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Opinião: Jornalista explica processo de democratização da politica do Vasco

04/12/2019 às 20h28 - CLUBE

Em questão de uma semana, a mobilização da torcida do Vasco fez com que o programa de sócios-torcedores cruzmaltino passasse dos 150 mil membros. Não foi a primeira vez que vascaínos se uniram para ajudar o clube – antes disso, houve campanhas para construção de centro de treinamento e pagamento de dívidas, sem falar na construção de São Januário. Tristemente, no entanto, em paralelo ao Associa Vasco, as pessoas por trás da instituição insistem em excluir o torcedor.

Grupos políticos vascaínos estão levando adiante uma reforma política, por meio de mudanças no estatuto cruzmaltino. A votação está marcada para a noite desta quarta-feira. Roberto Monteiro, presidente do Conselho Deliberativo, é o principal defensor da proposta.

As pessoas que propuseram essa reforma souberam jogar com as palavras. Ao defender que sejam adotadas eleições diretas para escolher o presidente, pode parecer que o Vasco avança, em seu sistema eleitoral, na direção da democratização do clube. Mas é só fachada.

A reforma política institui a obrigação de pelo menos oito anos de associação e três de Conselho Deliberativo para que alguém se candidate a presidente – no total, se não for conselheiro logo, esse sujeito pode precisar de até 11 anos de associação para se candidatar. Hoje o estatuto exige apenas cinco para que alguém se habilite.

Ao aumentar a limitação para que alguém se candidate à presidência, os defensores da proposta vão no sentido contrário à democratização. Eles evitam que haja oxigenação dos quadros políticos com a chegada de novos administradores. Feito sob medida para quem já está no clube.

A reforma política também aumenta o tempo necessário de associação para que alguém possa votar. Se hoje o sócio precisa de apenas um ano para que tenha direito a escolher o mandatário do clube, depois da proposta esse mínimo sobe para três anos.

Roberto Monteiro tem desculpa para a proposição. Ele diz que o aumento do tempo mínimo é um modo de defender o clube de potenciais mensalões. Com um ano de exigência, é possível que alguém com dinheiro na mão coloque dezenas de laranjas para manipular o resultado das eleições. Com três, esse alguém precisará de muito mais dinheiro, então a chance de interferência externa reduz.

Na prática, a base eleitoral diminui. Torna-se mais facilmente manipulável por quem estendeu sua influência na carcomida política vascaína ao longo das últimas décadas. Como o próprio Monteiro.

Se a política do Vasco quisesse realmente reduzir a possibilidade de mensalões, em vez de reduzir a base eleitoral, poderia aumentá-la. Por que não abrir o voto aos 150 mil sócios-torcedores?

Se o Vasco quisesse reduzir a possibilidade de associações compradas para influenciar eleições, poderia seguir o caminho contrário. Em vez de reduzir a base eleitoral, aumentar. Por que não dar aos mais de 150 mil sócios-torcedores o direito de votar? Alguém disposto a subverter o sistema precisará de fortunas para comprar tanta gente.

Sócio-torcedor, que nada. A reforma política em andamento proíbe textualmente o direito a voto ao sócio-torcedor. Os mais de 100 mil torcedores que aderiram ao Associa Vasco, na última semana, serão vetados de participar do sistema eleitoral pelo estatuto do clube.

Outra medida pensada para reduzir a base eleitoral do Vasco é retirar a modalidade mais barata de associação cruzmaltina, a do sócio geral. Ela deixará de existir se a proposta for à frente. Ao elitizar o acesso ao quadro social que realmente tem poder de voto, justo em um dos clubes mais populares do país, a política vascaína conseguirá aquilo que realmente quer: manter o poder entre os que lá já estão.

Há mais absurdos. De acordo com a reforma em questão, o Conselho Deliberativo proibirá a venda de camarotes por período superior a dois anos. A reforma de São Januário pensada pela atual diretoria, de Alexandre Campello, está baseada justamente na venda dos camarotes para conseguir dinheiro, e a comercialização deles por cifras relevantes obviamente extrapola os dois anos. O Conselho Deliberativo também quer delimitar quais vices-presidências devem existir, entre outras decisões que competem – ou deveriam competir – à diretoria executiva.

Enquanto o torcedor manifesta o interesse em reerguer a instituição do estado falimentar e constrangedor ao qual foi submetida, dirigentes o tratam como mero consumidor.

A torcida do Vasco dá exemplo quando se mobiliza, de maneira orgânica e sem precedentes, e faz com que o clube tenha o maior quadro de sócios-torcedores do Brasil. Diante de uma política que não consegue se comportar à altura. Enquanto o torcedor manifesta repetidamente o interesse em reerguer a instituição do estado falimentar e constrangedor ao qual foi submetida, dirigentes o tratam como mero consumidor.

Associe-se, eles dizem. Mas não queira participar da vida política do clube para o qual torce. Os donos dele não desistirão do poder.

Fonte: GloboEsporte.com