Kainandro quase desistiu de jogar futebol antes de jogar no Vasco

08/03/2019 às 08h26 - FUTEBOL

Era o vestiário do Vasco, mas poderia ser qualquer outro lugar. Para Kainandro, era um espaço só dele. Relacionado pela primeira vez para os profissionais do clube, ele foi flagrado num momento íntimo, acariciando a camisa com seu nome. Parecia não acreditar. Na verdade, estava acreditando e muito. E pensando apenas numa pessoa: Mariza Silva Santos, sua mãe.

- Minha mãe. Pensei no quanto ela é guerreira. Em todas as coisas que ela fez para que pudesse estar naquele momento. Todo o dinheiro de passagem que ela gastou para eu viajar, mesmo sem poder gastar. Eu só pensava nela – contou o zagueiro, em bate-papo com o GloboEsporte.com.

Kainandro também lembrou dos momentos difíceis pelos quais passou. Em outubro, antes de assinar com o Vasco, vivia um inferno astral: havia sido dispensado do Grêmio por problemas extracampo e estava em casa, no Espírito Santo, sem querer voltar ao futebol. E foi a mãe dele quem novamente fez a diferença.

- Quando saí do Grêmio, tinha na cabeça que não queria mais jogar futebol. Fiquei um mês parado e falei para a minha mãe que não queria mais jogar. Meu empresário ligou e falou do interesse do Vasco. Eu disse que não queria ir. Minha mãe me pegou no braço, sentou no sofá e perguntou o que eu queria da vida: “Se você quiser algo, você vai”. Eu comecei a chorar e vim. Nunca tinha tido uma conversa assim com ela – completou.

Kainandro chegou ao Vasco em outubro de 2018, a princípio para o sub-20. Mas, como não tinha mais como ser inscrito na Copinha, passou a treinar com os profissionais. Agradou a Alberto Valentim, que o levou para a pré-temporada e o manteve no elenco. Agora, com o início da temporada dos juniores, desceu para o sub-20.

A estreia nos profissionais veio contra o Americano, em São Januário, pelo Carioca. No mesmo dia em que acariciou a camisa, ele entrou em campo no segundo tempo para substituir Ricardo. O resto é história.

Confira a entrevista com Kainandro:

GloboEsporte.com: O que você sentiu quando foi chamado pelo Valentim?

Kainandro: Para mim foi uma emoção muito grande. Não esperava. Tinha outros atletas, o Miranda, que subiu. Eu não imaginava. Na hora que ele me chamou, falei: “Caramba, é o meu momento”. Eu já estava preparado, aquecendo forte. Falei para o Bruno Ritter que queria entrar. Quando ele me chamou, eu pensei: “é o meu momento”. Fui correndo. Quando entrei dentro de campo senti a emoção dos torcedores, olhei ao redor e vi aquele monte de gente. Caramba, está acontecendo realmente. Estou atuando como atleta profissional, não tenho palavras para descrever. Foi um momento muito importante.

Como é o seu relacionamento com o Valentim?

Bem simples. Ele é um cara muito simples. Ele fala, eu escuto e executo. Procuro aprender. É aquela coisa de técnico e atleta. Ele fala, eu escuto e executo. Simplesmente isso.

Você chegou e já treinou com os profissionais do Vasco. Já havia treinado assim no Grêmio?

Já tinha treinado no Grêmio. Quando falaram que eu ia para o profissional, pensei que era a minha chance. Tinha feito meta para mim para me dedicar ao máximo, fazer treinos no profissional e ficar por lá. Foi rápido.

E logo encontrou seu ídolo Castan.

Eu não esperava que ele estivesse treinando. Achei que estivesse machucado ou algo do tipo. Entrei no vestiário, vi que ele estava no cantinho. “Caraca, mano, olha o Castan ali”. Cheguei todo tímido, apertei a mão dele, falei que era fã dele. Perguntei: “Tem como tirar foto comigo depois do treino?” Na hora que terminou o treino comecei a chorar. Não aguentei.

E ganhou a chuteira dele.

Ele me deu uma chuteira. Acabei dando para o meu irmão. Entrei de férias no fim do ano. Meu irmão também joga bola e estava precisando. Falei: Essa chuteira é do Castan. É de coração, use bem”.

Você percebeu que estava sendo filmado naquele vídeo que viralizou?

Não sabia. Vi que tinha o câmera filmando os bastidores. Mas eu não sabia que ele estava me filmando no meu momento. Foi muito importante para mim, vi a camisa com meu nome. Pensei: “Caramba, está acontecendo. Pega essa oportunidade”. No dia seguinte rolou o vídeo.

Pensei muito profundamente nos momentos mais difíceis pelos quais eu passei para estar ali. Eu tinha que estar ali. Abri mão de muita coisa. Abri mão de vários velórios. Importantes, de pessoas que eu perdi e não pude estar presente. Eu sou merecedor. Tinha que estar ali naquele momento. Esse sonho não é só meu, mas de todos os que tentaram e não conseguiram. Todo mundo sabe como é ser atleta, não é nada fácil.

Familiares mesmo. Pessoas muito importantes. Tios, tias, que eu queria estar lá, mas não podia. Eu estava batalhando duro, estava longe, no Sul, era uma viagem muito longa. Tudo muito corrido. Eu sou do Espirito Santo.

O que aconteceu para você sair do Grêmio?

Problema extracampo. Acabei me metendo em coisas erradas, nas quais eu não deveria. Não é conduta de um atleta fazer o que eu estava fazendo. Acabou acontecendo o que aconteceu. Estou aqui hoje. A pagina virou. Automaticamente, quando vim para o profissional minha mente mudou totalmente. Hoje sou outra pessoa, vejo as coisas com outro jeito.

E para quem vai dar essa camisa?

Mãe! Vou dar para a mamãe. Senão ela vai ficar louca (risos).

O que você projeta para 2019?

Eu projeto primeiramente me manter no profissional. Ainda tenho idade para jogar no sub-20. Mas se acontecer de descer, está perfeito também. Tem campeonatos importantes. Minha meta é me manter no profissional. Jogar no Brasileiro, que é meu sonho. Ainda mais nesse gigante. Não tenho o que dizer do Vasco. O Vasco é imenso. Abriu muitas portas para mim. É inimaginável. Sou muito grato por estar aqui, realmente.

Fonte: GloboEsporte.com