1945: O ano em que o estádio de São Januário virou o caldeirão da Portela

09/02/2018 às 11h46 - FUTEBOL

O pequeno Paulinho da Viola estava ainda em seus primeiros falares e andares quando um rio azul e branco passou em sua vida. Naquele ano de 1945, sem ter noção do arrebatamento que viria em seguida, ele viu sua Portela ser campeã após desfilar em São Januário, estádio do Vasco da Gama, o clube que ele viria a amar.

Anos mais tarde, Paulinho da Viola lembrou daquele Carnaval. Em uma de suas canções famosas, "Botafogo Chão de Estrelas", em que rememorava episódios da infância, citou a morte de Matinada, um sambista assassinado durante o desfile devido a uma briga com um rival. A música, composta em parceria com Aldir Blanc, fez sucesso na voz de Walter Alfaiate.

Morreu assassinado o Matinada
Nas confusões que vestem fevereiro

O caso Matinada foi a grande lembrança daquele ano, mas houve muito mais naquele Carnaval, o único em que as escolas de samba do Rio de Janeiro desfilaram num estádio de futebol, o imponente São Januário.

Por que São Januário?

Na década de 1940, as escolas de samba estavam longe do auge de popularidade que tiveram nos anos 1970 e 1980. Ainda eram entidades embrionárias que buscavam legitimidade na sociedade, lutando contra o preconceito.

- As escolas precisavam de legitimidade, conquistar espaços na sociedade de respeitabilidade para sua ação. Já que a maioria dos sambistas era de negros, mulatos, que viviam nos subúrbios e morros. O viés do carnaval era um espaço de criar essa legitimidade social. Estar afinado com o discurso politico era fundamental para que as escolas tivessem essa aceitação - explicou Guilherme Guaral, historiador que estuda os carnavais do Rio de Janeiro na época da Segunda Guerra Mundial.

Na época, as escolas desfilavam na avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro, então capital federal. Mas, com a Segunda Guerra Mundial e a presença do Brasil no conflito, em 1945 não havia muito clima para o Carnaval.

- Não houve ajuda alguma. As outras modalidades de carnaval, como ranchos e grandes sociedades, não desfilavam. O Baile do Municipal não teve ajuda alguma para esses anos. Houve, inclusive, uma manchete clássica do Correio da Manhã dizendo que fazer carnaval neste período era uma insensatez. Havia grande discussão se haveria carnaval ou não. Por que houve? Porque havia uma entidade chamada Liga de Defesa Nacional (LDN). Neste momento, ela tinha um forte perfil anti-fascista. Ela usou o Carnaval para fazer a propaganda anti-fascista – contou Luís Carlos Magalhães, presidente da Portela.

Sem poder realizar o desfile na avenida Rio Branco, a LDN e a União Nacional dos Estudantes (UNE), que organizavam o Carnaval, voltaram seus olhos para São Januário, então o único grande estádio do Rio de Janeiro, usado anteriormente para festejos cívicos. Em 1943, inclusive, já havia sido palco de um desfile não-oficial das escolas, organizado pela então primeira-dama do Brasil, Darcy Vargas, esposa de Getúlio Vargas.

- Foi em São Januário porque o estádio vascaíno era naquele período o principal palco para a realização dos grandes eventos. Eventos estes que iam além da esfera esportiva, abrangiam a política e a cultura, por exemplo. A Portela foi a grande campeã. Aliás, ela era o Expresso da Vitória do samba. Ganhava tudo na época – explicou Walmer Peres, historiador do Centro de Memória do Vasco.

Portela, o Expresso da Vitória do samba

É difícil achar detalhes sobre o desfile de 1945. Muito porque a imprensa da época era contra a realização do Carnaval e, por isso, não o cobriu com extensão. Sabe-se que oito escolas participaram do concurso, mas apenas quatro são conhecidas: Portela, Mangueira, Depois Eu Digo e Cada Ano Sai Melhor.

A Portela era a potência da época. Vinha acumulando vitórias desde 1941, numa sequência de títulos que se estendeu até 1947. A comparação de Walmer não é por acaso. Na mesma década, o Vasco montou seu famoso Expresso da Vitória, liderado por Ademir de Menezes. E foi justamente em 1945 que ele atingiu seu ápice.

