Futebol

Ramon Menezes relembra passagem pelo Vasco

Ramon Menezes falou pela primeira vez após três meses da sua saída da CBF. O treinador passou três dos dez anos da carreira como comandante trabalhando diretamente na sede da entidade, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, e agora se diz pronto para voltar ao mercado após as experiências à frente das seleções brasileiras. Campeão de três torneios com o Brasil, Ramon fez um balanço do período, explicou as eliminações e apontou caminhos para recolocar o país no topo novamente.

Ídolo do Vasco, o ex-jogador abriu as portas de casa para uma entrevista exclusiva de quase duas horas ao Área Técnica, quadro do ge. Na conversa, montou sua seleção ideal, falou sobre sua relação com o Vitória, destacou a importância tática de Vitor Roque, exaltou o papel de liderança do volante Andrey Santos e explicou como a falta de jogos preparatórios comprometeu o desempenho da seleção sub-20.

Após a eliminação na primeira fase do Mundial sub-20, Ramon Menezes foi desligado do comando da equipe no início de outubro de 2025. De acordo com o técnico, ele imaginava que poderia sair da CBF após o torneio. Só não esperava que o comunicado viria por telefone.

- Eu acho que é o fim de um ciclo. Eu esperava, mas não da maneira como foi. Eu esperava chegar aqui, ser chamado lá na CBF. Ter uma conversa. Eu fui pego até de surpresa porque eu fui comunicado pelo telefone. Ainda mais se tratando de seleção brasileira, de CBF. Eu não esperava, mas enfim. Torço a mesma coisa e agradeço a papai do céu todos os dias por ter me dado essa grande oportunidade de ter vestido a camisa da seleção brasileira como atleta e ter sido treinador da seleção brasileira. Fui campeão sul-americano como atleta e bicampeão como treinador.

Ramon revela ter sido demitido por telefone na CBF: "Fui pego de surpresa"

Grato pela oportunidade de comandar o Brasil entre 2022 e 2025, Ramon Menezes avaliou que o período acrescentou uma bagagem valiosa em seu currículo e uma boa experiência para lidar com diferentes tipos de situações. Ele se sagrou campeão de três torneios pela amarelinha. Ramon faturou o título do Sul-Americano sub-20 de 2023 sem perder uma vez sequer. O desempenho no torneio levou a Seleção a voltar a disputar o Mundial da categoria após oito anos.

No mesmo ano, foi campeão dos Jogos Pan-Americanos de 2023 com brilho do goleiro Mycael nas disputas de pênaltis da final diante do Chile. O dono da meta do Athletico-PR defendeu a cobrança de Villagra e converteu a última do time. A taça do torneio não era conquistada há 36 anos, uma vez que a última conquista tinha sido em 1987. Aquela foi a quinta medalha de ouro na história do torneio masculino de futebol dos Jogos Pan-Americanos.

O último título veio no seu último ano à frente do Brasil. Ramon Menezes voltou a ser campeão do Sul-Americano sub-20. Desta vez, em uma virada de chave gigantesca dentro do torneio. Na estreia, uma sonora goleada sofrida de 6 a 0 para a Argentina. A pior derrota para os hermanos na história considerando todas as categorias. Depois do baque, a equipe se reorganizou, juntou os cacos e reagiu a tempo de avançar à fase final. Com vitória sobre o Chile na última rodada, o Brasil voltou a conquistar o título e confirmou a recuperação ao dar a volta por cima na competição.

O título marcou o último troféu conquistado pelo treinador no comando do Brasil. A campanha ajudou a sintetizar os aprendizados acumulados ao longo do período à frente da Seleção. Ele só lamenta não ter conseguido conquistar o título do Mundial sub-20.

- (O período na Seleção) me deu muita bagagem. Muita experiência, né? Trabalhei com grandes jogadores. Tive a oportunidade de fazer campeonatos importantes, de ganhar campeonatos importantes também. Eu queria muito ter sido campeão do mundo, mas infelizmente, isso não aconteceu. Mas é a bagagem que fica. É o conhecimento que isso me deu, de futebol, de conhecimento de atletas, de relacionamento. Fui treinador do time principal da seleção brasileira. Eu saí bem melhor do que eu entrei. Eu fiquei na seleção brasileira, na minha contagem de 67 jogos oficiais: 45 vitórias, 14 derrotas e 8 empates. Essa é a minha trajetória.

