Fotógrafo finlandês relembra época de Romário na Seleção e no Vasco

02/05/2020 às 11h44 - FUTEBOL

- Se deixo isso em caixas ou pastas nunca ninguém vai ver. Ou faço isso ou se perde para sempre.

O depoimento é de um relaxado e bem-humorado Juha Tamminen. Pouco depois de sair da sauna em casa na gelada Finlândia. A temperatura está próxima de zero grau, mas o trabalho segue a todo vapor em Hämeenlinna, cidadezinha a 100 km da capital Helsinque.

Provavelmente você não conhece esse jornalista e fotógrafo finlandês de 62 anos, mas possivelmente já esbarrou com algumas das muitas fotos que ele coloca nas redes sociais. Um acervo rico do futebol mundial, mas principalmente de jogadores brasileiros - dos mais conhecidos a praticamente anônimos, o que lhe faz recorrer à internet para identificar muitos.

 

Uma das raridades é de Romário. O herói do tetracampeonato de 1994 no início de sua trajetória na Seleção, em 1987, quando marcou o primeiro gol com a camisa amarelinha, nos 3 a 2 sobre a Finlândia, num amistoso no estádio Olímpico de Helsinque. Romário nunca tinha visto essa foto e se surpreendeu com o registro de Juha: "Que fotão", comentou o atual senador da República.

Há outros do início dele no Vasco, de Renato ainda no Grêmio, Raí no São Paulo, Mauro Silva no Bragantino, Ricardo Gomes no Fluminense... O arquivo pessoal do finlandês, que trabalhou nas Copas de 1990 a 1998, tem milhares de fotos dos anos 1980, 1990 e ainda um pouco do início dos anos 2000. Trabalho que começou nos anos 1980 no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro. Foi um dos destinos que ele encontrou para fugir do inverno europeu.

Desde 2012, depois de comprar uma máquina de scanner capaz de digitalizar 12 fotos em boa resolução em 30 minutos, ele dedica horas do seu dia para digitalizar todo esse acervo. Em tempos de #fiqueemcasa, ele dobrou essa quantidade de fotos escaneadas. Hoje, calcula que já contabiliza cerca de 200 mil fotos escaneadas - e sempre catalogadas com data, local e possíveis identificados.

- Pensei que levaria quatro anos digitalizando tudo que tenho. Mas já faço isso há oito anos. Só em abril já foram umas cinco mil. Na quarentena, como não tem nada aqui, o campeonato está parado (na Finlândia), e eu fazia os jogos a cada dois dias, começo às 8h30 e vou até 23h escaneando. São umas 15h de trabalho. Mas acho que vou levar mais quatro anos para digitalizar tudo - estima Juha.

 

Botafoguense pela amizade com Josimar e Espinosa

"Iurrá" - é assim que se pronuncia o nome Juha - veio ao Brasil a primeira vez em 1981 como turista mochileiro. Foi ao Maracanã e assistiu a dois jogos - Vasco x Internacional e Fluminense x América de Natal, numa semana no Rio de Janeiro. Passou também por Argentina, Chile, Equador, Paraguai. México... rodou e rodou até voltar à Cidade Maravilhosa. Desistiu do Rio no início dos anos 2000 depois que sua casa na Ilha do Governador foi assaltada três vezes.

É difícil resumir essa trajetória em poucas linhas, mas lá vai. Como jornalista e também fotógrafo, escreveu para publicações estrangeiras - Guerín Sportivo, World Soccer e Don Balón - e volta e meia viajava para cobrir, além dos Mundiais, competições sul-americanas e europeias. No Brasil, ainda fotografou GPs de F-1 com Senna e Piquet - uma outra parte desse acervo, ainda não digitalizado, também tem raridades do carnaval carioca.

 

Juha pegou amizade com alguns boleiros brasileiros. Até hoje fala com Paulo Victor, ex-goleiro do Fluminense, e se diverte ao lembrar de histórias de Josimar, de Romário e de passagens de times e da Seleção pelo seu país. Ele foi tradutor do Botafogo em 1985, com Valdir Espinosa, que faleceu neste ano, e parte daquele time que seria campeão em 1989. Ali, ganhavam um novo torcedor.

- Acabei virando botafoguense, estava naquele título em 1989 e lembro bem do Josimar, que era muito engraçado. Aconteceu um caso com ele aqui, uma injustiça. Ele tinha um cordão de ouro e havia duas mulheres filandesas, que estavam no lugar onde estava o time e depois iam para o hotel do time. Depois, a polícia foi e achou que ele tinha roubado. Josimar ficou nervoso, mas foi uma denúncia falsa das mulheres - lembra o fotógrafo.
 

Com Romário, dois anos depois, o problema foi encontrar algum lugar para sair depois do jantar da seleção brasileira na passagem pelo gelado país europeu.

- Ele queria sair, mas não teve jeito. Não tinha o que fazer. Dava para ver ali as aventuras que ele ia ter depois (risos) - recorda, com certo cuidado para as partes publicáveis das histórias que acompanhou.

Foi o Baixinho que proporcionou um dos dias mais marcantes da carreira, no Maracanã com 150 mil pessoas, na final da Copa América de 1989, contra o Uruguai. O gol de Romário deu o título à seleção brasileira de Sebastião Lazaroni.

 

Com cerca de 200 pastas e caixas de papelão guardadas ao longo de mais de 30 anos de fotografia, Juha também vai contribuir para a criação de um museu do esporte na Finlândia. Aquilo que começou com pedidos de fotos antigas de jogadores finlandeses - hoje ele trabalha para a federação de futebol do país - virou hobby e terapia nos tempos difíceis de coronavírus.

- Outro dia coloquei foto do Unión Española do Chile no Twitter. Em 10 minutos as pessoas identificam os jogadores. Outro dia aconteceu de duas crianças que fotografei em 1984 me mandarem foto de hoje. É incrível.

 

Confira um pouco do acervo do fotógrafo finlandês:

Tem muito mais no site https://juhatamminen.photoshelter.com/index. No Instagram @retrofootballtamminen e no Twitter TamminenJuha.

 

Foto: Reprodução / Juha TamminenA língua presa de Romário captada pelo fotógrafo finlandês
A língua presa de Romário captada pelo fotógrafo finlandês


 

Fonte: Globoesporte.com