Base: conheça a história da "Geração 84" do Vasco

17/11/2008 às 14h05 - CATEGORIAS DE BASE

“Todo mundo fala do Corinthians e todos querem jogar aqui. Será um prazer imenso estar dentro de campo e participar dessa festa. Se não quisesse pressão, como falaram no Vasco, não teria vindo para cá, onde tem cobrança diariamente. Cheguei a um ponto que não dava mais para jogar. Quando o time ganhava, todos ganhavam. Quando perdia, era tudo em cima de mim. Já não tinha felicidade”.

Foi com estas palavras que o meia Morais chegou ao Corinthians, após um período turbulento no Vasco, onde sofreu com cobranças exageradas e ameaças da torcida. Entretanto, sua negociação significou muito mais que apenas uma “mudança de ares”.

Morais era o último remanescente da “Geração 84” do clube, um grupo de jogadores nascidos há 24 anos que percorreu nas categorias de base da Colina uma das trajetórias mais vitoriosas da história vascaína e também do futebol brasileiro.

O “Expressinho da Vitória”

O grupo começou a ser montado na esteira do sucesso de outra geração vitoriosa: a que tinha Valdir, Yan, Gian e Jardel, entre outros, e que conquistou a Taça São Paulo, a Taça BH e o Campeonato Estadual de Juniores em 1992. A base vascaína, sempre elogiada por sua qualidade em revelar talentos como Roberto Dinamite, Geovani, Romário, Edmundo e outros, mantinha um trabalho de prospecção com uma extensa rede de observadores que não precisavam de muito para convencer os garotos a treinarem em São Januário – a fase do time falava por si só.

Assim, os primeiros nomes que formariam a equipe começaram a chegar no clube por volta de 1994 e 95. O primeiro título viria em 1997, com a conquista do quinto estadual mirim (Sub-13) do Vasco. No ano seguinte, triunfos invictos no Carioca Infantil e na Copa A Gazetinha, ambos Sub-15. Em 99, novas campanhas exemplares e o bicampeonato dos dois torneios.

O título do estadual Sub-17 em 2000 concluiu uma incrível série vitoriosa: ao chegar ao juvenil, a geração /84 somou incríveis 128 jogos de invencibilidade em quatro anos de disputas. Não à toa, chamou muito a atenção e foi apelidada de “expressinho da vitória”, em alusão à famosa equipe da década de 40, cinco vezes campeão estadual num espaço de oito anos e campeã sul-americana.

Apesar da perda da invencibilidade, a garotada continuou empolgando. A subida para os juniores separou alguns do elenco: Léo Macaé, Anderson e Morais, os principais destaques, foram guindados mais cedo. Assim, em 2001 o juvenil não repetiu a conquista estadual, mas no ano seguinte foi campeão invicto da Copa Rio, considerada um dos principais torneios da categoria. 2002 foi o ano da primeira Copa São Paulo para alguns, mas a campanha não foi das melhores: eliminação na primeira fase, mesmo com Wescley, Morais e Anderson. Também em 2002, o clube foi o representante brasileiro em um Mundialito Sub-20 realizado na Austrália. No elenco, jogadores como Anderson e Léo Macaé.

Os dois, inclusive, estrearam no elenco profissional ainda naquele ano. Com a criação da Liga Rio-São Paulo, os dois campeonatos estaduais ficaram esvaziados. Enquanto os paulistas abriram mão da disputa, os cariocas utilizaram times mistos no que ficou conhecido como “Caixão 2002”. Léo Macaé foi titular em quase toda a campanha, mas marcou apenas dois gols.

O último suspiro da geração /84 nas categorias de base seria a Copa São Paulo de 2003. novamente comandado por Luiz Antonio Ferreira, o time era praticamente o mesmo que se transformara na sensação de anos antes e começou de forma arrasadora: 7 a 1 sobre o CFA, de Roraima, com destaque para Claudemir, autor de três gols. Léo Macaé marcou na prorrogação o gol da vitória sobre o Rio Branco nas oitavas e Anderson garantiu a classificação para a semi contra o Santos. Entretanto, duas derrotas, para Santo André e Inter de Limeira (nos pênaltis) deixaram a equipe com o quarto lugar.