Falta de preparação adequada

Ramon Menezes explicou que o calendário, com poucos encontros com os atletas, prejudicou o desempenho da equipe. Segundo o treinador, no início havia um respaldo maior para a construção do trabalho, o que permitiu uma preparação mais consistente. Por isso, ele avalia que a geração de 2023 chegou mais madura do que a de 2025 para as disputas dos Mundiais. A redução no número de jogos e enfrentamentos contra outras seleções, na visão de Ramon, teve impacto direto no rendimento em campo.

- Essa geração 07 é uma geração muito boa do futebol brasileiro. Muito boa, com ótimos jogadores. Mas nós fizemos (só) uma preparação. Eu fiz uma convocação. Nós fizemos um torneio Internacional em Cascais. Foi a única preparação desses atletas. Vários desses atletas estiveram no Mundial, jogando um campeonato mundial.

Segundo Ramon, essa falta de preparações é uma questão de ajuste de calendário. Sem datas disponíveis para convocar os melhores da categoria, o técnico reduz o leque de opções de qualidade para representar o Brasil. É essencial que os atletas vistam mais vezes a camisa da Seleção para ganhar maturidade.

- A gente tem que arrumar uma maneira para ter mais preparações. Quantas preparações nós fizemos? Para ir para esse Sul-Americano de 2025, nós fizemos algumas preparações, mas todas as preparações na Granja, sem enfrentar aquilo que na verdade seriam os adversários lá na frente.

- Quando eu cheguei na CBF, eu tive mais respaldo no começo. Essa geração 03, 04, 05 nós conseguimos preparar essa geração um pouco mais. Quando eu falo em preparar, são as oportunidades de estar com os atletas, de ter preparações. Para fazer aquele Sul-Americano 2023, nós fizemos oito jogos, com um nível muito bom. Depois, nós fizemos também um torneio Internacional, onde nós fomos campeões desse torneio em Cariacica, ganhando do Uruguai naquela oportunidade por 7 a 0. Ganhamos do Paraguai de 5 a 2, do Equador de 4 a 1. E depois nós fizemos uma outra preparação no Uruguai, com mais três jogos.

Por tudo isso, Ramon avalia que a geração de 2023 estava muito mais preparada do que a de 2025. O título invicto do Sul-Americano daquele ano, segundo ele, foi consequência direta de um grupo que já estava entrosado e habituado a atuar junto, algo que se refletiu no desempenho em campo. Não à toa, o Mundial sub-20 de 2023 era o torneio em que o treinador acreditava ter as maiores chances de título.

A equipe, porém, caiu nas quartas de final para Israel. O treinador atribui a queda aos desfalques no setor defensivo. Arthur e Robert Renan cumpriram suspensão, enquanto Mycael e Kaiki Bruno ficaram de fora por lesão. Com poucas alternativas, Ramon chegou ao confronto com apenas cinco opções de linha no banco e apenas uma com características defensivas, o volante Ronald. Um cenário que, segundo ele, pesou diretamente para a eliminação precoce.

- Aquele jogo contra Israel nós perdemos quatro jogadores da fase defensiva. Um campeonato mundial onde você pode levar 21 atletas, 18 jogadores de linha, você perder quatro atletas muda a estrutura de estratégia, enfim, de uma série de série de situações.

Ramon fala após queda no Mundial sub-20: "Tem coisas que fogem do nosso controle"

Após a chegada de Ancelotti, Ramon acredita que o ambiente da seleção brasileira mudou. Ele ressaltou que o italiano sempre o tratou muito bem na CBF assim como os demais sucessores no comando: Fernando Diniz e Dorival Júnior.

- Eu observava uma dificuldade gigantesca, que todos esses treinadores tiveram. E depois da chegada do Ancelotti, eu acho que acalmou tudo. Mesmo o time oscilando em alguns momentos também, mesmo com o Ancelotti. Mas, eu acho que a figura do Ancelotti trouxe uma serenidade, uma calma, uma tranquilidade. O ambiente hoje está diferente. A atmosfera está diferente.

