Nenê sobre o Vasco: 'É um clube que tenho um carinho muito grande'

22/11/2018 às 08h15 - FUTEBOL

Nenê jogará pela primeira vez em São Januário como rival do Vasco desde a transferência do clube ao São Paulo, no começo do ano. O reencontro é nesta quinta-feira, às 20h, pela 36ª rodada do Brasileirão.

A história de três anos no Cruz-Maltino criou uma ligação entre Nenê e o clube da Colina, por meio do qual retornou ao Brasil após 12 anos no exterior. De torcedores e funcionários do Vasco chegam pedidos para o camisa 10 "aliviar" no reencontro, pois o adversário do Tricolor briga para não ser rebaixado. O Vasco tem 39 pontos, dois acima do América-MG, primeiro time dentro do Z-4.

A situação do Vasco entriste Nenê, mas seu objetivo é colocar o São Paulo no G-4 e garantir uma vaga direta na Libertadores de 2019. O meia promete não comemorar um eventual gol diante do ex-clube, mas quer a vitória do Tricolor.

Novamente titular do São Paulo sob o comando de André Jardine, Nenê continua triste por ter seu nome associado à saída de Diego Aguirre. O meia reconhece ter dado uma "brecha", ao sair rapidamente do Morumbi depois do empate por 2 a 2 com o Flamengo. Mas mostra gratidão ao ex-técnico e diz não ter culpa nenhuma pela demissão, o que é corroborado pelo executivo de futebol Raí.

Nesta entrevista exclusiva, Nenê também dá sua versão sobre o "biquinho" citado por Lugano, explica qual é o sentimento por perder o título do Brasileirão após liderar parte do campeonato e diz como é ser treinado por um técnico dois anos mais velho (Jardine tem 39 e Nenê 37).

GloboEsporte.com: O que está esperando nessa volta para São Januário com outra camisa? Nenê: – É uma partida realmente especial. Um clube que tenho um carinho muito grande. Espero que eu seja bem recebido, mas com certeza eles vão estar focados no time deles, e eu no meu time, o São Paulo. Mas sempre com um respeito muito grande, até porque passei momentos muito bons lá e tenho recebido até hoje esse carinho da torcida do Vasco. É algo que realmente me deixa bem contente.

(nota da redação: Nenê jogou de 2015 até o começo de 2018 no Vasco, pelo qual fez 42 gols em 129 jogos)

Você recebe carinho e também uns pedidos para dar uma aliviada. É de gente do Vasco ou da torcida?
– As duas coisas (risos). Não jogador, né, mas relacionado ao clube. Mas é pela amizade que temos e construímos. Somos rivais apenas dentro do campo. É muito importante procurar manter o respeito. Tenho amizade com o pessoal de lá ainda. Sempre ouve essas coisas assim, ainda mais nesse momento que o Vasco está passando. Fico triste por isso. Mas realmente tenho de dar meu melhor pelo São Paulo. Vamos em busca de um grande resultado.

O que você responde? Fala: "Gente, estou sem fazer gol desde o jogo com o Paraná (no dia 22 de agosto). Preciso meter gol". Cada um com seus problemas (risos)...
– Isso que é fogo, né, cara, mas não tenho problema em relação a isso. Minha função é dar passe e assistência. Mas se acontecer realmente eu não vou comemorar. Já tinha falado sobre isso antes. Então sempre com respeito muito grande. Vai ser uma coisa bem estranha assim, pelo momento que eles estão vivendo. Mas com certeza vai ser com muito respeito.

Nenê era a principal estrela e capitão do Vasco e agora ouve pedidos para "aliviar" nesta quinta-feira — Foto: Paulo Fernandes/Vasco

O seu ano no São Paulo começa com Dorival, com menos chances. Depois você vira o pricnipal jogador com Aguirre. Aí passa a jogar menos. Agora volta a ser titular. O futebol muda muito. Aos 37 anos você ainda se surpreende com esse tipo de temporada?
– Ainda me surpreendo (risos). Você fala: "Pô, tem uma experiência grande". Mas no futebol sempre acontecem coisas que podem mudar tão drasticamente e rapidamente. Mas estou bem tranquilo em relação a isso. Foi um ano muito positivo, a maior parte do ano. Esses jogos que estava fora, três ou quatro, foi muito pouco tempo. É uma pequena parte, uma coisa que acontece. Faz parte. Claro que não gosto de ficar fora. Mas sempre com muito respeito, sim.

– Então, voltei a jogar, estou muito feliz em relação ao último jogo. Voltei a ter um ritmo bem melhor do que estava acostumado. Contra o Grêmio foi um pouco essa transição. Contra o Cruzeiro estava bem à vontade e leve para fazer o que estou acostumado. Agora é focar em terminar bem, estar entre os quatro para ir direto para a Libertadores. Vamos em busca de nove pontos nesses últimos três jogos.

