Ulisses fala sobre dispensa do Vasco e revela problemas com drogas

18/01/2009 às 13h14 - CLUBE

O porta-retrato trincado em cima da mesa da casa simples de Verônica, no Rocha, em São Gonçalo, é emblemático. Nele, o vidro quebrado se sobrepõe à foto do seu filho Ulisses nos tempos em que ele era uma promessa do Fluminense. Cria de Xerém, o lateral-esquerdo já dividiu o gramado com nomes como Toró, Arouca, Marcelo e Carlos Alberto. Mas enquanto os ex-companheiros têm estabilidade em clubes do porte de Flamengo, São Paulo, Real Madrid e Vasco, Ulisses vive dias de ostracismo. Mandado embora de São Januário por faltar aos primeiros treinos da temporada, o lateral de 22 anos revelou ao JB os caminhos que o desviaram do sucesso.

Na casa humilde de sua avó Maria, na periferia de Macaé, onde se isolou para esfriar a cabeça, o jogador fez confissões comoventes. Admitiu que usou cocaína na época em que subiu para o time principal do Fluminense, alegou que se deixou levar pelos falsos amigos do futebol e explicou também por que está respondendo na Justiça por tentativa de assassinato. Uma trajetória que contrasta com sua voz doce e com os esforços para ser um bom pai de Kauã, seu filho de um ano e seis meses. Ulisses reconhece que está no fundo do poço. Mas o desespero não lhe tira a esperança de que a vida apresente uma segunda chance.

A história de Ulisses poderia ser a de qualquer garoto talentoso que surge nas periferias do país do futebol. Sem estrutura psicológica ou base familiar, o universo de salários altos e assédio constante são um convite aos excessos. ­

- Usei cocaína por três meses, na época em que subi para o profissional do Fluminense e na minha passagem pelo Juventude. Acabei me deixando levar pelas más companhias e me arrependo muito. Mas depois disso nunca mais usei, estou limpo há mais de um ano - garante o jogador, que diz lutar diariamente contra as recaídas.

Ulisses ingressou no futebol tentando fazer jus ao nome que ganhou da mãe por ser \"de gente importante\" ­ como o político Ulisses Guimarães ou o Rei da Odisséia de Homero. A bola entrou cedo em sua vida. Seu pai, Mauro, foi volante do Olaria na década de 80. Mas a afinidade termina aí: Ulisses nunca perdoou o comportamento violento de Mauro. ­

- Meu pai sempre batia na minha mãe e eu não podia fazer nada. Aquilo me deixava com o coração partido, me sentia muito sozinho. Ele sempre foi distante, não compareceu quando devia ­ conta o jogador, com os olhos marejados, um indício de que guarda marcas bem mais profundas do que a cicatriz que tem debaixo do olho esquerdo, fruto de um acidente sofrido quando tinha cinco anos.

Com o pai ausente e sem saber como pedir ajuda, Ulisses conta que encontrou no futebol um refúgio para suas angústias. Fazia de tudo para não perder os treinos em Xerém, onde chegou com 14 anos. Pedia dinheiro emprestado para pagar a passagem de ônibus, pulava a roleta, enganava o trocador. Valia tudo para ficar longe de casa. Em pouco tempo, começou a morar na concentração, tornando-se um dos xodós dos comandantes da base tricolor. ­

- Eu posso dizer que ele me deu o Brasileiro de juniores em 2003. Ele pegava a bola na lateral e ia até a linha de fundo com perfeição. Ele é fantástico ­- elogia o técnico Tornardo, hoje no juvenil do Vasco, e responsável pela transferência de Ulisses para São Januário.

- Sou fã dele. Em 18 anos de trabalho na base, foi o jogador que mais me impressionou.

Como se o sucesso já estivesse garantido, o menino tímido e arredio mergulhou nas drogas.

Com álcool e cocaína após os treinos, os sinais do declínio foram imediatos. Começou a chegar atrasado a Xerém, perdeu viagens porque havia bebido ou cheirado demais. Dentro de campo, as jogadas eram cada vez menos empolgantes, decepcionando os que previam um futuro de glórias. ­

- Ele não é bom, é excelente. Mas é muito quieto e precisa da ajuda de um psicólogo e do apoio da família ­- analisa o lateral Amarildo, hoje no Madureira, que jogou com Ulisses no Fluminense dos 15 aos 20 anos.

- As amizades influenciam muito. Se a gente não tiver a cabeça boa, vai para o buraco.

Sem espaço no time principal tricolor, Ulisses foi emprestado no início de 2007 para o Juventude, junto com Radamés e Juliano. Começou a dar sinais de recuperação no estadual gaúcho, mas colocou tudo a perder em uma noitada.

- Levei uma mulher para a concentração e o segurança do clube me dedurou,­ contou o jogador, que teve seu contrato rescindido com o clube de Caxias do Sul e voltou para o Fluminense, onde não teve mais chances.