- O Expresso da Vitória surge efetivamente em 1945. Ele vinha sendo montado desde 1942, mas 1945 é o grande ano (foram três títulos, inclusive o Carioca, de forma invicta) – completou Walmer.

A morte de Matinada

Não foi à toa que Paulinho da Viola virou portelense e vascaíno, tendo nascido na década em que seus dois amores brilharam de forma tão intensa. O curioso, porém, é saber que uma de suas maiores lembranças da infância é a morte do sambista Matinada, ocorrida naquele Carnaval de 1945.

O caso foi amplamente divulgado pela imprensa, especialmente a ala que era contra os desfiles. Matinada era um sambista da Depois Eu Digo, que ficava no morro do Salgueiro, numa época em que a comunidade tinha diversas escolas – elas se juntariam em 1953 para dar origem à Acadêmicos do Salgueiro.

No desfile de 1945, sambistas da Depois Eu Digo brigaram com os da Cada Ano Sai Melhor, do morro do São Carlos, atual Estácio. Na confusão generalizada, Matinada foi assassinado. O mestre-sala Avelino dos Santos, o Bicho Novo, foi preso, mas depois liberado quando se verificou que era inocente: ele sequer havia estado presente no desfile. Sebastião Bezerra Resende, o Dedé, também chegou a ser detido como suspeito pelo crime.

- Imagina um crime dentro de São Januário, maior estádio da época, palco de tantas atividades cívicas do Estado Novo de Getúlio Vargas, um estádio que atraía todas as atenções nacionais, no coração do Carnaval do Brasil naquele momento, ter um crime de morte. O Carnaval se notabilizou por isso – ressaltou Luís Carlos Magalhães.

- É interessante que o que acontece depois disso é que o estereótipo do sambista como pessoa de baixa renda, ligada à marginalidade, é extremamente divulgado pela imprensa, que talvez tenha dado até mais destaque a isso do que ao próprio desfile – completou Fabio Pavão, atual presidente do Conselho Deliberativo da Portela.

A morte de Matinada rendeu até uma crônica da escritora Raquel de Queiroz, publicada naquele mesmo ano:

- Abro agora um parêntese para cantar a glória de Matinada, mestre de canto de uma escola de samba que morreu aqui no Rio, apunhalado na concentração do estádio do Vasco. Lá na Ilha já corre uma lenda lindíssima: que Matinada morreu mas deixou doze no chão, com o risco de sua navalha - escreveu Raquel.

O caldeirão da Portela

São Januário, naquela época, era bem diferente do atual modelo. O estádio passaria por grandes mudanças em 1949, quando sediou o Campeonato Sul-Americano de futebol. Não há detalhes sobre como foi realizado o desfile, mas pesquisadores acreditam que tenha sido em volta do gramado.

Os enredos daquele ano foram todos patrióticos, aproveitando o clima nacionalista provocado pela presença do Brasil na guerra. A temática era imposta pela LDN. A Portela veio com “Brasil Glorioso”, de samba composto por Boaventura dos Santos, o Ventura.

A vitória foi incontestável. Enquanto outras escolas sofriam para se financiar numa época difícil e sem tanto apoio, a Portela contou com a ajuda dos comerciantes de Madureira para colocar seu Carnaval na rua. Ou em São Januário, o caldeirão da Águia, como decretou Pavão:

- Só quero dizer que a Portela é a única instituição invicta em São Januário. São Januário é o caldeirão da Portela.

Letra do samba da Portela para o Carnaval de 1945:

Autor: Ventura

"Ó meu Brasil glorioso
És belo, és forte, um colosso
É rico pela natureza
Eu nunca vi tanta beleza
Foi denominado terra de Santa Cruz
Ó pátria amada, terra adorada, terra de luz

Nessas mal traçadas rimas
Quero homenagear
Este meu torrão natal
És rico, és belo, és forte
E por isso és varonil
Ó pátria amada, terra adorada, viva o Brasil"

Fonte: GloboEsporte.com

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