Zé Ricardo: "Poucos tem a chance de trabalhar por esse tempo no Vasco"

26/02/2018 às 16h53 - FUTEBOL

Zé Ricardo havia acabado de deixar o Flamengo quando recebeu o convite de assumir o comando do Vasco da Gama. Naquele momento, em virtude do momento vivido pelo time cruzmaltino, muitos chegaram a dizer que o treinador não faria um boa escolha se aceitasse a proposta. Contrariando as opiniões, porém, ele aceitou o desafio e selou seu retorno ao clube, onde havia trabalhado na década de 90 quando ainda estava no futsal. O motivo da escolha? A certeza de que não se pode dizer não para o chamado de um Gigante!

Hoje, seis meses depois de ter sido apresentado oficialmente pelo clube da Colina, Zé Ricardo não tem dúvidas de que fez a escolha certa. Com trabalho, comprometimento, franqueza e simpatia, o comandante se tornou uma unanimidade entre os torcedores. Não há um só vascaíno que não esteja satisfeito com o seu desempenho. O reconhecimento é mais que merecido. O treinador, que acabou de recusar uma proposta do futebol árabe para permanencer em São Januário, fez o Cruzmaltino recuperar espaço não apenas entre os grandes do país, mas também entre os gigantes do continente.


Com sorriso no rosto e uma sensação de dever cumprido, o treinador conversou com a reportagem do Site Oficial após a heróica classificação para a fase de grupos da Conmebol Libertadores 2018, em Sucre, diante do Jorge Wilstermann (BOL). Na ocasião, Zé Ricardo fez um balanço de sua passagem por São Januário, avaliou o momento vivido pelo time cruzmaltino, agradeceu aos torcedores pelo carinho, abriu o coração e revelou seu maior sonho no momento: entrar na história do Vasco com a conquista do Tricampeonato da América.

Confira o bate-papo exclusivo de Zé Ricardo com o Site Oficial:


Site Oficial: O que você pode falar sobre esse período à frente do Vasco, um dos gigantes do futebol brasileiro?


Zé Ricardo: Sem dúvida é uma satisfação muito grande. São poucos aqueles que recebem a oportunidade de trabalhar por esse tempo num clube como o Vasco da Gama. Me sinto privilegiado nesse ponto. Retornei a um clube onde comecei a minha carreira, há muito tempo, ainda no futsal. Completar essa daqui hoje é muito gratificante.

SO: Você assumiu num período que muita gente acreditava que o Vasco iria figurar na segunda parte da tabela. A classificação para a Libertadores era algo tratado como impossível naquele período. Analisando tudo que passou, você acha que o seu trabalho atingiu um patamar acima do que era esperado por  você naquele momento?


ZR: Sem dúvida. Quando assumimos, tínhamos a preocupação da gente afastar o  máximo que possível o Vasco daquela zona perigosa. E com a sequência  do trabalho, com os resultados acontecendo, a gente conseguiu não só afastar esse perigo, mas brigar até o final por uma vaga na Libertadores. Conseguimos a classificação para a fase preliminar e agora para fase de grupos, concluindo com sucesso uma missão iniciada no ano passado. A avaliação é positiva. Sempre acreditei no clube pela força e pela camisa que possui poderia chegar a lugares mais altos. O atleta, o funcionário e o treinador, quem coloca a camisa do Vasco, sabe que possui uma responsabilidade muito grande.


SO: Chegou a temer a rejeição da torcida do Vasco por ter vindo do Flamengo?


ZR: Sempre ficamos naquela dúvida, mas eu acredito que a minha passagem pelo futsal do Vasco, lá no início da minha carreira, deu uma facilitada nessa relação com a torcida. Os resultados que a gente veio mostrando logo no início também. Por isso que tenho muito que agradecer aos torcedores pela compreensão e pelo apoio aos atletas, mesmo no período difícil. Quando estávamos jogando com portões fechados, a torcida se fez presente no entorno de São Januário e essa energia foi passada para todo o grupo. Graças a Deus fechamos 2017 de forma positiva e iniciamos muito bem com essa classificação para a fase de grupos.

SO: Quais foram os jogos mais especiais no comando do Vasco?