Foi nessa época que o ex-lateral Eduardo, com passagens por Fluminense, Vasco e Botafogo, percebeu que o garoto se afundava cada vez mais num caminho sem volta. Para Eduardo, olhar para Ulisses era como encarar um espelho, já que sua carreira também foi atrapalhada pelo álcool. Ao ouvir a confissão do ex-jogador, Ulisses parece ter acordado. Parou de usar cocaína e tentou recomeçar a vida no Kasimpasa, da segunda divisão da Turquia. A aventura no exterior durou pouco. Voltou ao Brasil e foi levado pelo ex-jogador Ricardo Rocha para o CRB-AL. Ulisses achou que o salário era baixo e preferiu voltar.

Se 2007 foi difícil para o lateral, o ano seguinte foi pior ainda. Apesar de ter contrato com o Fluminense até dezembro, Ulisses desapareceu das Laranjeiras. O então coordenador de futebol Branco chegou a pedir ajuda para localizar o lateral, que passou o ano sem disputar uma partida oficial. ­

- Eu ficava em casa, meio perdido, sem saber o que fazer ­- conta Ulisses.

Na véspera do Natal, veio o capítulo mais tenso da história de Ulisses. Entre as muitas idas e vindas com a mulher Kênia, o jogador ficou sabendo que um vizinho a assediava. Depois de uma longa discussão com a mulher, que terminou em agressão física, o jogador saiu de casa desgovernado e voltou com uma arma na mão. Chamou o vizinho, pivô da briga do casal, e puxou o gatilho. O tiro acertou a mão do rival. Hoje, o lateral responde na Justiça por tentativa de assassinato.

Quando tudo parecia perdido, Ulisses ganhou uma chance de ouro. Avalizado por Tornado, um dos seus primeiros técnicos da base, foi contratado pelo Vasco para um período de testes na pré-temporada, em Vila Velha. Faltou aos primeiros treinos antes mesmo da viagem e colocou tudo a perder. ­

- Ele precisa de uma nova oportunidade. Ele errou, mas não foi o primeiro e nem será o último. Ele é jovem e tem o futuro pela frente, só precisa de ajuda ­- implora a mãe Verônica, aos prantos, sem saber mais o que fazer para corrigir o caminho do filho.

Isolado em Macaé, Ulisses corre na praia e usa uma academia de ginástica da cidade para manter a forma. Consciente de que fechou várias portas em sua carreira, ele ainda acha que há esperança. ­

- Sei que não será fácil alguém confiar em mim de novo. Mas amo jogar futebol, sou jovem e estou disposto a fazer qualquer sacrifício.

ENTREVISTA

Você estava há mais de um ano sem jogar e o Vasco te deu uma chance. Por que você faltou aos treinos?

­No dia da apresentação, saí às 6h30 de casa, mas peguei um engarrafamento enorme e me atrasei. No dia seguinte, achei que o treino era à tarde. Tentaram me avisar, mas meu celular estava desligado. Depois, li num jornal que eu tinha chegado atrasado. Achei que seria dispensado por isso não fui treinar.

Você está sendo processado por tentativa de homicídio. O que aconteceu?
­Atirei no meu vizinho porque ele estava dando em cima da minha mulher. Eu me arrependo muito do que fiz. Fiquei com ciúme e perdi a cabeça.

Quem te emprestou a arma? Você teve contato com o tráfico de drogas?

­Foi um amigo meu que me emprestou. Muitas pessoas erradas passaram pela minha vida, mas esta não é a minha.

Como passou a usar cocaína?
­Usei na época do Fluminense. A cabeça foi fraca e o corpo padeceu. Nunca fui chegado, mas experimentei. Isso só me deu derrota.

Não lhe ofereceram ajuda nessa época?
­Ofereceram, mas eu dizia que não precisava. Hoje, gostaria de ter essa ajuda, cada vez mais as portas estão se fechando, como aconteceu no Vasco. O Vasco não precisa de mim. Sou eu que preciso do Vasco.

O Marcelo é mais novo do que você, não tinha tanta badalação em Xerém e hoje brilha no Real Madrid. Como era a sua relação com ele?

­Ele era meu parceiro, não tinha essa coisa de rivalidade.

Você acha que era melhor do que ele?
­Acho que era (risos). Se eu não achar, quem é que vai achar? Mas hoje a gente está em lados opostos.

Você está arrependido de tudo o que fez?
­Estou. Hoje poderia ter uma vida muito melhor, muito mais tranqüila, se não tivesse errado tanto e ido muitas vezes pela cabeça dos outros. Mas agora vai ser diferente. Apesar de tudo o que aconteceu, posso dizer que hoje estou muito mais centrado. Espero que me dêem mais uma chance.

Fonte: Jornal do Brasil / netvasco

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