Passagem como interino da seleção brasileira principal

Em fevereiro de 2023, Ramon Menezes se reuniu com Ednaldo Rodrigues, ex-presidente da CBF, para ser o técnico interino da seleção brasileira enquanto a diretoria negociava com um novo treinador. Ele assumiu o comando do Brasil após o título do Sul-Americano sub-20 na Colômbia.

- Eu tinha acabado de ser campeão sul-americano, né? E assim, pelo fato da gente ter feito aquela competição da maneira que nós fizemos invictos, né? E o Brasil estando sem treinador logo na minha chegada houve a possibilidade de assumir a principal, como interino. Esperando a chegada do Ancelotti, que depois veio a ser o treinador da principal. Então, eu fiquei praticamente cinco meses fazendo o sub-20 e fazendo também a principal.

- Pô, isso é um sonho, né? É um sonho para todo treinador. É você trabalhar com praticamente os melhores jogadores do mundo. Fizemos aquele jogo lá contra Marrocos, um jogo muito aberto. Nós poderíamos ter saído dali com o resultado positivo. Enfrentamos o Marrocos, que vinha de uma grande Copa do Mundo. Marrocos muito preparado, um time muito forte. E depois fizemos aqueles dois jogos. Vitória contra Guiné. E Senegal, onde a gente começou muito bem o jogo, fizemos logo no começo do jogo, uma jogada muito bem trabalhada, com um gol do Paquetá. Mas depois, o Senegal tomou conta do jogo. Foi um resultado que a gente não esperava.

Ramonismo e passagem pelo Vasco

O trabalho de maior relevância de Ramon Menezes antes da chegada à Seleção foi sua passagem pelo Vasco, clube onde é ídolo como jogador. Ele permaneceu no comando entre março e outubro de 2020. O seu início de trabalho foi meteórico: sete jogos sem perder, sendo cinco vitórias consecutivas. A torcida vascaína aderia ao "Ramonismo" e o técnico diz que foi o pioneiro nos "ismos" do futebol, como o Dinizismo.

- O começo do Brasileiro foi um começo muito legal, que chamou muita atenção, com três vitórias em seguida. E o time jogando muito bem, o time conseguindo fazer em campo tudo aquilo que a gente pensava, tudo aquilo que a gente estava trabalhando com os atletas. Infelizmente, em um momento de pandemia. Não tinha torcida. A gente sentiu muita falta para inflamar ainda mais.

- Criou-se assim, uma expectativa muito grande naquele começo de trabalho. Eu acho que oscilar, todas as equipes no Campeonato Brasileiro, mesmo aquelas que estão na ponta lá da tabela (vão). Mas foi muito bom aquele trabalho. Eu também enquanto auxiliar técnico, eu ia ver os jogos e aquilo ali também foi um facilitador, que eu já comecei a conhecer os atletas, até mesmo na minha chegada na seleção brasileira. E isso aí me ajudou bastante. Eu sempre falava que eu queria seguir os passos do (Antonio) Lopes lá dentro ficando muito tempo. Mas foi um momento importante na minha carreira como treinador.

Ramon relembra Ramonismo no Vasco e lembra desejo frustrado

Ramon apontou a limitação de opções qualificadas no elenco como um dos fatores que explicam a queda de rendimento que acabou culminando em sua saída do Vasco. Para o treinador, a oscilação era um processo natural dentro do contexto vivido pela equipe, avaliação que não encontrou respaldo na diretoria cruz-maltina. A sequência de seis jogos sem vitórias pesou na decisão pela demissão.

- Na minha saída, a gente estava em nono colocado naquela oportunidade e elogiado por todo mundo. Foi uma surpresa. É lógico que fugiu um pouquinho aqueles dois últimos jogos contra Atlético Mineiro e contra o Bahia, né? Até então, o Vasco era uma das defesas menos vazadas do campeonato. Nós tomamos sete gols em dois jogos, mas era um time que fazia gols também. Mas é isso. Vida que segue.

