Maracanã emociona Roberto Dinamite: ‘Mora no meu coração’

16/06/2020 às 08h21 - FUTEBOL

A história de Roberto Dinamite é intrinsecamente ligada ao Maracanã. Além das partidas disputadas, dos gols marcados e dos títulos conquistados no local, o ídolo do Vasco talvez não tivesse o famoso apelido se não fosse o estádio, que completa 70 anos da sua inauguração nesta terça-feira, 16 de junho. E o Esporte News Mundo conversou sobre esta história com o ex-jogador, que falou sobre sua relação com o estádio. Com apenas 17 anos, o atacante fez a sua estreia no Maior do Mundo com a camisa cruz-maltina contra o Internacional, pelo Campeonato Brasileiro de 1971, em 25 de novembro daquele ano.

Poucos dias antes, o então garoto, que já chamava a atenção como juvenil, foi apelidado de “Garoto-dinamite” pelo Jornal dos Sports, devido ao seus fortes chutes, observados nos treinos da equipe por um repórter do diário, que comentou sobre o jogador na redação. Foi quando Aparício Pires, editor-chefe do jornal, teve a ideia do nome. Mas foi após a partida contra o Inter que o apelido pegou. E a famosa rede “véu de noiva”, um dos símbolos do antigo Maracanã, teve participação nisso.

Roberto entrou na partida durante do segundo tempo. Em uma das primeiras bolas que recebeu, aos 27 minutos, o atacante passou por três adversário, cortou o quarto e, da entrada da grande área, finalizou forte no ângulo do goleiro do Inter. A bola estufou a rede, que fez o movimento marcante que por tantas vezes se repetiu nos gols de Roberto. No dia seguinte, o Jornal dos Sports estampou na capa: “Garoto-Dinamite explodiu”. Ali, com o seu primeiro gol como profissional, o apelido pegou de vez e se iniciou a história entre Roberto Dinamite e as redes do Maracanã. Um encontro que se repetiu outras 196 vezes com a camisa do Vasco. Mas não são só dos gols que Dinamite recorda ao falar sobre o estádio. 

– Estar ali, jogando no Maracanã, fazendo grandes jogos, grandes clássicos, conquistas e até derrotas, que fazem parte da vida de todo mundo. Lembro do gol contra o Botafogo, um dos gols mais bonitos do Maracanã, a volta da Espanha, marcando cinco gols no Corinthians, fora os campeonatos, as conquistas… E conviver com o Maracanã antigo, o novo. Tem muita história – disse Roberto Dinamite em entrevista do ENM.

Emoção ao entrar em campo

Para o ídolo vascaíno, é impossível falar sobre o Maracanã e não lembrar da torcida cruz-maltina no estádio. Dinamite recorda, principalmente, das entradas no gramado e ver os torcedores na arquibancada, além dos mais fanáticos que ficavam aguardando a saída dos times próximos as descidas que levavam ao túnel dos vestiários. Com alguns, Roberto fez até amizade.

– Teve torcedor que eu conheci em campo e que depois recebi em casa, veio me dar parabéns em aniversário. Essa relação que somente a arquibancada tem. Cada entrada em campo era algo que acontecia. Parecia a mesma coisa, mas era sempre uma coisa nova. O coração batia a 120 – comentou Roberto, antes de completar:

– Conheci uma menina na Geral. Eu ia descer ali no túnel pra ir pro vestiário. A vi uma, duas, três vezes e pensei “pô, essa menina sempre na Geral”. E aí, depois, um dia ela apareceu no Vasco, com um bolo pelo meu aniversário e falou que era aquela menina da Geral. Acho que fizeram até uma matéria com ela. Ela foi, levou bolo. Foi na minha casa, aniversário dos meus filhos. Essa coisa da emoção do Maracanã mexe com a gente, toca na gente. Quando a gente entrava em campo o coração ia a mil quando via a torcida. Quando rolava a bola, voltava ao normal. Me sentia em casa. Era algo muito especial. 

Amizades no Maraca

Além das amizades com torcedores, outra recordação que Roberto tem do Maracanã são os jogadores que conheceu nos gramados e nos corredores do estádio. Mesmo dos times rivais, como Zico. 

– Fiz grandes amigos e grandes adversários no Maracanã. O próprio Zico. Crescemos juntos nas categorias de base, jogamos muitas vezes contra e somos grandes amigos. Hoje tem todo um outro ritual. Eu lembro que naquela época, muitas vezes quando a gente chegava nem ia para o vestiário. Ia para aquela área, que chamava Setor 2, naquelas cadeiras azuis. Ficava vendo a preliminar e depois a gente descia. E iam alguns jogadores dos dois times, ficavam lá. Era uma relação diferente. Mas dentro do campo, ninguém dava mole – recorda Roberto.

Além dos confrontos marcantes entre o Vasco de Dinamite e Flamengo de Zico ao longo das décadas de 70 e 80, o Galinho também está presente na capítulo final de Roberto Dinamite como jogador. E a despedida dos gramados, é claro, não poderia ter um palco diferente que não fosse o próprio Maracanã. O estádio recebeu, em 1993, o amistoso entre Vasco e La Coruña, da Espanha, partida que, além de marcar a aposentadoria de Roberto, também ficou marcada por ter sido o dia em que Zico vestiu a camisa do Vasco para participar do evento em homenagem ao amigo.

– A despedida foi para fechar direitinho. Com o Zico participando. Tanto o torcedor do Flamengo como do Vasco não tinha dúvida de que a gente tava em campo defendendo nossos clubes. É um exemplo que você pode ser amigo dentro do futebol. Mas dentro do campo você tem que buscar o seu, brigar, até no cara e coroa, no lado do campo – disse Dinamite, antes de completar sobre como o Maracanã foi importante para formar esta relação: 

– Quando jogava juvenil, com 15 anos, geralmente minha mãe tava lá. Aquela época tinha isso, os pais iam ver os jogos, acompanhavam. Até mesmo essa coisa com o Zico, os pais dele também iam ver os jogos. Aconteceu muitas vezes de, depois da preliminar, a gente se encontrar. Era muito legal esse lado familiar, que sempre foi muito forte. 

Foram mais de 20 anos atuando no Maracanã, seja com a camisa do Vasco ou da Seleção Brasileira, o que valeu para Roberto Dinamite um espaço na calçada da fama do estádio. E o “garoto-dinamite” se emociona ao lembrar de tudo o que viveu no Maraca.

– Todos os jogos foram importantes, os campeonatos que o Vasco ganhou, o Brasileiro de 74, Guanabara em 76, Carioca de 77… Perdemos em 81… Um Carioca que tínhamos que ganhar três vezes do Flamengo. Ganhamos duas e depois teve o terceiro jogo. Depois ganhamos em 82. Teve 87 também. Tivemos momentos difíceis, ruins, como na vida. Mas foi muito legal. Era uma extensão de São Januário, fazíamos ali os grandes clássicos, grandes jogos. Só tenho boas lembranças mesmo. É o estádio que todo jogador gostaria de jogar. Não só do Brasil, mas do mundo. Realizei por isso por muitos anos. Sou muito grato por tudo. Mora no meu coração, pode ter certeza.

Fonte: Esporte News Mundo