ZR: Eu vou citar dois jogos. O primeiro deles foi a estreia, contra o Grêmio, que meses depois se sagrou campeão da América. Se tratava de uma equipe fortissíma e que jogou completa contra nós em São Januário. Esse jogo é especial pelo fato de ter sido o primeiro. Conseguir aquela vitória foi um motivo de muito orgulho. A outra partida foi contra o Santos, quando conseguimos virar o placar dentro da Vila Belmiro jogando bem. O Santos fez 1 a 0, mas viramos o jogo nos minutos finais, com o gol da vitória saindo nos minutos finais. Aquele resultado tirou qualquer possibilidade de descenso. Atingimos naquela ocasião 48 pontos com algumas rodadas de antecedência. Foi ali que nos fortalecemos para buscar essa vaga na Libertadores.


SO: Essa partida contra o Santos foi então o jogo-chave para essa classificação?


ZR: Sem dúvida. A gente vinha acreditando que era possível, mas jogar contra uma equipe como o Santos na Vila Belmiro, sair perdendo por 1 a 0 e ter força para virar jogando bem, mostrou que estávamos atingindo um nível que poderia nos fazer brigar pela vaga na Libertadores.


SO: Acreditava nesse início muito bom do Vasco na Libertadores? 


ZR: Acreditar a gente sempre acredita, mas é lógico que a situação política mexeu um pouco com a nossa preparação. A gente preferiu não ficar lamentando a saída de alguns atletas, mas valoriar aqueles que estavam conosco. Isso foi o principal para nós. Conseguimos junto com o pessoal da direção nos fechar dentro do CT de Vargem Grande e a partir daí dar valor ao que conseguimos em 2017. Fizemos os atletas entenderem que aquilo ali era o mais importante. Então, foi fundamental esse período junto. Mesmo com as saídas, demos uma cara para a equipe. Todo esse movimento vem dando resultado.

SO: O comprometimento dos atletas é o grande segredo do Vasco sob seu comando?


ZR: Eu penso que esse tem que ser o segredo de todas as equipes que jogam um esporte coletivo. O futebol é na sua essência precisa das associações, do companheirismo. Costumo dizer que se a gente estiver bem organizado e taticamente bem distribuído, as individualidades começam a aparecer. É isso que está acontecendo aqui no Vasco. Está todo mundo muito consistente, consciente do que precisa fazer em campo. Somos hoje uma equipe competitiva e solidária. É fundamental numa competição como a Libertadores você ter esses atributos no seu time.


SO: A Libertadores não é uma competição fácil, é preciso ter atenção e dar um passo de cada vez, mas você já se imaginou entrando para a história do Vasco como campeão dela?
 

ZR: Os nossos sonhos nós determinamos e nós temos a obrigação de tentar fazer com que eles se tornem realidade. O céu tem que ser o limite para todos nós. Lógico que é preciso dar um passo de cada vez. Nos classificamos e caímos numa chave que todos consideram o "grupo da morte", com três campeões da América juntos. O Vasco, por sua essência e por seu tamanho, precisa pensar grande. E a gente acompanha esse pensamento. Tomara que degrau a degrau a gente possa ir para frente.

SO: Chegou a acompanhar a campanha do Vasco na Conmebol Libertadores de 1998?


ZR: Sim. Era um grupo muito consistente e que só teve duas derrotas na competição toda. Fez todos os jogadores de forma equilibrada. Era difícil jogar contra o Vasco dentrou ou fora de casa. Se tratava de um grupo muito bem conduzido pelo Antônio Lopes e que tinha diversos talentos individuais. O grande segredo daquele time era possuir um aspecto coletivo muito forte. O que todos se recordam daquela campanha é a aquela semifinal contra o River Plate, quando vencemos de forma brilhante. Depois, com duas vitórias sobre o Barcelona, o título foi ratificado.
 

SO: Aquele time de 1998 tinha à disposição muitos jogadores oriundos da base. Hoje, curiosamente, o elenco do Vasco conta com diversos jovens talentosos...