- Oscilar dentro da competição seria natural. Eu acho que ali a recuperação dos atletas... era tentar recuperar o mais rápido possível. Tentar também ir no mercado para buscar soluções. Eu pensei que seria assim, mas aconteceu a minha saída. Mas, é um clube que eu tenho um carinho enorme. Tenho um respeito gigantesco pelo Vasco. O sentimento é o mesmo pelo Vasco, até porque foi o clube que eu tive a felicidade de ter ganhado os títulos mais importantes da minha carreira como atleta.

Seleção ideal

Ramon Menezes adotou o critério de escalar em seu 11 ideal apenas os atletas que foram campeões com ele na seleção brasileira. São muitas promessas e jogadores que já se destacam no cenário nacional e internacional. Veja abaixo:

Seleção ideal: Mycael, Arthur, Kaiky Fernandes, Robert Renan e Patryck Lanza; Andrey Santos, Breno Bidon e Pedrinho; Rayan, Vitor Roque e Marcos Leonardo. 

Bate-pronto

No quadro, o convidado dá respostas curtas e rápidas sobre tópicos de sua carreira como técnico de futebol. Ramon Menezes disse que Estêvão é o maior craque que treinou apesar de terem sido poucos dias de trabalho juntos. Ele ainda exaltou Eurico Miranda como melhor dirigente e Andrey Santos como figura de liderança importante no vestiário. Veja tudo abaixo:

  • Ídolo da sua infância? Zico.
  • Melhor dirigente que você trabalhou junto? Eurico.
  • Derrota mais dolorida? 6 a 0 para Argentina.
  • Maior craque que você treinou? Estevão
  • Maior craque você enfrentou? Echeverri, da Argentina.
  • Melhor jogador no Brasil hoje? Rayan.
  • Jogador líder de vestiário que mais te ajudou? Andrey Santos.

Íntegra da entrevista

Passados três meses desde a tua saída da CBF, como está a cabeça? Já está preparado para novos desafios?

- A gente está acostumado a trabalhar. Lógico que a gente sente muita falta. Eu sou um cara abençoado. Agradeço a Deus todos os dias porque eu comecei muito jovem a minha carreira. Comecei com 11 anos, em 1983, e venho nessa batida de atleta e depois fazendo essa minha situação como treinador. Então, a gente quer sempre estar trabalhando. Hoje, eu me encontro totalmente no mercado. Mesmo na seleção, a gente já estava no mercado. Só que com a cabeça totalmente voltada para a seleção brasileira. Esperando uma oportunidade.

O que esperar do Ramon Menezes?

- Eu voltar a trabalhar. Aonde eu tiver uma condição boa e é isso que a gente pensa. Essa minha passagem, principalmente pela seleção brasileira, me deu uma bagagem muito grande. Eu sou um treinador hoje que tem um conhecimento vasto da geração 01, 02, 03, 04, 05, 06. Então, isso também me ajuda bastante pelo conhecimento, características de atletas. Enfim, hoje a gente sabe que passa muito pelos jovens. Os clubes do futebol brasileiro trabalham muito a juventude, as categorias de base. Então, eu tenho esse conhecimento.

Transição da carreira de jogador para treinador

- Bom, eu prolonguei um pouco mais a minha carreira. Eu parei de jogar praticamente no final de 2012. O meu último clube de Série A foi o Vitória, em 2010. Naquele momento, eu estava preparado para encerrar a minha carreira. Eu tive o convite do Nereu Martinelli, que era o presidente do Joinville. E aí, levei minha família pra Joinville, minhas filhas e minha esposa. Uma qualidade de vida muito boa. Ele me apresentou um projeto. O Joinville, naquela oportunidade, estava na Série C. Ele me apresentou um projeto e eu fui pro Joinville. Terminei minha carreira no final de 2012 e já no final de 2012 ele me liberou para que eu pudesse vir ao Rio de Janeiro para fazer meu primeiro curso como treinador, a ABTF (Associação Brasileira de Treinadores de Futebol). E aí, eu comecei. Comecei fazendo esse primeiro curso e, logo no final do ano de 2013, ele me fez o convite para retornar ao clube como auxiliar técnico. E aí, comecei essa trajetória.