Para a mídia e a torcida, de uma forma geral, se o cara joga bem é endeusado e se fica fora três jogos não presta mais. Como você lida com isso para manter seu nível?
– Sei que o torcedor é muito apaixonado e vive muito o momento. Lido muito bem com isso, críticas construtivas e tudo. Algumas coisas que não acho correto eu fico chateado, como aconteceu de que foi colocado em relação a uma coisa que não era. Aí eu acabo me chateando, mas de resto...

É o tal do biquinho?
– Não, do biquinho, não. Não é isso, não. Essa coisa do biquinho o Lugano... Temos uma intimidade grande. Ele falou de uma maneira que a gente já tem essa intimidade. Ele falou como fala para mim. No mesmo dia tinha falado para mim e ficamos brincando: "Pô, vim com o pacote completo". E acabou depois dando a repercussão que deu. Mas não é em relação a isso, não. Isso faz parte. Sou um cara muito competitivo e acho que, se eu não ultrapassar essa coisa que acaba sendo desrepeito ao companheiro, quanto a isso tudo bem, normal.

Lugano, Nenê e Raí no São Paulo: meia jogou com ex-zagueiro no PSG, da França, onde Raí também atuou — Foto: Érico Leonan / saopaulofc.net

O estranho é ficar sorrindo no banco...
– Estranho é ficar sorrindo, né. Qualquer um que fica... Até moleque que está começando agora. Quer jogar e não entrou no jogo. É uma coisa normal. Não sei porque deu uma repercussão tão grande. Acontece com qualquer jogador, mas (risos) comigo como já teve outros casos em relação a isso... Como é uma coisa que não é tão normal, aí você fala: "Por que saiu, por que isso ou aquilo?". Aí parece que tem um problema. Mas, pô, o que aconteceu? Ué, simplesmente aconteceu uma mudança, o treinador está tentando de tudo para o time voltar a ganhar. Às vezes, a gente não entende, a imprensa não entende, a torcida não entende. E é uma coisa muito mais simples do que é. Aí acaba virando uma coisa, daqui a pouco falam de outro, de outro e vira uma bola de neve de uma coisa que nem é a realidade.

Nenê, sobre saída de Diego Aguirre: "Fiquei e ainda estou chateado pela situação. Não tenho culpa nenhuma" — Foto: Marcelo Hazan

Parece que junta aquela coisa do torcedor especialista em futebol sem nunca ter ido a um vestiário. Como por exemplo quando um jogador xinga outro no treino, algo comum, e a mídia precisa vender jornal, mas para você...
– Exatamente. Essa que é infelizmente a realidade. Polêmica vende mais do que algo que o cara... Na minha opinião quando o cara faz algo bem feito não dá tanta venda quanto uma polêmica. É uma coisa normal. Não sei o motivo, mas acontece.

Mas você não acha que a sua atitude de sair do Morumbi da forma como foi depois do jogo contra o Flamengo desencadeou tudo isso?
– Eu acho que eu dei brecha, né. Posso ter dado uma brecha. Mas acho que foi muito mais do que a realidade. Aconteceu tudo muito rápido em uma semana. Fiquei chateado pela situação e ainda estou chateado pela situação. Eu não tenho culpa nenhuma. Ele (Aguirre) teve um grande mérito, estamos na Libertadores hoje por causa disso. Sou muito grato a ele. Desde quando ele chegou sempre me deu muita confiança. E ele sabe que eu sou assim mesmo. Não é uma coisa com ele.

– Qualquer um pode perguntar para ele ou para qualquer pessoa daqui. Sempre fui muito sincero e claro quanto a tudo. Tanto é que falei disso abertamente. Não precisava ficar falando. Expliquei a minha visão. Ele sabe que sou um cara que quero estar ali e se não estou dentro do campo parece que não estou ajudando. Então é simplesmente isso, por eu querer estar ali para ajudar. Não tem nada em relação à pessoa em si. Foi um momento em que ele precisava mudar. Ele mesmo disse que precisava fazer alguma coisa. Acabou colocando o time de uma maneira um pouco mais defensiva, buscando o contra-ataque. É uma coisa simples e a gente às vezes fica pensando o que será que é. Pode ser na cabeça dele que tenha sido isso. É o que eu penso. Começam a especular, mas não tem nada disso.

