Carlos Alberto é um dos primeiros jogadores a chegar a São Januário para a atividade do dia. Essa cena é comum no clube desde a contratação do camisa 19, em janeiro do ano passado. Ao fim do treinamento, o carro do capitão é também um dos últimos a deixar o estacionamento da Colina. Ele demora a sair do vestiário. Mas o esforço vem sendo ofuscado pelas lesões nesta temporada. Dos 44 jogos do Vasco em 2010, o meia só participou de 15. Um drama que vem incomodando o capitão cruzmaltino.
- Eu sofro muito se eu não estiver trabalhando. Preciso trabalhar isso na minha cabeça porque eu não consigo. Fiquei muito tempo sem jogar. Ano passado, participei da maioria dos jogos. Esse ano, eu voltava de uma lesão e tinha outra - disse Carlos Alberto.
Na terceira parte da entrevista exclusiva ao GLOBOESPORTE.COM, Carlos Alberto fala sobre os momentos que vêm vivendo no Vasco. Devido ao vasto currículo, poucos torcedores se lembram que o capitão ainda é jovem. Está com 25 anos. E ainda tenta controlar o temperamento. A enorme vontade de vencer fez o jogador ganhar a fama de indisciplinado. Com a camisa cruzmaltina, são 24 cartões amarelos e quatro vermelhos em 59 jogos. Mais do que qualquer zagueiro ou volante que tenha atuado pelo clube neste mesmo período. A última expulsão por reclamação, contra o Vitória, fez o técnico Paulo César Gusmão admitir que era necessário uma conversa.
- Tem coisas que você difere o homem do menino. Como homem, eu não tenho problema para falar de nenhum assunto. É assim que você mostra maturidade. Foi um erro, aconteceu e nós conversamos. O pessoal falou: o PC ficou chateado. E ele precisa ficar, ele é o treinador. No dia seguinte, me abraçou, me beijou. Ele cobra, mas sabe dar carinho. No papo, o PC disse: o grupo te ama porque correu daquele jeito por você. Eu vou recompensar quando eu tiver a chance de jogar. Ele falou isso na frente dos companheiros. Achei que o árbitro exagerou, mas eu tenho que me controlar e não reclamar.
Líder e símbolo do time na volta à Série A do Campeonato Brasileiro, o meia não se cansa de afirmar nas conversas com amigos e jornalistas que é o Carlos Alberto do Vasco. O passado tricolor, adversário deste domingo, no Maracanã, ficou no passado. Não desdenha de seu passado no Fluminense e de suas passagens por Botafogo, São Paulo, Corinthians, Werder Bremen-ALE e Porto. Mas São Januário é a sua casa, onde se sente feliz.
GLOBOESPORTE.COM: Você comentou outro dia que o momento mais difícil que viveu na carreira foi na Alemanha. O ano de 2010, por conta da sequência de lesões, também está sendo complicado?
CARLOS ALBERTO: Ficar lesionado é sempre complicado. Você precisa se superar, passar por aquelas questões de ser paciente com o seu corpo. Às vezes, eu quero voltar, mas os médicos falam para eu esperar, para eu ter calma. Eu sofro muito se eu não estiver trabalhando. Preciso trabalhar isso na minha cabeça porque eu não consigo. Fiquei muito tempo sem jogar. Ano passado, participei da maioria dos jogos. Esse ano, eu voltava de uma lesão e tinha outra. Tratava uma situação e não voltava porque a musculatura estava desequilibrada. Sofri muito com isso.
Ouviu insinuações de que era chinelinho?