- Em 2014, trabalhei com o Hemerson Maria. O Joinville, naquela oportunidade, foi campeão brasileiro da Série B. E aí, 2015 eu saí do clube. Mas, o Joinville foi muito importante para mim. Eu fui campeão como jogador em 2011 da Série C do Campeonato Brasileiro e fui campeão da Série B como auxiliar técnico em 2014. Em 2015, eu comecei como treinador, fazendo já as licenças. Em 2019, eu já tinha praticamente todas as licenças. Eu passei pela Série D, Série C, Série B até chegar ao Vasco da Gama. Trabalhei em alguns clubes. A minha chegada ao Vasco foi em 2019. Quando eu cheguei ao Vasco em 2019, eu já tinha todas as licenças. Em 2020, eu tive aquela oportunidade para assumir o time principal do Vasco.

- Depois do Vasco, eu tive uma passagem pelo CRB. Tive uma passagem também pelo Vitória até a chegada na seleção brasileira. Mas, a minha chegada ao Vasco em 2019 eu já estava muito preparado. Principalmente em relação às licenças. Eu já tinha feito todas.

São mais ou menos 10 anos de carreira, de lá pra cá, o que você acha que você conseguiu evoluir no teu método de trabalho, na tua gestão de grupo e no dia a dia? O que você avalia que mudou de lá pra cá?

- Ao passar dos anos, com o contato com os atletas também, você vai ficando mais experiente. Você vai vendo as coisas de uma outra maneira. Eu sempre fui um cara muito observador enquanto atleta. Eu trabalhei com muita gente boa. Grandes treinadores que marcaram a minha carreira. Vou te dar um exemplo. O Ênio Andrade era um cara que estava à frente do tempo naquela época. Isso já me chamava a atenção pela inteligência. Algumas situações que nós fazemos hoje de trabalho tático, ele já fazia naquela oportunidade, sem tanta informação. Como nós temos hoje o conhecimento do adversário, naquela oportunidade eu era jogador do Cruzeiro, subindo dos profissionais. Foi o cara que me lançou nos profissionais.

- A gente ia jogar no Uruguai, na Argentina, no Chile e o conhecimento que ele tinha em relação ao adversário era absurdo. Me chamava muita atenção porque não tinha tanta informação como nós temos hoje. Para mim, ele estava à frente do tempo. O conhecimento de característica de jogador, o que vai acontecer e o próprio treinamento dele.

- Então assim, eu sempre fui um cara muito observador. Sempre trabalhei muito. Me dediquei muito. Eu sou um cara que respiro aquilo que eu faço. Me entrego de corpo e alma, de coração. Procuro sempre melhorar e fazer o meu melhor.

O que você aprendeu quando você era auxiliar ou até como jogador com todos os treinadores que você vai passando? Quem foram as suas principais inspirações?

- Eu tive a felicidade de trabalhar enquanto auxiliar técnico com treinadores excepcionais. O caso do Luxemburgo, como auxiliar técnico no Vasco. Se tratando de gestão foi um cara que me chamou muita atenção. Ele sempre esteve à frente do tempo em relação à gestão de grupo, em relação àquilo que o treinador brasileiro deixou um pouco de lado, que foi a comissão multidisciplinar. O Luxemburgo há anos já pensava em levar sete, oito profissionais. Ele chegava num clube com os profissionais, então ele sempre pensou muito em estar bem respaldado porque isso é muito importante. Hoje, a gente tem uma dificuldade. Na oportunidade que nós temos, a gente consegue levar um auxiliar, um preparador físico. No máximo. Talvez um preparador de goleiros. Ele sempre lutou por isso e sempre conseguiu levar e sem contar a gestão, a inteligência tática. Então assim, me chamou muita atenção. Aprendi muito com ele.

