100 anos de charme

08/01/2006 às 13h39 - FUTEBOL

Ele já esteve ameaçado de extinção. Já teve edição manchada por WO. Foi palco de duas voltas olímpicas na mesma final. A expectativa que o cerca, no entanto, parece inabalável. A convite do Jornal do Brasil, craques do passado estiveram no Maracanã para relembrar histórias da competição que em 2006 chega ao seu centenário. Na visão nostálgica de Carlos Alberto Torres, Alcir Portela, Afonsinho, Nunes, Luisinho e Nelsinho Rosa, o Campeonato Carioca perdeu importância ao longo de seus 100 anos. O charme, porém, permanece intacto.


Da edição com apenas seis clubes, em 1906, até os preparativos para o centésimo campeonato, que começa no próximo sábado, não faltam histórias curiosas, emocionantes, tristes e empolgantes. Lembranças que os craques do passado não se cansam de contar, evidenciando a falta que sentem dos tempos em que eram recebidos por quase 200 mil torcedores. Nelsinho Rosa e Carlos Alberto Torres, por exemplo, se enfrentaram no mítico Fla-Flu de 1963, que registrou o maior público da história da competição - 177.020 pagantes, fora convidados e profissionais que trabalharam na decisão.

- O empate era do Flamengo e, no finalzinho do jogo, o Escurinho teve uma chance ao receber sozinho, cara a cara, com Marcial. Ele (o goleiro rubro-negro), que era muito bom, conseguiu defender. A gente foi campeão ali - lembrou o ex-meia.



Nelsinho defendeu as cores rubro-negras de 1962 a 1968, conquistando, além do título de 63, o Carioca de 65. Hoje, no entanto, é treinador das categorias de base do Vasco, clube com o qual sagrou-se campeão brasileiro em 1989. Por isso, preferiu não vestir uniforme de clube algum durante o bate-papo descontraído na arquibancada do Maracanã.

- Fui campeão pelo Flamengo como jogador, mas também atuei pelo Madureira, fui treinador do Fluminense, hoje trabalho no Vasco. Tenho identificação com o futebol carioca como um todo - justificou-se.



Se Nelsinho passou pela maioria dos clubes grandes do Rio, Nilton Santos, em seus 17 anos de carreira, só vestiu a camisa do Botafogo. Apaixonado pelo clube, foi campeão carioca em 1948, 1957, 1961 e 1962.

- Ah, eu me divertia. Talvez a posição ajudasse um pouco, né? O Zizinho é que vivia dizendo que o ponta existia para não deixar a bola sair pela lateral. Mas nunca contei isso para o Garrincha porque ele poderia se ofender - relembra o lateral bicampeão do mundo em 1958/1962. - Acho que sempre fui meio amador. Cheguei a assinar contratos em branco, no auge da carreira. Hoje a Célia, minha mulher, não deixaria. Adorava os Campeonatos Cariocas, mas, quando acabava, a turma toda atravessava o túnel e ia à praia. Eu, que era da Seleção, tinha que me apresentar porque começavam os jogos e excursões da Seleção. Isso me incomodava um pouco - contou, sem arrependimento, Nilton Santos, que, convidado para o encontro dos craques, declinou diante da chuva que caiu na quinta-feira.

A festa que ainda ronda as ruas do Rio em dias de grandes clássicos, era praticamente semanal até a década de 80. Mesmo sem facções de torcidas organizadas, as bandeiras e bandinhas tomavam conta das arquibancadas, cadeiras e geral.



- Aos domingos, não tinha nada melhor para fazer depois da praia. O público ia ao Maracanã e voltava para casa feliz. Os melhores jogadores do Brasil estavam reunidos aqui. Era o grande charme do Brasil - opinou Alcir Portela, zagueiro do Vasco nas décadas de 60 e 70, que hoje também passa sua sabedoria como treinador.



Num bate-bola digno de um Flamengo e Vasco dos anos 60, Nelsinho completa:



- O torcedor vinha ao Maracanã para admirar o jogo. O Carioca era o ponto alto do futebol brasileiro. Hoje, muitos interesses entraram em campo. Os jogadores não têm mais aquela identificação com os clubes.



Contemporâneo de Alcir e Nelsinho, Carlos Alberto Torres jogou apenas cinco Cariocas, já que passou quase 10 anos defendendo o Santos. Com um currículo invejável, quando disputou o Campeonato Carioca seus piores resultados foram os vice-campeonatos de 1963 (pelo Fluminense), 1971 (Botafogo) e 1977 (Flamengo). Pelo tricolor, foi campeão em 1964 e em 1976, com a famosa Máquina do ex-presidente Francisco Horta. Apesar da carreira majoritariamente paulista, o capitão do tri reconhece.



- O Carioca é muito mais charmoso. Em São Paulo não tem isso. Mas o campeonato já foi muito melhor. Era mais longo, tinha os estádios cheios. Hoje, é jogado em apenas dois meses, os clubes pequenos têm muito mais tempo para se preparar... Não é a mesma coisa - analisou.



Nesta centésima edição, Botafogo, Flamengo e Vasco têm a missão de impedir o bicampeonato do Fluminense, que é o maior vencedor do Carioca, com 30 títulos. Os rubro-negros vêm a seguir, com 28. Em terceiro, aparecem os cruzmaltinos, com 22, cinco a mais que os botafoguenses. O campeonato marcará a reabertura do Maracanã, ainda em obras para o Pan-2007. De cara para um novo gramado, impecável, teve ex-jogador com pena de deixar a estréia para os mais novos.



- Nós é que tínhamos que inaugurar esse tapete - afirmou o ex-atacante Nunes, que, entre outros feitos, marcou um dos gols rubro-negros na decisão do título carioca de 1981, conquistado pelo Flamengo sobre o Vasco (2 a 1 no terceiro jogo da final).

Primo-pobre na turma, Luisinho Lemos, maior artilheiro da história do América, com 379 gols, foi também artilheiro do Carioca em 1974 e 1983 e se orgulha de ser um dos três maiores goleadores do Maracanã. Também artilheiro pelo Flamengo e Botafogo, mas está intimamente ligado ao América.

- Nunca me esqueço da campanha de 1974. Vencemos a Taça Guanabara e fomos para a final com o Flamengo. Tínhamos um timaço: Rogério, Orlando, Alexa, Geraldo e Álvaro; Ivo e Bráulio; Flecha, eu, Eduzinho e Gílson Nunes. Mas o Flamengo do Zico naquela época fazia a diferença.

Fonte: JB Online