Portugueses detalham perfil de Ricardo Sá, alvo do Vasco

13/10/2020 às 17h43 - FUTEBOL

O Vasco encaminhou o acerto com Ricardo Sá Pinto e está próximo de confirmá-lo como seu novo treinador. Mas quem é o português escolhido para substituir Ramon Menezes? Ex-jogador do Sporting e da seleção portuguesa, com passagens em seis países como técnico, ele está próximo de se aventurar pela primeira vez no futebol sul-americano.

E exatamente pelo fato de não ser muito conhecido pelas bandas do hemisfério sul, o ge decidiu ouvir quem acompanhou a trajetória de Sá Pinto de perto, como jogador e treinador. Conversamos com jornalistas portugueses, que falaram sobre carreira, questões táticas e o extracampo do treinador de 48 anos.

É um pacote completo. Embora Sá Pinto não esteja na primeira prateleira de treinadores portugueses, certamente é um grande personagem do futebol local. O recente trabalho no Braga, seu último emprego, é uma boa referência. A atuação enérgica à beira de campo, o estilo ofensivo de jogo e o temperamento explosivo também são citados por todos.

Sá Pinto coleciona confusões. Quando jogador, chegou a agredir o técnico da seleção portuguesa que o deixou fora de uma convocação e, nos tempos de diretor, trocou socos com Liedson (relembre o caso). Relatos, no entanto, dão conta de que, apesar de explosivo, Sá Pinto costuma ser muito próximo de seus jogadores. Ele cobra, mas ganha o vestiário.

 

Apesar de nunca ter trabalhado no Brasil, Ricardo Sá Pinto encontrará um ex-comandado. Aliás, um atleta que indicou para uma das equipes que treinou. Após o meio-campista Carlinhos se destacar em 2017 pelo Estoril, de Portugal, Sá Pinto, então treinador do Standard Liège, da Bélgica, pediu sua contratação. O brasileiro teve sequência com o português e marcou três gols e deu três assistências durante a temporada.

Em entrevista concedida ao jornal lusitano "A Bola" em dezembro do ano passado, o hoje vascaíno Carlinhos revelou que o telefonema de Sá Pinto foi fundamental para trocar o futebol português pelo belga. À época, o Benfica e o Braga também queriam contratá-lo.

- Houve contatos (do Benfica). Falei com o treinador (que à época dirigia o Benfica), o Rui Vitória. Ele me ligou, e estávamos para ir eu e o Bruno Gomes, que também estava no Estoril. Mas o Benfica só queria os dois, e o Bruno acabou por não ir. Nesse período, recebi uma ligação do Sá Pinto para me transferir para o Standard Liège e acabei por sair de Portugal - afirmou Carlinhos ao "A Bola".

Se vai dar certo ou não, é cedo para dizer. Mas o Vasco está próximo de contratar um grande personagem, uma figura que mudará radicalmente o dia a dia do clube e trará muitos holofotes para a Colina.
 

Veja os depoimentos de jornalistas sobre Sá Pinto

João Almeida Moreira, correspondente de A Bola no Brasil

"É uma carreira atribulada. Em Portugal, ele treinou um clube histórico meio decadente que é o Belenenses. Vamos tentar comparar: é uma espécie de Portuguesa-SP ou América-RJ. Um clube com muita tradição, mas que não tem obtido muitos resultados. Treinou e não teve muito sucesso no Belenenses.

Depois treinou o Braga, que foi o último trabalho dele. É um clube que tenta ser a quarta força do futebol português. Clube que até sonha ser campeão nacional, e ele também não teve muito sucesso.

E trabalhou no Sporting, que é um dos grandes e o clube com o qual ele tem ligação sentimental. Foi um jogador histórico do clube. No Sporting, ele conseguiu chegar à final da Taça de Portugal, o equivalente à Copa do Brasil. Mas perdeu para a Académica, que é um clube inferior.

Chegou à semifinal da Liga Europa, o que foi um feito, sinal de trabalho bem realizado, mas acabou com o gosto amargo de não chegar à final. Isso foi no ano de estreia (2012) e acabou por sair por maus resultados.

No estrangeiro, andou por mercado não comuns, esteve no mercado árabe por algum tempo. Esteve na Polônia, na Sérvia, onde treinou o Estrela Vermelha, que é o maior clube local. Começou bem, mas saiu em conflito com os dirigentes.

Esteve também na Bélgica, onde havia jogado um pouquinho. Acabou por ganhar uma Copa da Bélgica, que foi considerado talvez o maior sucesso dele como treinador.
 

Logicamente não vou dizer que é uma carreira fracassada, mas também não posso dizer que é uma carreira de treinador de sucesso. É uma carreira atribulada. Agora no Vasco vamos ver se terá um renascimento.

A carreira dele como jogador é mais forte. Teve cerca de 50 jogos pela seleção portuguesa, é um ídolo do Sporting. Nunca foi considerado um craque, mas, por morrer em campo e por ser um atacante capaz de dar carrinho no campo defensivo, sempre ganhou muito amor da torcida do Sporting.

Não só da torcida do Sporting, mas de todos os clubes pelo qual passou. Acredito que ele em breve vai ser um vascaíno fanático. Isso é uma característica dele. Essa maneira de ser dele também traz muito problemas. O mais conhecido de todos foi em 26 de março de 1997, logo depois da convocação do Artur Jorge, que era o treinador da seleção portuguesa.

O nome dele não constou, até aí tudo bem, só que no primeiro dia de treino da seleção surgiu uma notícia no jornal de que ele não tinha sido convocado por uma suposta indisciplina num jogo anterior.

