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Grandes personagens negros da história do Vasco

20/11/2019 às 11h27 - CLUBE

No dia da Consciência Negra, o Vasco, clube que abriu portas para os negros no futebol brasileiro, homenageia grandes personagens da sua história. De Nelson da Conceição até Pai Santana, o Cruzmaltino teve vários negros com uma importância fundamental para a instituição ao longo desses 121 anos. Relembre alguns deles.

Crédito das fotos: Centro de Memória/Vasco

NELSON DA CONCEIÇÃO

Nelson da Conceição nasceu em 12 de agosto de 1899, em Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro. Mudou-se ainda criança para a Capital Federal, com sua mãe Carlota Laura da Conceição. Na urbe carioca começou a disputar partidas oficiais de futebol ainda muito jovem, com apenas 15 anos. Iniciou sua carreira futebolística em 1915, no Paladino Football Club, instituição filiada à Liga Metropolitana de Sports Athleticos (LMSA, depois LMDT). Em 1916, já atuava pelo Engenho de Dentro Athletico Club, onde se tornou tricampeão da Liga Suburbana (1916/1917/1918), a maior de todas as ligas do subúrbio.

O jovem Nelson da Conceição chegou ao Club de Regatas Vasco da Gama em 1919, com a missão de assumir a titularidade do gol cruzmaltino. Desde o seu antigo clube, Engenho de Dentro AC, e principalmente no primeiro ano de Vasco, Nelson da Conceição sofria com considerações pejorativas relacionadas ao seu ofício, "chauffeur" de praça (o que podemos compreender atualmente como taxista), e também à sua forma coloquial de falar. As críticas e o preconceito contra Nelson eram emitidos por jornais e revistas da época, e por adversários e torcedores rivais nos jogos contra a poderosa equipe vascaína. 

A função de chofer era proibida pela Liga Metropolitana de Desportos Terrestres. Esse ofício era estigmatizado, sendo visto por boa parte da sociedade de então como uma prática destinada a indivíduos de baixa escolaridade e menor poder aquisitivo, com forte presença de pessoas negras. Na visão daqueles que comandavam o futebol carioca, os indivíduos de classe social menos abastada desempenhavam atividades caracterizadas por serem braçais e com baixo uso da intelectualidade.

No Vasco, Nelson foi deslocado para o comércio, onde trabalhava como atendente na Casa Alberto, localizada na Praça da República, e de propriedade do grandíssimo vascaíno Aberto Balthazar Portella. Embora não fosse um ofício característico das categorias sociais mais elevadas, a função de atendente no comércio era relevada. Assim, o goleiro escapava da perseguição racial e social da Liga Metropolitana e dos clubes que a dominavam.

Em 1922, o "Clube de Santa Luzia" conquistou a vaga para disputar, no ano seguinte, pela primeira vez em sua história, o Campeonato da Cidade contra os principais clubes do Rio de Janeiro. O ano de 1923 foi especial em todos os sentidos para Nelson, para o Vasco e para o futebol carioca. De uma só vez, Nelson da Conceição se tornou o primeiro goleiro negro a ser Campeão Carioca, a defender a Seleção Carioca e a Seleção Brasileira. 

O Vasco fez uma campanha avassaladora naquele ano, derrotando um a um os seus rivais e terminando o campeonato com 11 vitórias no total. No dia 12 de agosto de 1923, no mesmo dia em que completava 24 anos, Nelson ajudou o "Clube da Cruz de Cristo" a ganhar o título de Campeão da Cidade do Rio de Janeiro (Campeão Carioca). 

O grande "keeper", por sua técnica e dedicação, se consagrava como um ídolo histórico do Clube, ajudando-o a  tornar-se um Gigante do esporte nacional. 

Nelson da Conceição atuou em 191 jogos pelo Vasco, somando 122 vitórias, 27 empates e 42 derrotas. Em 1924, sagrou-se Bicampeão, conquistando com o Gigante da Colina o Campeonato Carioca daquele ano, de forma invicta. 

O ídolo vascaíno participou do jogo inaugural de São Januário, mas foi perdendo espaço no decorrer de 1927. No ano seguinte, deixou o Vasco para defender a equipe do Syrio Libanêz/RJ, seguindo depois para o Bangu, em 1929. Os anos se passaram e Nelson voltou ao Engenho de Dentro/RJ, atuando como treinador. 

No dia 24 de abril de 1942, o primeiro grande ídolo negro do Vasco faleceu. Estava internado no Hospital Gaffrée e Guinle, com suas despesas custeadas pelo Vasco. Neste ano de 2019, o Clube presta uma homenagem ao seu ídolo histórico. A camisa para os jogadores de linha é predominantemente branca, com golas e detalhes na manga na cor preta. O calção também é preto. A inspiração está em um dos modelos de uniforme utilizado pelo goleiro Nelson da Conceição.

ADHEMAR FERREIRA DA SILVA

Adhemar Ferreira da Silva, o homem que quis ser atleta, mas foi muito além disso. Como se não bastasse ser bicampeão olímpico, tricampeão pan-americano, pentacampeão sul-americano no atletismo, Adhemar formou-se em Educação Física, Direito e Relações Públicas. Foi escultor, trabalhou no Jornal Última Hora, Ministério do Trabalho e na Embaixada Brasileira na Nigéria. Chegou ao Vasco em 1955, ganhou cinco títulos estaduais e conquistou duas vezes o Troféu Brasil. 

