFAB e pelas próprias regras do jogo. Enquanto não houver mudanças estruturais que reduzam o tempo de bola parada, os ganhos seguirão sendo pontuais. Até lá, vamos empurrando o futebol com o que temos e tentando extrair dele o máximo de bola rolando possível.
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