CA: Isso eu já sei que é assim, mas é sempre bom relatar. As pessoas têm memória curta das coisas que você faz. Vira pó do dia para a noite. Quem me conhece e trabalha comigo sabe que eu gosto de treinar quando estou bem, sempre treinei muito. Ouvi meios de comunicação dizendo que eu estava de chinelinho. Teve um dia que eu fui para o campo ver o treino. Fico tão ansioso para voltar que só o fato de ver os companheiros treinando já me dá um conforto. Fui para o campo de chinelo e vi o treino sentado ao lado do campo. Escreveram que eu estava de chinelinho. Os meus amigos brincam: essa é a parte dura da história. A boa a gente já sabe. Hoje estou bem mais tranqüilo para isso, estou mais flexível para ouvir. Por tudo o que já aconteceu na minha vida, estou ouvindo ainda mais. Tem o ônus e o bônus.
O ambiente no vestiário é semelhante ao de 2009, muito elogiado no clube?
CA: O ambiente no Vasco sempre foi ótimo. A diferença do time do ano passado para esse é que temos muito mais qualidade. Não menosprezando a equipe do ano passado, que foi importante para a reconstrução do clube. Tínhamos uma equipe competitiva, mas faltavam jogadores como o Felipe, o Zé Roberto e o Eder Luís. Caras que vão dar um toque mais refinado à equipe. Vejo o Vasco completo na questão de jogo, de ambiente. Temos um time competitivo, forte fisicamente e com qualidade. É difícil unir duas coisas que o futebol precisa: força e qualidade técnica. Vejo o Vasco bem servido nessa temporada.
E o relacionamento entre as estrelas do Vasco?
CA: Essa preocupação é de fora. Nós não temos essa preocupação. O Felipe é um cara vivido, o Zé é a mesma coisa. São caras inteligentes e articulados. É fácil lidar com pessoas assim. A gente ri, se diverte, almoça junto. Quando dá, um vai na casa do outro. Nem com o adversário tem essa rivalidade. Claro que tem a vontade de ganhar o jogo, mas quando a partida acaba, um vai lá e abraça o outro. E é assim. Temos um ambiente bacana e é lógico que a posturas do dia a dia e as vitórias vão ter propiciar uma melhorar ainda maior nisso tudo.
E a sua relação com o Vasco?
CA: O meu casamento com o Vasco é perfeito. O pessoal diz que eu fui importante, mas o Vasco me deu muito mais coisas do que eu pude dar ao clube. Essa instituição mudou a minha vida, eu precisava ganhar títulos. O Vasco foi o meu grande desafio. Foi a grande oportunidade que eu tive para crescer. Muitos não quiseram vir. E hoje fico feliz de ver os torcedores do Fluminense, do Flamengo e do Botafogo afirmarem que eu sou o Carlos Alberto do Vasco. Isso é gratificante. Saio na rua hoje e vejo o pessoal com o meu cabelo. Isso é muito bacana. Outro dia até coloquei no meu filho (risos).
Qual foi o momento que percebeu que já estava casado com o Vasco?
CA: Tem vários momentos. Quando eu cheguei era para ficar seis meses, e o Vasco tinha apenas 12 jogadores. Na hora eu pensei: meu Deus do céu, nós não temos nem time. Onde eu fui me meter. O clube foi contratando um monte de jogadores, fui conhecendo os caras dentro do ônibus, todos me olhando. A viagem para o Espírito Santo já foi um clima de descontração bem legal e passado três dias, eu parecia que estava no Vasco há um tempo. No fim, eu vivi a situação do ônibus, com o time todo dentro, e pintou na cabeça de dirigir pelo quartel. Aquilo ali foi um momento especial e eu até brinquei no vídeo: próxima parada, Primeira Divisão. Esse foi o momento que eu pensei é aqui que eu tenho que ficar é aqui que eu tenho que me expor.
Falta um título para escrever de vez o seu nome na história do Vasco?
