Motivação política, treinos secretos... Passagem de Ernesto do Santos em 46

14/10/2020 às 13h12 - FUTEBOL

Ricardo Sá Pinto será o segundo treinador português na história do Vasco. Há muitos anos, em 1946, Ernesto do Santos seria o escolhido pela direção. Os tempos eram outros, a qualidade da equipe também - tratava-se ainda do Expresso da Vitória, um dos times mais vitoriosos do futebol carioca - e a sucessão era bem mais difícil: saía de São Januário o lendário treinador uruguaio Ondino Vieira.

Essa história curiosa foi revelada em reportagem do ge em 2013. Num futebol que deixava de ser amador somente há 13 anos -, a diretoria do Vasco decidiu colocar nos principais jornais da imprensa carioca e paulista um anúncio de três colunas e 15 cm de altura, no dia 6 de julho de 1946, para convocar "técnicos de futebol com serviços prestados em clubes das federações paulista e carioca".

Foram cinco dias de concurso com inscrições abertas até chegar ao ex-zagueiro português Ernesto dos Santos, que se tornou professor catedrático da UFRJ e da UERJ, mas não conquistou bons resultados. O Expresso amargou a quinta colocação do Carioca daquele ano. No início de outubro de 1946, ele pedia demissão e abria caminho para Flavio Costa.

Na ocasião, o Vasco pediu aos interessados para levarem seus currículos no Departamento Técnico do Vasco "munidos de provas de suas habilitações e de documentos de sua idoneidade moral e profissional" até as 18h do dia 10 de julho. Ao contrário dos dias atuais, o Vasco passava longe de uma crise financeira. Vestiam a camisa do Vasco Barbosa, o "Príncipe" Danilo, Jorge, Chico, Jair Rosa Pinto, entre outros grandes jogadores.

Mas a estrela principal daquele escrete estava de saída. Ademir Menezes, o camisa 9, o Queixada, enfrentava problemas para renovar com o Vasco e se transferia para o Fluminense. À época, a frase do treinador tricolor soou como uma profecia: "Deem-me Ademir, que lhes darei o título", dizia Gentil Cardoso. E o Tricolor foi o campeão carioca daquele ano.

No dia 8 de julho de 1946, o Jornal do Brasil noticiava que Adhemar Pimenta, técnico da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938 na França, pedia para a Confederação Brasileira de Desporto (atual CBF) uma espécie de atestado de eficiência técnica para impressionar o corpo vascaíno que escolheria o novo comandante do time. Além dele, os veículos da época consultados para esta reportagem (O Globo, Jornal do Brasil, Globo Sportivo, A Noite e A Manhã) registravam a procura de outros importantes nomes do futebol brasileiro.

Um dos mais respeitados pesquisadores vascaínos, Mauro Prais conta que Ondino Vieira, o técnico uruguaio que estava de saída do Vasco, coordenou toda sua sucessão. Ele entrevistou todos candidatos antes da diretoria escolher pela opção considerada mais apropriada para treinar o time.

- Numa série sobre técnicos da história do Vasco no Jornal dos Sports nos anos 1970 o jornalista Max Morier fala em "filas" para treinar o Vasco, mas me parece muito mais um exagero ou uma licença poética usada no texto. Apareceram em São Januário no último dia do concurso seis nomes: Del Debbio (ex-jogador do Corinthians, que dirigiu o São Paulo), Joreca (também oriundo do futebol paulista, mas que serviu a seleção brasileira em 1944, junto com Flavio Costa), Abel Picabea (ex-São Cristóvão e Santos), Zezé Moreira (irmão do Aymoré Moreira, campeão do mundo em 1962 pelo Brasil), Humel Guimarães (que treinou o Sport-PE) e Adhemar Pimenta. Foram todos devidamente entrevistados, com a participação do Ondino Vieira, que estava de saída, mas coordenou toda a sua sucessão - lembrou o engenheiro Prais, que mora nos EUA desde os anos 1990.

Motivação política

A razão de a diretoria vascaína ter colocado em anúncio de jornal a busca por um novo treinador é controversa. Para historiadores e pesquisadores da história vascaína, a adoção da prática era como uma jogada de marketing, um jogo de efeito para uma substituição quase que insubstituível de Ondino, que, para muitos, trouxe o esquema 4-2-4 para o futebol brasileiro.

O Expresso começou a nascer em 1942 com o uruguaio, que montou a máquina de jogar futebol ganhadora de 11 títulos em 10 anos, sendo cinco Cariocas - três deles invictos - e o campeonato Sul-Americano de Clubes de 1948 - título reconhecido no fim da década de 1990 como a primeira Libertadores pela Conmebol. Para outros especialistas, as eleições em São Januário já influenciavam nas decisões do futebol. Jaime Guedes cederia a presidência vascaína de volta a Cyro Aranha, presidente do início do Expresso em 1942 e autor da frase inscrita nos muros do clube: "Enquanto houver um coração infantil, o Vasco será imortal".

- Acredito que alguma questão política influenciava o futebol do clube naquela época. Tinha eleição próxima e os bastidores do clube estavam movimentados. Era como uma jogada política - disse Alexandre Mesquita, um dos autores do livro "Um Expresso Chamado Vitória".

A contratação de outro Ernesto, o dos Santos, era um sonho antigo do Vasco. O professor português formara nas primeiras turmas de educação física importantes nomes de treinadores do futebol brasileiro. Entre eles, Flavio Costa, com quem trabalhou no Flamengo e o sucederia no Vasco.

Ernesto era chefe do departamento técnico do rubro-negro. Em 1944, o jornal A Noite já avisava que Vasco e Madureira estavam atrás do profissional do Flamengo. Segundo a publicação da época, Ernesto não confirmava as propostas "por motivo de correção e modéstia". Ernesto dos Santos seria ainda observador técnico da CBD na década de 1960. Dois anos antes de o Vasco o contratar por meio do concurso anunciado em periódicos da cidade, ele recebia "vencimentos mensais ótimos", dizia a reportagem do A Noite.

Treinos secretos

Na proposta do Vasco, o contrato previa as seguintes remunerações. O clube pagaria Cr$ 45 mil de luvas, salário mensal de Cr$ 3 mil, prêmio de Cr$ 20 mil e prêmios por vitórias ou empates iguais aos dos jogadores do time. Ainda sem Ernesto, o Vasco estreou com boa vitória frente ao Botafogo, em General Severiano, por 3 a 0, mas depois perdeu duas consecutivas, nos primeiros jogos do novo treinador. O time de Ernesto dos Santos, adepto de treinos secretos, como noticiava a imprensa da época, levou seis gols do Bangu, em São Januário, e marcou só dois, na estreia do técnico.

A história vascaína do concurso, que começou como sensação e chegou a ser considerada como farsa pela coluna "Língua de Sogra" do A Manhã - que dizia ser uma "marmelada" a escolha de Ernesto, porque Ondino Vieira ficaria de supervisor do clube e ainda teria poder de decisão no time -, terminaria mal sucedida para o vencedor. Ernesto dos Santos, que ganhava destaque na imprensa pela primeira colocação na turma da Escola Nacional de Educação Física que tinha o próprio Ondino Vieira e Flavio Costa, teve pouquíssimo tempo para provar seu valor.

- Não levo planos. Procurarei seguir a orientação deixada por Ondino Vieira. Orientação cuja eficiência é bastante conhecida e que não comporta mesmo qualquer tentativa de modificação. Assim procurarei apenas fazer na direção técnica do Vasco o que Ondino faria, se me for permitida essa pretensão - dizia ao Globo Sportivo Ernesto, em 19 de julho de 1946.

O texto do anúncio

"Club de Regatas Vasco da Gama

Aviso

O Departamento de Futebol Profissional do Club de Regatas Vasco da Gama convida os técnicos de futebol com serviços prestados em clubes das federações paulista e carioca, que desejarem se candidatar a ocupar o lugar de técnico de futebol do referido clube, a se apresentarem até o dia 10 do corrente, às 18 horas, no Departamento Técnico, no estádio de São Januário, munidos de provas de suas habilitações e de documentos de sua idoneidade moral e profissional, mediante contrato nas seguintes bases:

a) prazo do contrato: 15 de julho de 1946 a 31 de dezembro de 1947;

b) luvas de Cr$ 45.000,00;

c) ordenado de Cr$ 3.000,00;

d) prêmios por vitórias ou empates iguais aos estabelecidos para os jogadores, nas divisões principal, imediata e aspirantes;

e) prêmio de Cr$ 20.000,00 pela conquista do Campeonato da Divisão Principal.

O Club de Regatas Vasco da Gama se reserva o direito, não só de não aproveitar qualquer dos pretendentes, mas ainda o de escolher livremente entre os candidatos aquele que, a seu exclusivo juízo, for considerado o mais indicado."

Fonte: ge