- Depois dele, tive o Abel também, que é um cara de gestão também. Não ganhou o que ganhou à toa, né? Ganhou com muito trabalho, com uma ótima gestão. E a gestão hoje dentro do esporte é muito importante, né? E é lógico que tem outros treinadores assim que me chama muita atenção, né? Dos treinadores de fora, eu gosto muito do Guardiola, eu gosto do Klopp. São características diferentes, né? Você vê que o Klopp era um cara muito mais voltado para a transição. O Guardiola mais posse. Eu gosto do trabalho dos brasileiros também. Gosto muito do trabalho do Renato, gosto muito do trabalho do Dorival. Eu estou vendo agora um excelente trabalho do Filipe (Luis), do Fernando Diniz. Mas tem muita gente boa. Tem uma juventude que teve uma certa dificuldade assim nesse começo, mas tem treinadores aí, o caso do Barroca, do Barbieri, que está no Juventude, do Zé Ricardo.

Vocês trocam muita figurinha?

- Cara, era pra gente trocar mais, tá? Eu acho que a gente troca. A gente trocou muita figurinha nos cursos da CBF. Ali você aumenta a tua amizade com determinados treinadores. Eu tive a felicidade num curso da CBF fazer o curso na sala com o Tite, com o Dunga, com o Mano, com Dorival, com Odair Hellmann. Então assim, te dá a oportunidade para você conhecer, trocar ideias.

Start na carreira de treinador na Aseev em 2015

- Ali, na verdade foi um projeto, né? Eu fui convidado pelo Francis Melo, na época. Foi o primeiro trabalho também do Fabinho Soldado. Na verdade, era o Anápolis. A gente ia fazer o campeonato da terceira divisão, mas treinava em Anápolis. A nossa sede era em Anápolis, só que a sede da competição, para a gente jogar, a gente jogava no interior de Goiás. Ali era um projeto para formar uma equipe e quando chegasse no campeonato estadual, no Campeonato Goiano, para você poder contratar jogadores pontuais. Então ali, nós recebemos mais ou menos 60 jogadores. Então, nós fizemos um trabalho muito legal. Foi um trabalho de recuperação de alguns atletas na época. O Welton Felipe, que era um zagueiro que já tinha jogado Série A de Campeonato Brasileiro, Renato Justi. Enfim, alguns jogadores já conhecido assim no cenário nacional, recuperar esses atletas, dar oportunidade para jovens atletas também. Jogadores que não tiveram a oportunidade nos clubes grandes, a gente também deu oportunidade para alguns atletas e formamos uma base.

- Naquela oportunidade, nós fomos campeões da terceira divisão. Mas eu vou te falar com toda a sinceridade que eu estava ali preparado para ser campeão goiano. Quando eu saí do Anápolis, nós éramos segundo da chave, terceiro da classificação geral do campeonato. E o Anápolis, naquela oportunidade, fez a final contra o Goiás. Perdeu nos pênaltis. Então, aquele trabalho do Campeonato Goiano começou na terceira divisão, no Aseev. Foi ótimo pelo conhecimento também que eu tive com jogadores jovens.

Queria falar sobre o Guarani de Divinópolis, que era uma missão muito difícil ali que você topou um desafio. O clube já estava quase caindo no Mineiro, você acabou indo, não conseguiu evitar a queda. Por que você tocou aquele desafio ali? Era uma oportunidade para você?

- Cara, tem coisas que não volta mais. Mas, eu não me arrependo de nada, sabe? Foi uma experiência. Poderia ter sido evitada. Eu cheguei lá no Guarani com 5 pontos na competição. Nós tínhamos mais 12 pontos a serem disputados. Nós tínhamos mais quatro jogos. O Guarani era praticamente ali um dos rebaixados. Então, de 12 pontos, nós conseguimos sete. Nós tivemos 58% de aproveitamento. Na verdade, desses quatro jogos, a gente ia jogar um jogo contra o Cruzeiro. Muito difícil. Jogo no Mineirão. Nós jogamos até bem naquela oportunidade. Nós empatamos o primeiro jogo e vencemos dois jogos. Então um empate, duas vitórias. Nós fomos para aquela última rodada torcendo para resultados. Então, o Atlético Mineiro perdeu para o Tricordiano de 4 a 1, no Independência. Nós ganhamos do Villa em casa de 4 a 2. Mas é a experiência, né, cara?

