Maracanã: O jogo que ninguém viu

20/01/2006 às 10h24 - FUTEBOL

Quando os refletores do Maracanã se acendem o time já está em campo. Não é ansiedade; é necessidade. Enquanto outros estádios da cidade recebem a segunda rodada da Taça Guanabara, Alex Mathias, Ozenil Vieira, Pedro Veras, Marcos Nunes e dezenas de outros operários disputam outra partida no templo maior do futebol. Com capacetes e botinas no lugar de chuteiras, eles vão varar a madrugada para serem substituídos no domingo por jogadores de Vasco e Botafogo no clássico de reabertura do estádio.

É quarta-feira à noite e as arquibancadas estão vazias. No jogo dos operários não tem o canto das torcidas como trilha sonora. O barulho ali é enervante: betoneiras, tratores e britadeiras tomam o espaço antes ocupado pelos geraldinos. Mesmo que as regras de segurança permitissem, seria impossível ouvir pelo rádio as partidas do time do coração em outro estádio.

- O jeito é perguntar ao vigilante quanto está o jogo na hora em que a gente vai beber água. Eles têm uma televisãozinha lá - conta o tricolor Pedro, que usou o artifício para tentar acompanhar a goleada do Fluminense sobre o Nova Iguaçu.

Nos jogos, operário vira ambulante

Ajudante de obras desde que chegou do interior do Piauí, há sete anos, Pedro é do turno do dia, mas quarta-feira à noite foi convocado para trabalhar até mais tarde. Perdeu a cerveja gelada com futebol de aperitivo, mas não o espírito esportivo. Lembra que o sol tem aparecido inclemente no Rio e, na madrugada do Maracanã, dá até para sentir uma brisa fresca.

- No Piauí, eu ficava vendo os jogos do Fluminense no Maracanã pela TV. Quando ia imaginar que um dia pisaria nesse gramado?

Em busca da sobrevivência, esses jogadores se reúnem por empreitada, como uma equipe de aluguel. Muitos já se conheciam de obras passadas, como o Rio Cidade de Marechal Hermes. É como se reencontrassem um ex-companheiro de clube. Mas ali mesmo no Maracanã eles já podem ter-se cruzado. São freqüentadores da arquibancada, esgoelam-se por seu time de coração ou até arrumam outra forma de faturar no estádio. Quando não está a serviço de uma obra, o rubro-negro Alex vende biscoitos de polvilho na arquibancada.

- Já tirei até foto para provar aos meus vizinhos lá de Acari que pisei nesse gramado. Senão eles iam dizer que era mentira - conta o auxiliar de serviços gerais, cujo expediente vai das 18h às 6h.

Marteleiro da obra já foi jogador

No canteiro de obras, o orgulho de trabalhar no Maracanã não é ofuscado pela pressa permanente - o plantão da madrugada só foi instituído para que tudo ficasse pronto até domingo. Muitos levaram um pedaço do gramado antigo para ficar de recordação em casa. Mas como grama só enche barriga de bovinos, ninguém ali esconde que o bicho da madrugada também é tentador. Depois das oito da noite, a hora extra dobra e chega quase a R$ 8. Quem é do time da madrugada ganha adicional noturno.

O adicional da tietagem fica por conta de cada um. Viciado em radinho de pilha, o pintor botafoguense Marcos gostou de saber que estava dando um capricho na cabine do locutor José Carlos Araújo, da Rádio Globo:

- E já me disseram que aquela cabine maior ali é a do Galvão Bueno. Olha a onda...

Onda maior tiraria o marteleiro Ozenil se conseguisse realizar o sonho de infância. Ele, que quarta-feira não pôde acompanhar a vitória do seu Vasco sobre o Volta Redonda porque estava trabalhando, já sonhou com um papel de maior visibilidade no Maracanã. Jogou nas divisões de base do Madureira, tentou a sorte no Flamengo, mas a necessidade e uma filha pequena o obrigaram a disputar jogos que só acabam quando o dia está amanhecendo. Mesmo na vida real da construção civil, Ozenil mantém a certeza de que, de alguma forma, faz parte do sonho.

- Se a gente não trabalhar no domingo, vou aparecer aqui só para ver o meu Vascão jogar.

Fonte: GloboEsporte.com