Jorginho Carvoeiro: o herói vascaíno que não pôde aproveitar a glória

04/04/2018 às 16h42 - CLUBE

Era o intervalo da grande final do Campeonato Brasileiro de 1974. O técnico Mario Travaglini havia acabado de orientar os jogadores do Vasco para o segundo tempo contra o Cruzeiro. O capitão Alcir veio falando com cada companheiro para se certificar de que cada um havia entendido as instruções. Quando chegou em Jorginho Carvoeiro, ficou desconcertado com a resposta.

- Entendi o quê?

- O que o homem disse!

- E o que o homem disse?

Alcir se irritou e partiu para cima de Jorginho. Quem separou os dois foi o goleiro Andrada, que virou para o ponta-direita e combinou:

- Faz o seguinte: fica no nosso campo, na ponta, que eu vou jogar a bola para você.

Jogada combinada, mas quem acabou lançando Jorginho foi Alcir: o ponta disparou livre e fez o gol da vitória por 2 a 1. Foi o herói do primeiro Campeonato Brasileiro do Vasco, num dos primeiros duelos históricos contra o time mineiro, que reencontra o Cruz-Maltino nesta quarta-feira, pela Libertadores, às 21h45 (de Brasília), no Mineirão.

Se você não conhece bem o herói do primeiro título brasileiro de 1974, não se assuste. A glória de Jorginho foi tão efêmera quanto sua vida. Três anos depois do gol histórico, ele morreu, aos 23 anos, vítima de leucemia. Havia deixado de ser jogador do Vasco em 1975 para se tratar da doença, sem sucesso.

Vida humilde

O episódio da discussão no vestiário explica um pouco Jorginho. Ele veio de uma família extremamente humilde. Morava em Bangu, numa casa de terra batida, com os pais e irmãos. Fez primeiro sucesso no time da Zona Oeste antes de ir para o Vasco, em 1972.

- Na época, tomamos uma surra do Bangu em São Januário. E depois trouxemos um monte de jogadores do Bangu – contou Nelson de Souza, diretor de futebol do Vasco na época.

Nelson teve contato direto – e não tão fácil – com Jorginho. O jogador tinha dificuldades para assimilar a nova vida. Era pouco instruído. Pessoas próximas o definem como “completamente alienado” ao que se passava no Vasco e na sociedade na época.

Em campo, porém, Jorginho tinha seu espaço. Ponta veloz, foi titular durante boa parte da campanha do Vasco no Campeonato Brasileiro. Em 1971, um ano antes de ser contratado pelo Vasco, foi convocado para a seleção brasileira de amadores e disputou um torneio na França no qual foi eleito o melhor jogador.

- Jorginho sempre foi um cara muito alegre, brincalhão. Usava muito a velocidade e o drible, sempre em direção ao gol. Foi decisivo para o Vasco – lembrou Roberto Dinamite, companheiro de ataque de Jorginho na época.

O Corcel vendido

O rápido crescimento na carreira rendeu episódios curiosos para Jorginho. Nelson de Souza lembra que, um belo dia, viu um carro da marca Corcel estacionado em São Januário. O automóvel era famoso nos anos 1970. Ao perguntar aos funcionários de quem era o veículo, soube que era do ponta-direita.

- O administrador de São Januário disse que o Jorginho ainda não tinha carteira e tinha deixado o carro lá porque ia conseguir um motorista. Chamamos a assistente social, que foi na casa dos pais dele em Bangu e viu que não tinha mudado nada. Ato contínuo, o fizemos vender o carro e comprar um imóvel para a família – contou Nelson.

Jogo beneficente com Pelé

A glória de Jorginho depois do gol do título durou pouco. Em abril de 1975, ele descobriu que estava com leucemia e deixou o Vasco. Os jornais da época falam pouco de como se deu esse processo. Nelson de Souza resumiu:

- Ele começou a ficar doente, e todo mundo ficou doente. Ele mesmo se afastou. Sumiu, não ficou no Vasco, não. Parou de jogar e sumiu.

Entretanto, os companheiros de Jorginho não o esqueceram. Em 1976, organizaram um jogo beneficente em Brasília para arrecadar fundos para o jogador. Foi um amistoso entre Vasco e Fugap, a Fundação Garantia do Atleta Profissional.

Na seleção do sindicato, nomes como Valdir Peres, Leão, Doval, Rodrigues Neto, Palhinha, entre outros. Até Pelé compareceu à festa, mas não jogou, porque o Cosmos, seu então time, exigiu um seguro.

Houve, porém, polêmica. Da renda de cerca de 200 mil cruzeiros (quase R$ 500 mil), Jorginho teria ficado com apenas 6 mil cruzeiros (R$ 16 mil). Logo depois, realizou-se um show na quadra da escola de samba Vila Isabel, com Martinho da Vila, Elza Soares, Clara Nunes, Beth Carvalho e Paulinho da Viola, para tentar ajudar o jogador.

Recusa em operar

Todo o esforço foi em vão. Jorginho se recusava a operar, por medo. Em 1976, em entrevista ao Jornal do Brasil, enquanto assistia a um jogo do Bangu, dizia:

- Há um ano, os médicos do Vasco diziam que eu só tinha um ano de vida. E estou aqui. Estou até me sentindo muito bem, mas operar eu não opero. Tenho medo.

Jorginho morreu em 13 de julho de 1977, aos 23 anos, em Ipanema, por complicações da leucemia.

Fonte: GloboEsporte.com

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