Entrosamento + habilidade = vitórias

É difícil apontar um time titular desta geração, já que foram disputados vários campeonatos em diferentes categorias. Mas o desenho básico ao longo do tempo não se alterou significantemente: um 4-2-2-2 básico com muita movimentação, participação intensa dos laterais, bastante ofensivos, e uma dupla de ataque extremamente entrosada.

No gol, nem Rougger, nem Borges eram unanimidades, e por isso revezavam muito. Rougger foi titular por mais tempo especialmente pela estatura (1,92m contra 1,83m, na época dos juniores), mas apesar disso Borges foi o camisa 1 na Copa São Paulo de 2003, por exemplo. Os laterais eram bastante ofensivos: pela direita, Claudemir avançava com muita velocidade e foi destaque na Copa São Paulo, marcando três gols em uma mesma partida. Na esquerda, Diego era mais habilidoso e considerado o sucessor de Felipe, embora não fosse tão exímio driblador.

A zaga, composta por Jaílson e Wescley, era o ponto fraco do time: insegura e lenta, era constantemente socorrida por Ygor, volante cão-de-guarda. Thiago Jotta, que morreu tragicamente assassinado recentemente (e que jogava na Universidade Estácio de Sá), também chegou a ser titular em algumas oportunidades.

Ao seu lado, Coutinho dava certa qualidade na saída de jogo, embora fosse mais um jogador de raça do que de toque de bola. A partir daí, o time era só qualidade: Thiago Maciel era considerado o principal nome daquela geração, muito vertical, com facilidade em atuar até como segundo atacante. Morais cadenciava mais, tocando a bola e criando as jogadas. Alberoni, habilidoso e de ótimo chute, era outra opção. O ataque era pura força: Ânderson um centro-avante nato e Léo Macaé, além de veloz, possuía ótimo porte físico.

Separados pelo destino

Mas aquela Copa São Paulo de 2003 acabou se tornando o auge da carreira de muitos. Alguns foram dispensados quando a idade-limite estourou, e o clube – então se aprofundando em uma crise financeira – não quis firmar contrato profissional, como foi o caso de Rougger. A maioria, entretanto, chegou ao time de cima, mas teve um triste batismo.

Com o início dos pontos corridos, coincidiu a queda vertiginosa de produção do Vasco. A administração de Eurico Miranda colecionava críticas e problemas e os resultados no Campeonato Brasileiro eram terríveis. Sem dinheiro para contratar, a solução acabou sendo a “talentosa geração de 84”, que segundo muitos resolveria todas as situações negativas.

Entretanto, a inexperiência foi fundamental para que o time brigasse contra o rebaixamento até o fim do Brasileirão de 2004. Nomes como Jaílson, Claudemir, Coutinho, Thiago Maciel (recuado para a lateral) e Anderson acabaram queimados principalmente pela torcida, que vaiava em demasia a equipe.

Ainda assim, alguns chegaram a ser negociados. Alberoni foi vendido para a Internazionale aos 18 anos por 400 mil dólares, mas não se firmou e acabou voltando em 2006, mas sem ser aproveitado por Renato Gaúcjo, rodou por times da Série B. Wescley também foi para o exterior e Léo Macaé acabou emprestado.

Dos últimos remanescentes, Diego foi emprestado ao Goiás em 2007 e teve sua rescisão assinada em junho, acertando com o Figueirense. E Ygor, o segundo que mais jogou entre nos profissionais, foi levado para o Fluminense por Renato Gaúcho. Morais foi envolvido em uma confusa negociação com o Atlético-PR em 2004, mas acabou voltando tempos depois a São Januário de onde saiu há pouco. Sua saída, aliás, fechou o ciclo da geração 84 no Vasco – uma geração, como tantas, vitoriosa na base, mas que acabou por não se concretizar no profissional, pelos mais diversos motivos.

Ficha técnica:

Clube: Club de Regatas Vasco da Gama

Treinadores: Luisinho Rangel e Luiz Antônio Ferreira

Competição: Campeonatos Cariocas de base (Sub-13, Sub-15 e Sub-17), Copa Rio Sub-17 e Copa São Paulo 2003

Anos: 1997 a 2003

Escalação: Borges; Claudemir, Wescley, Jaílson e Diego; Ygor, Coutinho, Alberoni (Thiago Maciel) e Morais; Léo Macaé e Anderson

Fonte: Olheiros.net

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