Confira entrevista com o vascaíno Fernando Horta

16/09/2012 às 21h19 - POLÍTICA



Segunda-Feira, 10 de Setembro de 2012. Chegava o fim de mais uma história que vai ficar na memória eterna dos vascaínos. Em um pouco mais de um ano, Cristovão marcou seu nome, não apenas pela situação em que comandou o time ano passado, mas também pelo seu êxito a frente da equipe cruz-maltina: recorde de rodadas consecutivas no G4, melhor aproveitamento na era dos pontos corridos.

Junto com sua saída, começava uma semana atípica no Vasco. Na busca de um novo treinador, Dinamite se viu em mais uma situação difícil: O Vice-Presidente de Futebol, José Hamilton Mandarino, pediu dispensa, enviando uma carta ao presidente cobrando mudanças drásticas no clube.
No último jogo, Vasco x Palmeiras, a torcida protestou, pedindo novas contratações e a cabeça de Daniel Freitas (Diretor Executivo de Futebol). Com tantos conflitos internos, Dinamite tenta contorná-los na tentativa de demonstrar que tem capacidade de gerir o clube.

Mesmo após o rebaixamento do Gigante em 2008, Roberto não vive uma crise política tão grande. A má administração e o desleixo com o clube são as principais críticas feitas por Fernando Horta, atual Presidente da escola de samba Unidos da Tijuca, e futuro candidato as eleições do clube daqui a dois anos. Nascido em Lexia, Portugal, Fernando é o principal nome cotado pela oposição para substituir o atual presidente. E é com ele que conversamos.

CasacaBlog: Fernando, após a eleição de Dinamite em 2008, seu nome foi um dos mais cotados para entrar na disputa nas eleições seguintes em 2011, entretanto no início daquele ano você desistiu, alegando que algumas divergências entre você e Eurico Miranda. Para as próximas eleições, novamente você já deixou claro sua vontade de concorrer. Qual a influencia de Eurico nessa decisão? Ele vai participar diretamente da sua gestão, caso eleito?

Fernando Horta: Eu conheço ou Eurico, não apenas ele, mas todos esses ex-presidentes do Vasco, desde 1970. Sou sócio do Vasco desde 1969. Porém a amizade não faz parte da administração, tanto é que participo internamente do clube esses anos todos, mas nunca fui favorável à política que eles apresentaram dentro do Vasco, o que não queira dizer que não sou amigo do Eurico, ele tem qualidades e defeitos como todo ser humano.

Então na altura que realmente a oposição achava que eu seria o candidato ideal, começou a ter umas imposições de reivindicação de cargos. Eu acho que o Vasco não é uma Prefeitura, um Estado, uma nação, ela não tem que reivindicar cargos. Já não estava muito bem de saúde, e então achei que não era a hora certa de me tornar candidato. Mas para as próximas eleições, sou candidato, que é uma vontade que tenho. Não apenas vontade, me sinto capaz também. Dar a minha contribuição ao Vasco e torná-lo o maior clube do Brasil, inclusive prometendo que se esse administrador atual que está lá, sair mais rápido, pago a dívida do Vasco em 3 anos.

CasacaBlog: Uma das maiores crítica na gestão Dinamite é a administração da base. Como você vê a atual situação dos futuros craques de São Januário? Quais as mudanças possíveis na base?

Fernando Horta: Acho que a base do Vasco nunca esteve tão resguardada com interesses pessoais. As pessoas que estão lá, defendem interesses financeiros pessoais. Aquilo tem que ser modificado. Acho que agora estão tomando uma atitude, depois que falei, já dispensaram um monte de pessoas que estavam lá. É o patrimônio do Vasco é a base do Vasco. Essa base é coberta por interesses financeiros de algumas pessoas, e isso tem que ser vigiado de perto. É o primeiro ponto fundamental para alguém tomar conta do Vasco.

CasacaBlog: Fernando, você é conhecido como o principal responsável pela ascensão da Unidos da Tijuca no carnaval carioca. Caso ganhe as eleições, como pretende dividir as atenções entre dois gigantes?

Fernando Horta: Sou conhecido entre aspas. Sou conhecido realmente no meio do povão mais pela Unidos da Tijuca, mas dentro do Vasco não. Dentro do clube, sou Benemétrio desde 2000, sou uma pessoa que dentro da colônia e dentro do Vasco sou conhecido, tanto que eu não aconteci por acaso. Sou empresário desde 1970. Tenho feito muito coisa pelo Rio de Janeiro. Sou Cidadão Carioca, Cidadão Rio de Janeiro, sou Comendador, comenda dada pelo Fernando Henrique Cardoso Barão de Rio Branco, tenho obras sócias aqui na Tijuca. Não sou uma pessoa que passa despercebido dentro da sociedade, tenho feitos muitos trabalhos sociais.


