O Vasco se despediu nesta terça-feira de Rayan, uma das grandes revelações do clube no século. O atacante chegou a São Januário aos seis anos, mas a identificação vem de berço.
No dia em que o Bournemouth anunciou sua contratação, o ge relembra a trajetória do jogador nascido e criado na Barreira do Vasco.
Rayan é filho de Valkmar, ex-jogador do Vasco no fim da década de 1990 e início dos anos 2000. Mas a ligação com o clube não vem apenas do pai. A mãe Vanessa é torcedora do clube e moradora da Barreira do Vasco, comunidade ao lado do estádio São Januário. Ela frequentava o local assiduamente, onde encontrou e conheceu Valkmar.
— Na época que meu pai era jogador, ele saía muito pela Barreira. Ele sempre ficou por ali. Depois, ele levou ela para o mundo do futebol. Eles fizeram minha irmã e eu... (risos). Deu tudo certo. Ter os dois dentro de casa, que são vascaínos, que trabalharam dentro do Vasco, é muito importante. Meu avô também é vascaíno. A família toda é vascaína — contou Rayan ao ge, em outubro do ano passado.
O fruto desse relacionamento foi o primeiro filho do casal: Rayan. Ele chegou ao clube aos seis anos, mas já vivia São Januário antes por ser morador da Barreira. O garoto rapidamente chamou a atenção do Vasco e ganhou destaque na base do clube, no futsal ou no campo. Aos 11 anos, Rayan foi destaque na TV Globo, ao ter alcançado a marca de 280 gols na base vascaína.
Rayan fez parte da geração de ouro da base vascaína. Fez sua estreia pelo Sub-20 do clube com apenas quinze anos. Pela base do Vasco, foi campeão da Copa Rio Sub-17 e bicampeão do Campeonato Carioca Sub-17. Ele foi presença constante na seleção brasileira desde o Sub-15.
Rayan estreou no profissional do Vasco no mesmo ano em que foi campeão sul-americano sub-17. Ele se tornou o jogador mais jovem a marcar um gol pelo clube no século 21. Com 16 anos, 10 meses e 8 dias, o atacante superou a marca de Paulinho, hoje no Palmeiras, com um gol contra o Internacional no Beira-Rio, logo em seu primeiro jogo como titular, em junho de 2023.
O Vasco, no entanto, passou por uma instabilidade enorme em 2023. Com a demissão de Maurício Barbieri, o treinador escolhido para a luta contra o Z-4 foi Ramón Díaz. O argentino preferiu jogadores mais experientes para aquele momento e só escalou Rayan em seu primeiro jogo com a equipe. O atacante voltou para o Sub-20.
Em 2024, Rayan oscilou assim como o Vasco. Ele não recebeu tantas oportunidades com Ramón Díaz, somente em alguns jogos do Carioca. Quando começou a jogar no Brasileirão, não se destacou, seja com Ramón Díaz ou Álvaro Pacheco. Com o técnico português, após a derrota por 6 a 1 contra o Flamengo, o jogador foi alvo de protestos da organizada.
— Você é o mais frouxo, você não corre, você não marca ninguém. Você fica lá na frente parado — disseram torcedores.
O jogador foi receber mais chances apenas com Rafael Paiva, mas também não engatou e ficou marcado pela expulsão nas quartas de final contra o Athletico. Ele terminou o ano como reserva de um ataque que tinha Puma improvisado, Emerson Rodríguez e Vegetti. Foram 33 jogos e apenas dois gols no ano.
O atacante começou o ano com tudo. Ele foi titular e peça importante da conquista do Brasil no Sul-Americano Sub-20, em cima da Argentina. Assim que voltou ao Vasco, treinado por Carille, marcou no jogo contra o União Rondonópolis na Copa do Brasil. Ele se firmou no time titular e teve boas atuações, como contra o Nova Iguaçu, o Sport e o Ceará, entre Copa do Brasil e Brasileirão.
Mas Rayan teve uma queda de desempenho assim como todo o time do Vasco na reta final do trabalho de Carille e no período em que Felipe comandou a equipe. Tudo mudou quando Fernando Diniz assumiu como treinador e mudou a carreira do jogador. Com confiança total no jovem, o técnico montou um time em que Rayan seria um dos protagonistas.
Foram três gols de Rayan que sinalizavam uma crescente no início da trajetória de Diniz no Vasco: contra Operário, Melgar e São Paulo. Aos poucos, ele se tornou o dono do time, mesmo na fase ruim no Brasileirão.
Quando a fase boa do time chegou, Rayan passou de destaque do Vasco para um dos melhores jogadores do país. Foram seis gols em seis jogos, na sequência mais difícil da temporada, contra Flamengo, Cruzeiro, Vitória, Fortaleza e Fluminense, que fizeram o clube sonhar com Libertadores.
Mas o time caiu de produção e flertou com o Z-4 na reta final. Rayan apareceu novamente, desta vez contra o Internacional, para brilhar e espantar qualquer perigo. Ele comandou a vitória por 5 a 1 contra o Inter.
Os jogos mais emblemáticos de Rayan no Vasco foram as semifinais da Copa do Brasil. Ele encarou a semifinal como uma revanche pessoal, depois da série de provocações que o clube das Laranjeiras fez com o atacante vascaíno no primeiro turno do Brasileirão. Na bola, Rayan deu o troco e foi fundamental para colocar o Vasco na final. Ele decidiu a primeira partida e converteu o pênalti no jogo de volta.
O capítulo mais frustrante se tornou a final da Copa do Brasil, na qual teve um gol anulado por centímetros no bom jogo de ida em São Paulo. No Maracanã, o atacante não conseguiu furar a defesa do Corinthians e terminou com o vice-campeonato da competição em que foi o artilheiro. Rayan sentiu muito a derrota e chorou no gramado do estádio, consolado por Diniz e companheiros.
O Vasco negociou Rayan com o Bournemouth por 35 milhões de euros — 28,5 milhões fixos e 6,5 milhões em metas. O Vasco ficará com cerca de 25 milhões de euros, recebidos à vista. Essa é a maior venda da história vascaína.
Rayan manifestou o desejo de se transferir por acreditar que a Premier League pode ser uma vitrine maior para chegar a grandes centros europeus. Internamente, o Vasco sabia que poderia discutir cifras maiores no futuro, mas optou por respeitar o desejo do atleta e manter a boa relação com a família — peça-chave para duas renovações recentes, uma delas quando o jogador estava a seis meses do fim do contrato.
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