ZR: Tomara que seja um bom presságio para essa campanha. Como disse antes, vamos procurar dar um passo de cada vez, mas  é uma coincidência legal. Vamos procurar repetir esse desempenho. Quem acompanha a base do Rio de Janeiro, já sabia que o Vasco tem uma safra muito forte. O clube tem essa famosa "Geração 98", que é realmente é muito forte e qualificada. Eles ganharam muitos campeonatos na base, em especial no Rio de Janeiro. Eu sofri na pele contra eles. Essa safra se juntou com outras de muito talento, como a 97, a 99 e a 2000. Tenho uma expectativa muito grande em cima dessa garotada. Acredito que esses meninos terão uma carreira brilhante pela frente. O Vasco tem muito a ganhar com esses atletas.
 

SO- Como o Zé Ricardo se classifica como treinador? Quais os conceitos de jogo que você gosta e suas referências?
 

ZR: Eu vejo muito futebol, muitos campeonatos fora e treinadores que são expoentes chamam a minha atenção. Gosto do Guardiola, do Simeone e da forma como o Mourinho pensa a questão do jogo defensivo. Tem também o Maurizio Sarri, do Napoli, que tem se destacado. Aqui dentro do nosso futebol também possuímos excelentes treinadores. Destaco o Paulo Autuori e o Telê Santana, que infelizmente não está mais entre nós. Temos o Abel que faz um trabalho muito legal com a base no Fluminense. Não poderia deixar de citar as revelações, como o próprio Carille, o Eduardo Baptista e o Jair Ventura. O Brasil está bem servindo e costumo pegar um pouquinho de cada um. Eu não gosto de trabalhar apenas a organização da equipe, mas também a relação entre atletas e comissão técnica, algo que julgo imprescindível hoje em dia para que o jogo coletivo ocorra. E logicamente que tudo aquilo que vai aparecendo de novo procuro estar atento. Estou iniciando uma carreira, não cheguei a dois anos de profissional, e tenho certeza que o crescimento é contínuo. Evoluir na carreira é sempre o que procuro.


SO: Pela sua história, por tudo que você passou para chegar onde estar hoje, você se sente uma referência para os treinadores mais jovens?


ZR: Não sei se a palavra é referência, mas eu sou um professor de Educação Física formado. Tentei ser jogador de futebol e por questões técnicas não consegui, infelizmente. Foi quando resolvi realizar esse sonho de estar no ambiente do futebol de uma outra forma. Sou um apaixonado pelo futsal, onde comecei a minha trajetória, e num determinado momento tive a oportunidade de fazer a transição para o futebol de campo. A questão da referência, não sei, mas tenho certeza que precisamos acreditar e lutar por nossos sonhos. Eu tinha um sonho de poder trabalhar no profissional, de crescer na carreira e isso está se realizando. Por isso, talvez, algumas pessoas se sintam encorajadas a continuar. Tive muitas decepções nessa trajetória, mas procurei ser persistente e correto para estar preparado para agarrar a oportunidade quando ela aparecesse. A chance vai aparecer, sem dúvida alguma, e você precisa estar preparado. Fico feliz por saber que a minha história é vista como exemplo por jovens treinadores.


SO: Qual recado você deixaria para a torcida do Vasco?
 

ZR: Eu tenho um respeito muito grande pelo clube. Foi a primeira grande equipe que trabalhei no futsal. Me sinto muito feliz por ter voltado depois de um longo tempo. É uma satisfação muito grande estar aqui. Nesses seis meses fui muito bem recebido por todo mundo. Só isso te faz ter uma gratidão muito grande. Eu sinto o carinho e o apoio da torcida. Era uma obrigação minha passar para os atletas um pouquinho da história do Vasco, que é belissíma nas esferas desportiva e social. Eles precisam entender a responsabilidade e o tamanho do Vasco. Os jogadores precisam se sentir orgulhosos por terem a oportunidade de vestir a camisa do Vasco. Costumo falar para eles que não tem preço poder sentar com os filhos mais para frente e contar que um dia jogou e foi vencedor numa equipe de tamanha grandeza. Eu encaro da mesma forma. Quero chegar no futuro, conversar com meus filhos, olhar para trás e dizer que fiz história no Vasco como treinador.

Fonte: Site oficial do Vasco

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