Então logicamente que a Unidos da Tijuca deu uma projeção maior. Quem conhece sabe que a Tijuca era uma escola, não por apenas ter sido campeã em 1936, era uma escola que não tinha pressão dentro do bairro, uma escola que lutou para nunca desaparecer, uma escola sempre financiada pelos trabalhadores e industrias do bairro, que foram eliminadas, e nós vemos fazendo um trabalho a longo prazo, com ajuda de alguns amigos, juntando administradores que eu tenho, hoje a Unidos da Tijuca é a maior do Rio de Janeiro, e talvez do Brasil. Uma escola que tem uma estrutura grande, referencia entre autoridades, da Prefeitura. Eu acho que é a única escola que chegou no final do Carnaval 2012, alem de ser campeã, ficou com fundo de caixa.

CasacaBlog: Nessa semana, José Mandarino pediu demissão da Vice-Presidência de Futebol, alegando que rápidas e drásticas mudanças no clube precisam ser realizadas. Concorda com Mandarino? Que mudanças você vê que são essenciais para o momento do Vasco?


Fernando Horta: O gozado é que eu dei uma entrevista a um jornal, isso causou uma bomba, inclusive disseram que iriam me processar. Não sei pelo que vão me processar. Isso porque acusei o Mandarino, Peralta ( Vice-Presidente Geral/Comunicações), Roberto Dinamite, Nelson Rocha( 2º VP Geral), não só eles, mas as pessoas que estão à frente do Vasco, que o povo conhece. Agora estão vindo de encontro com o que eu falei, que eles ficaram chateados, querem me processar pelo que falei, e o próprio Vice-Presidente que foi acusado por mim também, diz que se pressionado vai falar coisas. Então eu estava certo. Ainda bem que falei na hora certa, que eles tomam uma atitude, que nunca é tarde para se tomar uma.

CasacaBlog: Não apenas o Vasco, mas os clubes brasileiros em uma maneira geral, nos últimos anos vêem sofrendo com altas dívidas. No ultimo mês, o ex-jogador Romário entrou com uma ação contra o clube, cobrando mais de R$ 56 milhões. Essa dívida que o Vasco tem é reversível? Como pretende saná-la?


Fernando Horta: Não vou discutir se essa dívida foi causada por má administração. Em 2007 houve uma confissão de dívida, do Vasco com Romário, em que o Conselho Fiscal, órgão que administra as constas do Vasco, concordou depois o Conselho Deliberativo homologou a dívida. Então dívida que existe a confissão, para mim passa ser indiscutível. Foi feito um acordo em que o Romário recebia cerca de R$150 mil por mês, e ficou para pagar em 10 anos. Esse dinheiro vinha sido pago. Quem tinha ficado avalista dessa dívida era o Clube dos 13, então quem pagava ao Romário era o Clube dos 13. Quando essa administração nova entrou, achou que não deveria pagar, e informou ao Clube dos 13 que não pagaria mais, tanto é que não é mais eles que administram os direitos autorais da televisão. Conclusão, quando o Vasco deixou de pagar, só havia um débito de cerca de R$ 16 milhões, com o Romário, agora isso veio a tona e está em R$ 50 milhões. Não só esse compromisso, mas outros que havia, eles se negaram a pagar. É muito fácil ser Presidente de um clube, ou de qualquer instituição, e dizer que não vai pagar as dívidas que têm. Ele tem que ter capacidade de renegociar isso, não é só dizer simplesmente que não vai pagar. É um erro fundamental na administração dele. Não só essa dívida do Romário, mas todas, quando a administração anterior, do Eurico, deixou o Vasco, havia um débito de R$ 187 milhões, e hoje o débito, após 3 anos ou 4, está em R$ 500 milhões. Até os débitos anteriores que estavam sendo administrados, e parcelados, impostos, eles deixaram de pagar, as dívidas voltaram com correção e têm que ser pagas no ato, pois acho complicado fazer outra renegociação de dívidas.

Por isso o Vasco não recebe o dinheiro da Eletrobrás, ela não consegue uma certidão negativa. Não sei o que isso vai dar no futuro, pois a Eletrobrás está pagando através do sindicato, e o Vasco em cada parcela em que recebe através do sindicato, perde R$ 2 milhões, mas isso não vem a público. Essa administração do Vasco e uma vergonha, lamentável. Até o Vice Presidente Financeiro, quando foi Secretário da Fazenda do Estado, foi a única vez que o Estado não pagou o 13º aos funcionários, por ser um péssimo administrador.

CasacaBlog: Em uma entrevista à uma rádio, Eurico Miranda fez a seguinte colocação: “Dinamitex é uma putaria, é do Dinamite, dos familiares dele e dos amigos dele. é uma suruba!”. Essa informação é verdadeira? Você vê o Vasco de Dinamite como cabide de emprego?

Fernando Horta: Isso é outra sem-vergonhice. O Vasco fechou a marca com uma empresa. E foi aberta uma concorrência para a concessão de franchise das lojas. Quem são os donos das franchises? Os diretores do Vasco, os Vices-Presidentes: Nelson Rocha, a filha do Roberto Dinamite, a mulher de Nelson Rocha, que é secretária do Olavo Monteiro de Carvalho. A coisa ficou em família. Quero saber no futuro, quando você sentar com o dono da marca, como você vai defender os interesses do clube, se os próprios interessados são os próprios Vices-Presidentes? É um negócio deselegante, que não é lógico, uma coisa que fica feia. Eles não olham o lado do Vasco, olham seu lado pessoal. Além do nepotismo que tem, não quer dizer que parente não tenha capacidade, mas é uma coisa antiética.
E não é só isso.