A carreira do ex-atleta cruzmaltino começou em 1947, por influência de Ewald Gomes; parecia que o amigo de Adhemar previa o futuro do atleta paulista no Salto Triplo. Em 1955, Adhemar veio para o Rio e, enquanto atuava pelo Clube da Colina, foi bicampeão dos Jogos Olímpicos e tricampeão do Pan-Americano com a equipe brasileira. O homem que foi muito mais que um atleta encerrou a carreira no Vasco, em 1960, após as Olimpíadas de Roma.

BARBOSA

Moacyr Barbosa, o melhor goleiro da história do Vasco e um dos maiores do futebol mundial, nasceu em Campinas, em 1921, e chegou no Gigante em 1945. Tornou-se peça fundamental do impecável time conhecido como "Expresso da Vitória", conquistando o Campeonato Carioca em diversas edições, assim como outras competições de importância nacional. Foi o goleiro na conquista do Sul-Americano de 1948, disputado no Chile em brilhante campanha invicta da equipe com 4 vitórias e 2 empates, campeonato precursor da atual Libertadores.

Pela Seleção Brasileira, foi campeão Sul-Americano em 1949. Em 1950, na grande final do Mundial, disputada no Maracanã, Barbosa ficou marcado como o responsável pela derrota sofrida para a Seleção Celeste, quando levou o gol de Ghiggia, aos 34 minutos do segundo tempo, que definiu o resultado de 2 a 1 para o Uruguai. "No Brasil, a pena máxima é de 30 anos, mas pago há 40 por um crime que não cometi", o arqueiro costumava dizer.

CANDIDO JOSÉ DE ARAUJO

Candinho não foi o primeiro a fazer parte de um clube de regatas, mas o primeiro a ser presidente de um! Em 1904, apenas dezesseis anos após a abolição da escravatura no Brasil, Cândido José de Araújo foi alçado a mais importante cadeira do Vasco da Gama, já indicando a característica pioneira do Clube. Nas eleições de agosto daquele ano, as relações internas seguiam harmoniosas, e o simpático e elegante homem que levava sempre um cravo branco na lapela formou parte dos que ajudaram a consolidar o Clube depois das primeiras crises.

Sob a gestão desse grande dirigente, quando ainda não havia  futebol no Clube e o remo era o principal esporte da capital, o Vasco conquistou o primeiro título de sua história como Campeão Carioca de Remo, em 1905. Também, criou-se o "Chá da Sexta", primeiro grande evento social da agremiação cruzmaltina que reunia os associados semanalmente. Com esse exemplo, os vascaínos demonstraram que a barreira do racismo não era obstáculo algum.

DELMA GONÇALVES (PRETINHA)

Pretinha foi uma das maiores jogadoras do futebol feminino mundial. Seu sucesso iniciou-se em 1991, na 1ª edição da Copa do Mundo Feminina organizada pela FIFA. A atacante esteve presente numa excelente fase do futebol feminino conquistando o 3º lugar na Copa de 99, o 2º lugar na Copa de 2007 e duas medalhas de prata nas Olimpíadas de 2004 e 2008.

Delma Gonçalves, apelidada de Pretinha, além das brilhantes atuações pela Seleção, foi pentacampeã estadual pelo Vasco, de 1996 a 2000, sendo a artilheira de todas essas edições. Além disso, venceu o Campeonato Brasileiro 3 vezes, nos anos 1993, 1995 e 1998.

O fôlego interminável dessa lenda futebolística a fez voltar à Seleção aos 39 anos, depois de 6 anos afastada, para participar de um amistoso contra a França em 2014. Recentemente, a medalhista olímpica e mundial tornou-se membro do Conselho de Craques da CBF. Foi ainda auxiliar pontual da Seleção Feminina Sub-20 durante os treinos na Granja Comary, em Teresópolis (RJ).

PAI SANTANA 

No imaginário do torcedor vascaíno, sempre estará presente a imagem de um senhor negro vestindo um fraque branco, ajoelhado no gramado e beijando o pendão cruzmaltino. O homem representado chama-se Eduardo Santana, conhecido popularmente como Pai Santana, o lendário massagista do Vasco que cuidou e tratou dos ídolos vascaínos.

Santana era um homem de muita fé, era umbandista quimbanda, conhecido também por seus trabalhos espirituais que ajudavam ao Vasco e atrapalhavam as equipes rivais. Além de massagista, guia espiritual e boxeador, formou-se na Escola de Educação Física do Exército, chegando mesmo a ser técnico do Vasco durante um torneio em 1974.

Este incrível senhor também era filantropo e amava as crianças, realizando trabalhos sociais em regiões carentes. Levou o sentimento de ser vascaíno a pessoas de diversas cidades durante excursões do Vasco, distribuindo diplomas com sua assinatura. Santana sempre nos iluminou!

Fonte: Site oficial do Vasco