CA: Título sempre vai faltar. É sempre bom ter um a mais como brincamos com os troféus. Se eu puder passar na feira e comprar dez troféus, eu vou comprar para dizer que eu tenho mais. Título é sempre bom, nunca é demais. E a torcida do Vasco merece esse carinho, merece um título de peso. Não que a Série B não seja, mas era um momento importante de reconstrução. O nosso momento é de mostrar gratidão sempre. A torcida do Vasco só me emociona. No último jogo, eu fiquei chateado porque eu fui expulso, poderia ter prejudicado o time e o torcedor esteve sempre me apoiando. Na hora que vem a pancada, você precisa daquela mão que te dá carinho. Vendo o jogo contra o Prudente de casa, fiquei sofrendo. Quando estou em campo, eu luto por eles porque a torcida me devolveu essa alegria. Os torcedores me querem bem. É bom trabalhar em um lugar que você é querido.
E a expulsão contra o Vitória? O que realmente entre você e o PC?
CA: Tem coisas que você difere o homem do menino. Como homem, eu não tenho problema para falar de nenhum assunto. É assim que você mostra maturidade. Foi um erro, aconteceu e nós conversamos. O pessoal falou: o PC ficou chateado. E ele precisa ficar, ele é o treinador. No dia seguinte, me abraçou, me beijou. Ele cobra, mas sabe dar carinho. No papo, o PC disse: o grupo te ama porque correu daquele jeito por você. Eu vou recompensar quando eu tiver a chance de jogar. Ele falou isso na frente dos companheiros. Achei que o árbitro exagerou, mas eu tenho que me controlar, não reclamar. No ano passado, eu fiquei vários jogos sem levar cartão e ninguém falou nada. Mas foi eu levar um e buscaram cartão até dos meus tempos de Xerém (risos). Não fiquei chateado com o PC. Ele cobra, mas sabe a hora de passar a mão. Tem dia que você faz tudo certo e acontecem esses erros. Não sou bandido por causa disso, não sou marginal ou o pior dos seres humanos. É igual a um pai que ama o filho. Meu filho pode quebrar tudo aqui em casa, eu vou ficar louco para enforcar ele, mas não vou deixar de amá-lo porque é meu filho. Muita gente ficou me instigando para falar e eu não respondi nada. Não vivo a minha vida para os outros. Não falo coisas que interessam a outras pessoas. Não sou esse tipo de jogador, nem de homem. Meu caráter não é indefinido. Meu caráter é um só: o bom.
O que vai fazer para evitar cartões nas próximas rodadas do Brasileiro?
CA: Não vou abrir o bico, vou ficar mudo. Esse é o jeito. Se alguém quiser falar comigo (começa a fazer gestos), eu vou entrar em uma escola de sinais. A própria súmula me inocenta. Futebol para quem assiste do lado de fora é uma coisa, mas para quem participa e tem anseios é diferente. Na pelada com os meus familiares todo mundo quer se matar, mas depois está todo mundo no churrasco rindo, brincando. Temos que dar espaço para essa margem de erro. O maior líder que eu vi é o Rogério Ceni. É o que treina mais, o que trabalha mais e é o primeiro a servir, a ajudar. O Zé Roberto é assim, o Felipe é assim, e a garotada observa. Temos o entendimento que estamos participando da formação desses garotos. Talvez se esse grupo fosse montado há dez anos, nós poderíamos ter problemas. O Felipe meio maluco, eu, o Zé.
Quando viu o desempenho do Vasco contra o Grêmio Prudente, no último domingo, você se imaginou na equipe?
CA: Lembro o que eu falei em Mangaratiba, na praia: por que o Vasco está nessa situação?. Eu mesmo respondi: porque não temos mais jogos. Sabia que iríamos sair dessa situação de forma natural. É a mesma coisa que você ir para a guerra e não ter soldados. Você vai para a guerra morto. Pode entregar a bandeira, dar o país. Temos um grupo bom, resolvemos os problemas de lesão. Erramos até onde podíamos errar.
O Vasco briga de igual para igual com os adversários, inclusive com o líder Flu?
CA: Vamos enfrentar todo mundo de igual para igual, eu te asseguro. Não sei se vamos ganhar todo mundo, mas peitar de igual para igual nós vamos peitar todo mundo.