Revoltado, ele faltou ao treino do Sporting e foi ao treino da seleção, que era próximo. O estádio do Sporting fica a uns 20 minutos do Estádio Nacional. E socou o Artur Jorge. Deu dois socos no Artur Jorge antes de o treino começar. Isso foi um escândalo incrível, ele ficou suspenso por um ano do futebol português, teve que ir para a Real Sociedad.

Outro detalhe para ver a ligação dele com o Sporting é que a Juventude Leonina, a principal organizada do Sporting e uma das principais de Portugal, ia ver jogos dele na Espanha só para apoiá-lo.
 

Não era um craque, mas ganhou uma ligação com o clube imensa. Teve também problemas com o Liedson, que foi ídolo do Sporting, do Corinthians e do Flamengo. Quis bater um pênalti, tirou a bola das mãos do Liedson.

Quando foi dirigente do Sporting, teve confusão com Liedson. Parece que houve troca de socos. E há outros casos que o sangue quente do Sá Pinto trouxe problemas para ele. Mas, se tudo caminhar bem, os vascaínos podem ter certeza que terão mais um vascaíno para torcer para o Vasco. Até mais para torcer do que treinar".


Pascoal Sousa, jornalista de A Bola

"No Braga, último clube que treinou, ele fez uma campanha sensacional na Liga Europa, em um grupo muito difícil, fez a melhor pontuação da história do clube na Liga Europa. Fez também uma campanha muito boa na Taça da Liga. O problema foi que, pelo fato de fazer muito esforço na Liga Europa, o Braga não foi bem no Campeonato Português, teve dificuldades em somar pontos, principalmente contra equipes que jogavam fechadas, quando o Braga teve dificuldades em impor seu jogo

Em termos de sistema tático, o Sá Pinto joga sempre no 4-2-3-1. É um modelo que ele mais gosta, muda eventualmente, mas é raro. Ele gosta de usar um camisa 10, um volante mais ofensivo, o que é algo raro por aqui. Ele gosta de jogar com extremos bem abertos. Pelo o que vi do Vasco contra o Flamengo, acho que é uma equipe que ele pode ir bem, mas precisará trabalhar a defesa, especialmente o posicionamento sem bola. Nisso ele é bastante exigente.

No Braga ele teve o mérito de apostar no Trincão, que é um jogador que acabou vendido por 31 milhões de euros para o Barcelona. Com Ricardo Sá Pinto, o Trincão começou a jogar com mais regularidade no Braga.


FIiipe Dias, jornalista de O Jogo
 

"Sá Pinto é um nome importante do futebol português, foi um grande jogador e é um treinador que eu acho que tem qualidade. Mas as coisas foram sempre um pouco ofuscadas tanto no tempo em que jogava como agora no tempo em que ele treina por alguma instabilidade, por polêmicas e por ser altamente emotivo.

Isso desde quando era jogador. E, quando foi diretor do Sporting, ele teve problemas graves que lhe custaram muito para recuperar a própria imagem.

Ele tem tido uma carreira acidentada, mas com algumas coisas interessantes também. Como treinador, ganhou uma Copa da Bélgica pelo Standard de Liége, fez um bom trabalho.

No ano passado, esteve no Braga e teve um bom início de temporada. No Campeonato Português, as coisas não estavam muito bem, mas ele estava a fazer uma boa campanha europeia. A demissão dele foi um pouco surpreendente. Percebeu-se perfeitamente que o presidente do Braga queria mais.

O Sá Pinto, pelo que eu sei, achou que a carreira dele como treinador estava ameaçada. Agora ele tem uma oportunidade no Brasil. Como sabemos, não é muito usual treinadores portugueses no Brasil. Tivemos o Jorge Jesus, que veio a quebrar um pouco essa barreira.

O Sá Pinto não é um treinador tão experiente quanto Jesus. É muito mais novo, mas quem sabe não pode ser uma oportunidade interessante para ele relançar a carreira?

Há uma coisa que me parece óbvia. As pessoas não são boas por ser daqui ou dali, mas a verdade é que o treinador português está muito bem cotado. E já não se sente a presença dos treinadores brasileiros (aqui em Portugal), como acontecia nos anos 70, 80 e 90. O treinador brasileiro perdeu carisma, peso e força no mercado pelo mundo. E o treinador português está um pouco na moda.

Vou ficar muito curioso para acompanhá-lo se acertar no Vasco. Tem qualidades técnicas e táticas. Já tinha como jogador, e ele foi mesmo muito bom jogador. Agora parte muito da imprevisibilidade do temperamento dele. Mas Sá Pinto é boa gente. Ele tem bom caráter. Vibra muito com as coisas, mas não é má pessoa. Ele é intempestivo.

A matriz do Sá Pinto passa tudo por aquilo que ele já era como jogador. Além de ser um jogador tecnicamente bom, era extremamente competitivo, aguerrido e agressivo. Agressivo em campo, mas não violento. Era intenso, era um lutador. A torcida do Sporting se apaixonou rapidamente porque ele não dava uma bola como perdida, era incansável no campo.

Gosta de ter uma defesa compacta, forte. Especialmente no centro da defesa gosta de ter uns bons xerifes. Gosta de ter um meio-campo muito unido, mas acima de tudo gosta de equipes solidárias e que façam boas transições ofensivas. E que sejam, acima de tudo, agressivas e incisivas".

*André Gallindo e Gustavo Rotstein colaboraram com essa reportagem.

Foto: ReproduçãoRicardo Sá Pinto
Ricardo Sá Pinto

Fonte: ge