Ramon, avançando um pouco, já indo para o Vasco, que é um clube muito relevante no cenário nacional. Você tinha uma história lá como jogador e depois entrou como treinador. O teu início ali foi muito meteórico, teve a história do Ramonismo... o Dinizismo tudo começou do Ramonismo lá atrás.

- Eu fui o pioneiro (risos).

Você já tinha tua relação ali como jogador, mas como é que foi para você? Era um período de pandemia. Não tinha o torcedor perto, mas na rede social estava bombando. Como é que foi a tua relação com o torcedor, mesmo nesse período de pandemia e num clube tão grande como o Vasco?

- Bom, primeiro foi a minha chegada. Eu já cheguei no Vasco devido a esses trabalhos, muito preparado assim para ser auxiliar técnico da casa em 2019. E aí peguei vários trabalhos com alguns treinadores, né? Trabalhei com Alberto Valentim, trabalhei com Valadares, trabalhei com o Luxemburgo, trabalhei com Abel. Então assim, em 2020, você ficando um ano no clube. Eu já tinha um conhecimento dos atletas, né? E além do conhecimento dos atletas, eu já sentia aquela atmosfera enquanto atleta também. Isso aí também me ajudou muito. Sempre muito à vontade com os atletas. Me senti praticamente em casa porque o Vasco foi o clube que eu mais atuei como atleta. Então, naquela oportunidade, quando eu assumi a equipe, eu já tinha um conhecimento dos atletas.

- Na minha cabeça, eu já sabia das características, como é que a gente ia fazer para escalar o time. A maneira de jogar. E aquilo ali chamou muita atenção naquele começo de trabalho. Até mesmo antes de começar a competição, alguns amistosos que nós fizemos. Uns jogos pelo Campeonato Carioca que nós fizemos. Eu estive à frente nos dois últimos jogos do Carioca. E o Vasco já jogou bem naqueles dois últimos jogos do Campeonato Carioca. E o começo do Brasileiro foi um começo muito legal, que chamou muita atenção, com três vitórias em seguida. E o time jogando muito bem, o time conseguindo fazer em campo tudo aquilo que a gente pensava, tudo aquilo que a gente estava trabalhando com os atletas. Infelizmente, em um momento de pandemia. Não tinha torcida. A gente sentiu muita falta para inflamar ainda mais. O torcedor ali em São Januário, porque com três vitórias seguidas assim, poxa.

- Teve aquele jogo da Copa do Brasil também, que foi um jogo marcante. Tínhamos que ganhar lá na Serrinha e nós conseguimos ganhar de 2 a 1, levar para os pênaltis. Saímos de lá classificado. Mas, o trabalho depois foi envolvido também muito pela parte política. Criou-se assim, uma expectativa muito grande naquele começo de trabalho. Eu acho que oscilar, todas as equipes que estão no Campeonato Brasileiro, mesmo aquelas que estão na ponta lá da tabela, o Flamengo vai ter um momento que vai dar uma oscilada, o Palmeiras também vai. Vai oscilar bem menos, mas vai oscilar, né? E a gente sabia que a gente ia ter que ter a recuperação dos atletas em algum momento, porque você não tem um plantel com a oportunidade de trocar tanto, de mexer.

- Mas foi muito bom aquele trabalho. Eu também enquanto auxiliar técnico, eu ia ver os jogos e aquilo ali também foi um facilitador, que eu já comecei a conhecer os atletas, até mesmo na minha chegada na seleção brasileira. E isso aí me ajudou bastante. Eu sempre falava que eu queria seguir os passos do (Antonio) Lopes lá dentro ficando muito tempo. Mas foi um momento importante na minha carreira como treinador.

A parte política atrapalhou o desempenho? Foi mais a política do clube ou foi a questão de elenco mais limitado? O que depois justificou a queda do desempenho?

