Januário de Oliveira recorda narrações históricas que fez do Vasco

19/05/2020 às 12h01 - FUTEBOL

Depois das séries com ex-jogadores relembrando jogos inesquecíveis e torcedores ilustres falando sobre a paixão pelo Vasco, nesta semana o Site Oficial vai conversar com algumas vozes importantes da imprensa esportiva, que narraram tantos momentos, gols e títulos especiais do Cruzmaltino. O primeiro entrevistado é Januário de Oliveira, que ficou eternizado por bordões como "cruel, muito cruel", "é disso que o povo gosta", "eeee o gol", dentre outros. Natural de Alegrete, no Rio Grande do Sul, Januário começou na Rádio Farroupilha, em Porto Alegre. No Rio, atuou nas rádios Mauá e Nacional, mas é muito lembrado pelas transmissões e apresentações de programas esportivos na TVE-RJ e na TV Bandeirantes.

O jogo marcante do Vasco que Januário de Oliveira narrou marcou o nascimento de um dos maiores ídolos da história do clube. Foi a vitória vascaína sobre o Santos por 5 a 3, na Vila Belmiro, pelo Campeonato Brasileiro de 1995. Era a estreia oficial de Juninho Pernambucano, que na época ainda não carregava o estado natal compondo seu nome. Anos depois, ele se tornaria o Reizinho da Colina e seria eternizado com as grandes conquistas.

- Sem dúvida o jogo inesquecível que narrei do Vasco foi a estreia do Juninho Pernambucano. Foi um jogo daqueles que "É disso que o povo gosta!", cheio de gols e emoção. É o tipo de jogo "cruel, muito cruel o jogador do Vasco" - conta o narrador, antes de completar que via talento em Juninho quando ele ainda jogava pelo Sport:

- Nem foi preciso esperar o primeiro gol no Vasco. Já tinha visto ele jogando em Recife, magrinho, pequeno e já muito habilidoso. Quando chegou ao Vasco, deu um show de bola. Literalmente explodiu tudo.

Outro jogador do Vasco que marcou Januário teve uma passagem rápida pelo Cruzmaltino, mas inesquecível para o narrador. Contratado junto a Portuguesa em 94, Dener chegou em São Januário mostrando sua principal característica: o drible. E num dia de muita insipiração do crauqe, o narrador acabou utilizando um adjetivo que seria eternizado pela sua voz com diversos jogadores mais pra frente: CRUEL, MUITO CRUEL!

- Um dos primeiros jogos do Dener pelo Vasco, quando ele veio da Portuguesa, ele participou de todos os gols e sofreu um pênalti, se machucou e teve que ser substituído. Num dos gols, foi fantástico. Ele saiu da área do Vasco, driblando e driblando, não deu pra ninguém, driblou um, dois, três, o primeiro ele driblou de novo, o goleiro saiu, ele driblou e entrou com bola e tudo. Eu gritei aquele gol com tanto entusiasmo, como se eu fosse um vascaíno roxo e comecei a usar todos os adjetivos que eu conhecia lindo, fantástico, maravilhoso... e me ocorreu o CRUEL! O Dener foi cruel com o Madureira. E assim surgiu - recorda.

Atualmente, Januário vive em Natal com a sobrinha Daniela e a família dela. O eterno narrador perdeu a visão por conta da diabetes, mas ainda tem a cabeça lúcida e uma memória privilegiada. Por ter participado de tantos jogos marcantes da história do Vasco, ele não conseguiu escolher um gol especialmente como inesquecível. Segundo o narrador, todos os que ele narrou foram importantes e seguem na memória dos torcedores.

- Os gols, esses sim são os queridos de todos, pra mim em especial, me deixam extremamente orgulhoso e feliz! Espero ter passado um pouco do minha emoção em cada um deles. Eeeee o gol..... goooooooool! - brinca, antes de completar, falando sobre uma dupla que deu muitas alegrias aos vascaínos:

- O gol ou os gols mais marcantes que narrei do Vasco acredito que tenham sido na década de 90. Naquela época os torcedores gritavam pelo campeonato, havia a briga pela coroa de Rei do Rio entre os atacantes dos quatro grande e depois a disputa se tornou interna entre Romário e Edmundo tornava tudo ainda mais competitivo. Teve a famosa frase do Romário: "agora a corte está completa, o rei, o príncipe e o bobo". A galera ia ao delírio. Cada gol de ambos já era uma atração à parte!

BATE-BOLA

Januário de Oliveira, narrador

1. Você teve diversos bordões que ficaram eternizados pelo público. Eles vinham espontaneamente?

Meus bordões surgiam espontaneamente. Naturalmente, quando me dava conta, já estava no ar e na boca do povo.

Confira alguns dos bordões de Januário de Oliveira

"Ta aí o que você queria, bola rolando…" - quando o juiz apitava o início da partida ou do segundo tempo.

"Tá lá um corpo estendido no chão" - para o jogador que caía machucado no gramado.

"Lá vem Geraldo e Enéas para mais um carreto da tarde", quando os maqueiros do Maracanã, Geraldo e Enéas, entravam em campo para retirar um jogador machucado.

"Vai sair o primeiro carreto da noite" - quando um jogador contundido era levado pela maca para fora do campo.

"Sinistro, muito sinistro…" - para falha grave de jogador ou árbitro.

"Cruel, muito cruel…" - para elogiar o jogador após o gol ou um lance bonito.

"É disso (Fulano), é disso que o povo gosta" - para o jogador (Fulano) que acabara de estufar as redes, marcando o gol.

"Golaço, aço, aço" - após um gol muito bonito.

"Olhos nos olhos, se passar fica na boa…" - quando o jogador com a posse da bola ficava frente a frente com um defensor.

"Pintou em cores vivas" - quando uma chance clara de gol era perdida.

"Tá na área, é agora, bateu..." - quando o jogador tinha uma chance de finalizar em gol.

"Tem cartão? Tem cartão? Não! Cartão de crédito para o jogador (Fulano)…" - quando um jogador cometia uma falta dura e o árbitro não lhe aplicava nenhuma punição.

"O(a) primeiro(a) só serviu como ensaio!" - quando ocorria a repetição de um lance (chute, cruzamento ou cobrança de falta) em sequência. Exemplo: escanteios cobrados consecutivamente; uma bola alçada na área duas ou mais vezes seguidas.

"Pega, não larga mais, não dá rebote pra ninguém!" - quando o goleiro fazia uma defesa firme, segura, sem rebote.

"Escancarou, escancarou legal (Fulano)..." - quando o jogador tinha um feito um gol.

"Eu vi, eu vi…" - para algum lance que ninguém viu, somente ele.

"Acabou o milho, acabou a pipoca, fim de papo." - quando o juiz apitava o fim do jogo.

"riririkakakaka, o Juiz despirocou…" - para um lance em que o juiz marcou algo de outro mundo.

2. Qual é o seu Vasco de todos os tempos?

Carlos Germano, Paulinho de Almeida, Brito, Fontana e Eduardo; Alcir, Roberto Dinamite e Tostão; Bebeto, Edmundo e Romário, o técnico: Antônio Lopes

3. Você sente muita saudade da época em que fazia as transmissões dos jogos no Maracanã e em São Januário?

Poxa vida! Qualquer um que tenha trabalhando na época em que trabalhei seguramente tem grandes recordações e muita vontade de voltar ao tempo para rever grandes jogos, jogadores e grandes colegas que me causam saudades. Ano passado estive no Maracanã e me emocionei bastante!

Fonte: GloboEsporte.com