Você foi substituído em três partidas (Botafogo, Palmeiras e Internacional) e depois perdeu lugar na equipe (reserva contra Atlético-PR, Vitória, Flamengo e Corinthians). Foi justo? E agora mostrou que faz por merecer voltar ao time? (contra Grêmio e Cruzeiro foi titular sob o comando de Jardine, após a demissão de Aguirre).
– Não sei se é justo ou não. Foi a maneira que ele precisava jogar com o time. O time todo caiu de rendimento. Não foi eu. Eu não tocava muito na bola, então consequentemente não jogava bem. Mas a bola não chegava. Dava um chute no gol ou dois durante 90 minutos. Não é que eu estava mal, estava errando ou perdendo pênalti. Eu caí quando todo mundo caiu. Acho que não foi uma coisa individual. Foi coletivo. Normal. Os times começaram a marcar melhor. Estávamos na liderança, então todos os times vinham de uma maneira diferente. Acabou caindo o meu rendimento e o de todos.

Qual é o sentimento depois de liderar o campeonato, criar o sonho do título, vê-lo escapar por entre os dedos e agora brigar forte pelo G-4?
– É frustrante, né. Tanto é que o negócio da minha saída do estádio também foi um pouco em relação a isso. Estávamos ganhando do Flamengo. A gente podia estar um pouco mais perto. A gente ganha do Flamengo e depois ganha do Grêmio. Estaríamos a quantos pontos do Palmeiras? Ainda teria chance de título. Então como pode as coisas mudarem tão rápido? Foi também em relação a isso. A gente tinha uma chance e o time estava bem. Acho que isso mostra um pouco do meu sentimento, de frustração, porque a gente tinha essa chance.

– Ainda mais porque é o primeiro ano de trabalho no clube. É um time novo. A gente vê os times aí: Palmeiras, Flamengo... Há quantos anos estão investindo muito alto? O São Paulo criou um grupo esse ano. Então foi uma coisa além do esperado. Acho que o próprio clube e toda a comissão... O objetivo era onde estamos hoje: na Libertadores. Consequentemente com esse rendimento é normal a torcida e nós estarmos frustrados.

– Mas não deixa de ser um ano muito bom. Mas isso realmente atrapalhou um pouco. Pô, não é possível, né (risos). O nosso ambiente, a alegria que tinha meio que perdeu um pouco por causa disso também. Nós víamos uma coisa que tínhamos chances reais de conquistar e acabou não acontecendo. Mas não podemos desistir. Futebol é assim. É pegar o lado positivo disso. Vai ser um ano muito bom, porque vamos conquistar o objetivo que foi colocado em janeiro. Muita gente não esperava. Falavam: "Ah, vai brigar para não cair, não sei o que lá". Então temos de tirar a lição do que nós erramos. Acontece. Mudou muita coisa. Perdemos jogadores. Não teve aquele entrosamento. Não tinha tempo para isso. Estava numa fase em que não podíamos perder pontos. Com isso que a gente possa aprender para quando acontecer saber exatamente como vamos reagir em relação a essa dificuldade para tentar conquistar o título no ano que vem.

Você tem 37 anos, e o Jardine, 39 anos. Como é ser treinado por alguém dois anos mais velho? Praticamente você fala de igual para igual...
– Caraca, não sabia que ele tinha só dois anos a mais. Não sabia, não. Rapaz, que coisa. Fiquei até pensando nisso outro dia. A gente fica brincando. Os moleques falam que eu tenho mais de 40 anos. No jogo contra o Grêmio perguntei para um moleque que fez uma falta: "Quantos anos você tem, moleque?" Brincando, né. Ele disse 20. Eu falei: "Nossa, sou 17 anos mais velho do que você. Como é que pode isso?" Ele respondeu: "É, coisas do futebol". É inacreditável.

– Estava falando sobre o (técnico Vagner) Mancini outro dia. Joguei com o Mancini. Estava começando. Fiz a mesma brincadeira. Ele tinha dez anos a mais do que eu. Falei: "Nossa, Mancini, você é velho, hein". Parece que foi ontem, cara. Futebol... Mas fico feliz de estar com 37 e podendo jogar bem, em alto nível. Espero que dure mais uns aninhos.

Mas ter um técnico tão novo... Tinha acontecido?
– A pergunta mesmo eu não respondi (risos). Nunca. É muito estranho isso. Eu vejo como... Penso como se ele tivesse muito mais tempo de trabalho. Ele teve muitos anos de experiência nas categorias de base. Estuda para caramba. Entende muito do futebol, de sistema. Gosta muito dos times europeus. Mostra vídeos de como ele gostaria que os times dele jogassem. É um cara que estuda bastante. Espero que ele tenha uma trajetória maravilhosa no nosso clube.

Foto: Reprodução: Twitter Nenê e seus filhos
Nenê e seus filhos

Fonte: GloboEsporte.com

Especulação

Não vem

Você aprova a contratação de Ricardo Rocha (Dirigente)?

Especulações Mercado