- Quando eu falo em aspecto político, porque ia ter uma mudança ou não na presidência do clube, né? O Alexandre Campello eu já trabalhei com Alexandre Campello, né? O Alexandre Campello era médico na época que eu era atleta. Eu o conhecia e ele me conhecia muito bem também. Então, eu falo muito mais em relação a isso. A gente ia ter uma dificuldade. Isso era normal, natural, né? Porque o elenco do Vasco precisaria ali, naquele momento, de uma recuperação, em determinados momentos da competição. Não era um elenco que eu poderia também poupar os atletas. Nós tivemos também alguns problemas em relação a isso. Uma dificuldade. Então, quando você perdia algum atleta, tinha dificuldade de reposição.

- Mas, o trabalho estava sendo bem feito. Na minha saída, a gente estava em nono colocado naquela oportunidade e elogiado por todo mundo. Foi uma surpresa. É lógico que fugiu um pouquinho aqueles dois últimos jogos contra Atlético Mineiro e contra o Bahia. Até então, o Vasco era uma das defesas menos vazadas do campeonato. Nós tomamos sete gols em dois jogos, mas era um time que fazia gols também. Mas é isso. Vida que segue. Eu costumo dizer que meu trabalho no Vasco não teve meio nem fim. Só teve só o começo.

O que foi alegado na conversa da demissão?

- Foi mais as duas últimas derrotas, né? A gente conversou. Eu disse isso também, que fugiu um pouco, mas oscilar dentro da competição seria natural. Eu acho que ali a recuperação dos atletas... era tentar recuperar o mais rápido possível. Tentar também ir no mercado para buscar soluções. Eu pensei que seria assim, mas aconteceu a minha saída. Mas, é um clube que eu tenho um carinho enorme. Tenho um respeito gigantesco pelo Vasco. Acompanho o Vasco. Fui agora no Maracanã ver Corinthians e Vasco, levei as minhas duas filhas. O sentimento é o mesmo pelo Vasco, até porque foi o clube que eu tive a felicidade de ter ganhado os títulos mais importantes da minha carreira como atleta.

Passagem pelo Vitória

- No Vitória, foi um chamado, porque o Vitória eu tenho uma relação impressionante. O Vitória, para mim, lá atrás enquanto jovem, me abriu as portas. Do Vitória, eu fui para Europa, né? Fui para o Bayer Leverkusen. Com a camisa do Vitória, eu tenho 88 gols. Eu fui quatro vezes campeão baiano, campeão da Copa do Nordeste, chegamos à final da Copa do Brasil. Então assim, é uma identificação bem legal com o Vitória.

- Aquela oportunidade eu sabia da dificuldade. Eu já me apresentei lá em Porto Alegre. Eu fiz um treinamento com a equipe para jogar aquele jogo contra o Inter, que eles tinham perdido no Barradão. Eu costumo dizer que ali foi a espera de um milagre, porque nós conseguimos eliminar o Inter dentro do Beira-Rio. Então, a minha volta para Salvador, no meu primeiro contato com o Paulo Carneiro, eu já senti que a gente ia ter muita dificuldade. Eu fui com o pensamento de também levar alguns atletas. É um clube como o Vasco, que eu queria muito, sabe? No período que eu fiquei lá, eu morei dentro do CT do Vitória. Eu me dediquei muito. Mas ali foi um período que infelizmente as coisas não aconteceram.

Queria que a gente entrasse para a Seleção. Queria que você falasse como que foi o convite ali em 2022. Como é que foi esse papo?

- Quando eu fui pra CBF, estava sem treinador na saída do Jardine. Então, houve o convite e foi em 2022. Houve essa oportunidade e eu não pensei duas vezes. Seleção é o topo da pirâmide. Então, foi muito bom ter tido esse convite. Cheguei em 2022, eu já sabia também de toda a dificuldade que é o sub-20 do Brasil. Há muito tempo não tinha na frente da sub-20 um ex-atleta, né? Eles mudaram um pouquinho o perfil do treinador. Mas assim, também muito preparado. Embora não tenha trabalhado na base do futebol brasileiro, mas com o conhecimento de jovens jogadores. Eu trabalhei no Vasco como auxiliar técnico, e sempre observei muito o Campeonato Brasileiro sub-20. E pelo fato de ser um cara que estuda muito. Eu cheguei já sabendo dos atletas. Quando eu cheguei na CBF, eu tive mais respaldo no começo. