Vasco e Fluminense se enfrentam em momentos distintos em 2020

14/03/2020 às 08h00 - CLUBE

Vasco e Fluminense vivem situações semelhantes fora de campo, mas que refletem de formas diferentes no futebol. Com dificuldades financeiras, os rivais cariocas, que se enfrentam neste domingo, às 18h (de Brasília), no Maracanã, têm dificuldades para manter as contas em dia e atrasam salários. A diferença na maneira de investir no futebol, no entanto, salta os olhos.

Enquanto o Fluminense manteve a maioria de seus titulares e conseguiu encorpar seu elenco com jogadores experientes, mesclando com uma garotada promissora, o Vasco foi apagado no mercado. Assim como o rival, apostou na garotada, mas pouco contratou e ainda perdeu parte da base do time do ano passado, que terminou o Brasileiro sem sustos.

Vasco: um mês (fevereiro vence dia 20, em acordo com o elenco), uma parcela do 13º e férias em atraso e só duas contratações

Expectativa X Realidade

O Vasco terminou o ano com expectativa de novas receitas e maior investimento no futebol. Afinal, em campanha de sucesso, atingiu 185 mil associados e se tornou o clube brasileiro com o maior número de sócio-torcedores. A realidade, no entanto, é bem diferente da expectativa.

O investimento no futebol foi pequeno. Muitos jogadores saíram, e o clube trouxe apenas dois reforços. O argentino Germán Cano foi o primeiro a chegar, enquanto o seu compatriota Martín Benítez estreou na última quinta-feira, contra o Goiás. Após arrastada negociação, Guarín teve o contrato renovado por dois anos.

E o dinheiro do sócio-torcedor?

No fim do ano, o Vasco priorizou o pagamento de dívidas para evitar futuras penhoras. Negociou com credores, conseguiu abatimentos e pagou R$ 32 milhões, em operação que incluiu acordo com Romario e parcelas atrasadas do Profut. Foi uma opção.

O dinheiro arrecadado com o aumento do sócio-torcedor, cerca de R$ 20 milhões, também evaporou rapidamente. Ele foi gasto da seguinte forma:

R$ 1 milhão para a empresa que administra o programa (Fëng Brasil);

R$ 1,5 milhão para fazer e entregar as novas carteirinhas, além da comunicação com os sócios

Cerca de R$ 8 milhões foram para pagar salários

Os cerca de R$ 10 milhões restantes foram para as parcelas em atraso do Profut, folha de funcionários e contas de consumo.

Folha é reduzida, mas atrasos continuam

Muitos jogadores saíram, e o Vasco teve o time enfraquecido. A folha salarial foi reduzida para cerca de R$ 3,7 milhões, mas os atrasos continuam. Atualmente, o clube deve janeiro, férias e uma parcela do 13º salário aos jogadores. O mês de fevereiro também não foi pago, mas, informalmente, o vencimento acontece somente em 20 de março.

Alguns atletas não recebem direitos de imagem desde setembro. A situação dos funcionários é ainda pior, uma vez que eles não recebem desde novembro. Como forma de protesto, o elenco não dá entrevistas há mais de três semanas.

Necessidade de venda

Desde então, a direção vem apagando incêndios e antecipando receitas. Com R$ 5 milhões do contrato anual com a BMG, acertou o salário de novembro. Com antecipação do patrocínio da Havan, pagou mais uma parte. A última operação ocorreu nesta semana, quando o salário de dezembro dos jogadores foi quitado com a premiação da Copa do Brasil. Os funcionários, no entanto, não receberam.

O cenário é complicado, e o Vasco tem a expectativa de vender jogadores para arrecadar dinheiro na janela do meio do ano. Talles Magno hoje é o maior ativo do clube, mas se machucou e só deve voltar no fim de maio. Marrony e Andrey são outros atletas com potencial de venda imediata.

Fluminense: um mês e "meio" em atraso e 10 reforços

Medidas emergenciais

Com a antecipação das eleições em um semestre, a atual gestão assumiu o clube com dois meses e meio de salários atrasados, incluindo o 13º de 2018. Para evitar que a crise implodisse e o clube corresse o risco de perder jogadores na Justiça com três folhas pendentes, como aconteceu com Gustavo Scarpa, a diretoria chegou a priorizar o pagamento de joias como Marcos Paulo e Miguel.

O cenário melhorou no fim do ano passado graças a algumas operações financeiras. Entre elas estão: o adiantamento de uma das parcelas futuras da venda do atacante Pedro para a Fiorentina, da Itália, e o acordo com a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional para a liberação de R$ 43 milhões que estavam penhorados pela Justiça. Os valores foram usados da seguinte forma:

Cerca de R$ 3,5 milhões considerados bloqueados acima do necessário pela Justiça foram devolvidos ao clube. Fluminense usou valor para quitar o 13º salário de 2018 a jogadores e funcionários.

R$ 1,5 milhão em multas por “ato atentatório à dignidade da Justiça, por ter “driblado” a penhora da venda de Wellington Nem em 2013.

R$ 7 milhões em multas somadas diariamente desde a época do processo.

R$ 9 milhões para o pagamento de prestações em atraso do Profut, de outros parcelamentos junto à Receita e à Procuradoria da Fazenda, de impostos correntes e com a Previdência.

R$ 31 milhões em abatimento das parcelas finais no Profut, o que antecipará em cerca de 5 anos o fim dos pagamentos, em cálculo feito por clube e Justiça

Atrasos diminuem, mas folha aumenta

O Flu virou o ano em dia, mas as dificuldades seguem. A folha aumentou pelas muitas contratações, passando de R$ 2,8 milhões para cerca de R$ 3,5 milhões, e neste começo de 2020 o clube tem precisado dividir a remuneração: saldou 70% e depois 30% de dezembro; e 50% e mais 30% de janeiro – os outros 20% ainda estão em aberto. Com funcionários PJ (pessoas jurídicas), faltam 50%.

O mês de fevereiro venceu no quinto dia útil de março e está integralmente pendente, tanto para jogadores e quanto para funcionários. Além disso, a última informação de pagamentos referente a direitos de imagem foi em outubro – o valor mensal era de aproximadamente R$ 400 mil no ano passado. Não são todos do elenco que recebem imagem, apenas uma parte.

Criatividade

Para conseguir agir no mercado com poucos recursos, o Fluminense usou a criatividade para contratar a maioria sem custos: Felippe Cardoso, Caio Paulista, Henrique e Hudson chegaram por empréstimos – no caso do último, a diretoria cedeu a prioridade de compra da joia Wallace para o São Paulo para convencer o clube paulista e dividir os salários.

Egídio e Yago rescindiram seus contratos e também vieram de graça. Só nas apostas internacionais que o Flu precisou investir para comprar 50% dos direitos econômicos e assinar por quatro anos. Para contratar o peruano Pacheco, fez um aporte de U$ 700 mil dólares (aproximadamente R$ 2,8 milhões); e para trazer o uruguaio Michel Araújo, pagará US$ 800 mil dólares (cerca de R$ 3,3 milhões).

Necessidade de venda

A luta para deixar os salários em dia no Fluminense tem vários obstáculos. Além de pagar mais de R$ 1 milhão por mês de Profut, o clube enfrenta processos na Justiça, como por exemplo do atacante Pedro e do goleiro Júlio César, que cobram R$ 2,2 milhões e R$ 768 mil, respectivamente. Em outros, o Tricolor paga acordos, como o feito com o técnico Fernando Diniz, ou tenta uma composição, como no caso do pedido de penhora de R$ 4,5 milhões do Grêmio.

Atualmente, o Fluminense tem as seguintes fontes de receita: venda de ingressos, sócio-futebol, cotas de TV e patrocínios – o espaço master está vago há quase dois anos. O clube aposta alto nos novos planos de sócios-torcedores, mas só a venda de jogadores poderá desafogar o caixa a curto prazo. Recentemente, Miguel foi observado por Arsenal e Tottenham, da Inglaterra, enquanto a diretoria recusou uma proposta de R$ 33 milhões do CSKA, da Rússia, por Marcos Paulo.

Fonte: GloboEsporte.com