Chegou ao fim a segunda passagem de Philippe Coutinho pelo Vasco. O meia criado na base do clube e tão festejado no retorno anunciado um ano e meio atrás pediu a rescisão do contrato e não joga mais pela equipe. O camisa 10, alvo de vaias no domingo passado, na partida contra o Volta Redonda, alegou estar "muito cansado mentalmente".
Ao todo, foram 81 jogos nesse período, com 17 gols marcados e sete assistências. Em 2025, no ano encerrado com o vice-campeonato da Copa do Brasil, Coutinho foi a campo em 56 partidas e estabeleceu seu recorde pessoal de jogos disputados em uma só temporada.
A torcida vascaína viu lampejos de um craque, como as apresentações na goleada por 6 a 0 sobre o Santos e no empate com o Melgar no Peru, por exemplo. Mas a passagem no geral ficou marcada por atuações aquém do esperado, e a frustração dos torcedores ficou clara com as vaias direcionadas a Coutinho no empate com o Volta Redonda no domingo passado, na sua última partida com a camisa do Vasco.
Pela primeira vez desde que voltou, Coutinho foi alvo direto do protesto dos torcedores, que vaiaram o camisa 10 no caminho para o vestiário — o Vasco perdia o jogo por 1 a 0 naquele momento. O meia não voltou para o segundo tempo.
— Naquele momento, na ida para o vestiário, eu senti e percebi que meu ciclo no clube tinha acabado, e eu não voltei para priorizar minha saúde mental. Isso dói muito - disse ele em comunicado nas redes sociais.
O contrato de Coutinho com o Vasco era válido até o dia 30 de junho, mas as partes chegaram a um acordo pela rescisão. Clube e jogador recentemente haviam iniciado as tratativas para a renovação.
"A Barreira vai virar baile"
Depois de um período de muito sucesso pela Europa, com passagens relevantes por clubes como Liverpool, Barcelona e Bayern de Munique e a disputa de uma Copa do Mundo com a seleção brasileira no currículo, Philippe Coutinho voltou para o Vasco em julho de 2024. A notícia, é óbvio, empolgou os torcedores.
A música "A Barreira Vai Virar Baile" virou hit e embalou o retorno do cria, com os versos que diziam que o Coutinho estava "querendo demais" e que o cria "está vindo aí" sendo entoados nas ruas e nas arquibancadas. Cerca de 20 mil torcedores foram recebê-lo com festa na sua apresentação em São Januário.
A chegada por empréstimo de Coutinho, que pertencia ao Aston Villa, foi atrelada às contratações de Souza e Alex Teixeira, amigos do meia e companheiros na época de base do Vasco. Souza ficou até maio do ano passado, e Teixeira, até setembro.
O meia fez sua estreia numa derrota por 2 a 0 para o Atlético-MG, na Arena MRV, pela 18ª rodada do Brasileirão. No início, o então técnico Rafael Paiva, em trabalho conjunto com o departamento médico, contava com Coutinho entre intervalos espaçados, já que o jogador precisava retomar o condicionamento físico e não poderia acelerar essa adaptação.
Lesões também tiraram Coutinho de ação em alguns momentos em 2024, de modo que ele só conseguiu engatar uma sequência a partir de setembro. O primeiro gol nessa volta foi marcante: saiu no empate em 1 a 1 no clássico contra o Flamengo, no Maracanã, na 26ª rodada. Ele terminou o ano com 18 jogos, 10 deles como titular.
Sequência de jogos e vice da Copa do Brasil
Se o 2024 foi de lesões, o 2025 de Coutinho foi de sequência física e vários jogos. Com preparação física especial e um trabalho dentro e fora de campo, o meio-campista teve a temporada com mais partidas da carreira: foram 56 aparições, superando os 54 jogos que fizera pelo Barcelona em 2018/19.
Aos poucos, Coutinho assumiu a natural responsabilidade que o tamanho da contratação demandava. Saía cedo de poucos jogos, conseguia correr mais e, sob o comando de Fernando Diniz, chegou até a assumir função de camisa 8, jogando mais recuado, de maneira eventual.
Em campo, o camisa 10 talvez tenha ficado atrás em termos de protagonismo de Rayan e Vegetti, os artilheiros do Vasco em 2025, mas teve seu papel de importância para levar o time até a final da Copa do Brasil.
O vice-campeonato para o Corinthians foi o primeiro baque mental do camisa 10, que esperava coroar o retorno ao time do coração com um título.
Saúde mental e saída
A perda da Copa do Brasil foi o início do desgaste. Chateado, ele até cogitou a rescisão após o fim de 2025, mas foi convencido do contrário por pessoas próximas.
O 2026 começou de forma promissora, com atuação de gol e assistência na estreia da temporada contra o Maricá, pelo Campeonato Carioca. Mas logo tudo saiu dos trilhos: resultados pararam de chegar, o Vasco iniciou o Brasileirão mal e Coutinho pagou o preço.
Contra o Bahia, o camisa 10 ouviu vaias de parte da torcida, ainda de forma tímida, em São Januário. Diante do Volta Redonda, no último sábado, as reclamações ocorreram de maneira mais uníssona. Ele chorou no vestiário durante o intervalo e não voltou para o banco de reservas. De lá, a decisão já estava tomada.
Internamente, a avaliação era de que Coutinho “sofria para jogar”, porque se cobrava demais. Muitas vezes, o meia não conseguia sentir prazer em campo. A partida contra o Volta Redonda não foi a primeira vez em que ele se mostrou abalado durante um jogo.
O planejamento do Vasco e de Coutinho era de que o meia encerrasse a carreira no clube. Havia conversas em andamento para uma renovação até o fim do ano.
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