Tem uma coisa que queria que ele viesse a público esclarecer. Um fundo de investimento dentro do Vasco. Não sei quem é esse fundo de investimento, isso nunca ficou claro, que tem uns Vices-Presidentes e outras pessoas de fora interessadas no Vasco, que tem um fundo para compra e venda de jogador. Isso tem que se tornar claro! De quanto é esse fundo? Quem são esses investidores? Que jogadores que eles comprar e vende? É um negócio muito estranho. Se fosse a coisa honesta, se tornaria público, por que não tornam isso público? Por que está fechado na gaveta?

CasacaBlog: Esse fundo teria sido usado para compra do Bernardo?

Fernando Horta: Eu não sei se foi usado na compra do Bernardo, mas que foi usado para comprar esse garoto Pipico e outros ai.

CasacaBlog: Logo após do rebaixamento, Roberto contratou Rodrigo Caetano como Direto de Futebol. No final de 2011, Caetano acertou sua saída para o Fluminense. Dinamite efetivou o então supervisor de futebol, Daniel Freitas, para a função. Por ser taxado de inexperiente, Dinamite é muito cobrado por deixá-lo no cargo. Como você vê o papel de Daniel Freitas? Acha que ele tem competência para estar em um lugar tão alto do clube?

Fernando Horta: Não podemos nem falar do Roberto Dinamite. Eu o acompanhei desde garoto, tem mais ou menos a minha idade, e foi um bom atleta do Vasco, um ídolo, embora eu Fernando Horta nunca tenha o considerado o maior ídolo, pois ele nunca foi campeão pelo Vasco, ou melhor, nunca deu um título ao Vasco. O Vasco nunca foi campeão com um título do Roberto. O Vasco foi campeão com Jorginho Carvoeira, Alcir, Cocada, uma série de outros, agora dizer que o Vasco foi campeão com Roberto Dinamite, não foi. Poderia levar o Vasco a algumas decisões, mas em jogo decisivo nunca fomos campeões, isso é só pegar a história do Vasco.

Mas o Roberto não tem culpa. Culpa tem que o colocou lá, o Roberto Dinamite foi jogador de futebol, agora ele é político e o negocio dele é fazer ação entre amigos. Se está certo ele botar fulano... É uma ação entre amigos, só tem amigos dele lá... Então quem faz uma administração entre amigos não pode dar muito certo. É sobre, filho, sobre genro.

Segundo me consta, o Mandarino saiu por causa do genro do Roberto, que é flamenguista. Eu como vascaíno, tenho as minhas dúvidas em saber se o Roberto é vascaíno ou botafoguense. E é assim que está o Vasco. O Vasco está administrado por pessoas que não tem paixão pelo Vasco, não têm raízes vascaínas. Ele tem que saber que tem que se doar ao clube, e não o clube a ele. Não pode ir para lá pensando em benefícios próprios. Enquanto o Vasco não tiver novamente essas pessoas lá, até mesmo no futebol armador, que tem que ter uma gestão junto com o profissional, vai ser difícil porque essas pessoas não têm compromisso com o Vasco. Além de tudo não são cobradas por vascaíno. Eu ando na rua, sou cobrado, as pessoas me cobram. Agora as pessoas que estão lá, que tanto faz o Vasco perder ou ganhar, ninguém conhece, a não ser o Presidente. O Roberto é conhecido, mas quem está em volta dele não. Não são pessoas públicas, não tem compromisso com a nossa comunidade vascaína.

CasacaBlog: O Vasco está em 4º lugar do Brasileiro, e acabou de trocar de técnico. Como vê o atual time? Acha que temos chances de sair com o título?

Fernando Horta: Não sei. Estava torcendo muito, porque o Vasco tem camisa, e nós temos sorte de ter São Januário funcionando. E o futebol brasileiro está nivelado por baixo. Mas infelizmente colocaram a culpa em cima do técnico, que não era técnico, é o que menos tem culpa nisso ai. Quando você tem um time mais ou menos limitado, e você vende/se desfaz da metade do time, fica realmente complicado continuar na competição com o mesmo nível. Mas vamos torcer, vejo as coisas negras. Vamos torcer para ficar entre os 4, o que eu acho complicado, mas vamos torcer. Nunca perdemos a esperança como vascaínos.


CasacaBlog: E para finalizar, deixe seu recado para a torcida vascaína!

Fernando Horta: O recado que tenho para a torcida é que ela tem que cobrar. Cobrar dentro de uma moralidade, não é depredar o patrimônio do Vasco, nem na violência. As pessoas tem que ser pressionadas. A gente só vai conseguir alguma coisa, só vão levar o Vasco até a final, se pressionar, eu fiz uma pequena pressão agora e já começaram a mexer. Estou falando da torcida. Torcedor do Vasco, e não aquela que está interessado em ingresso e outras coisas.

Fonte: Casaca Blog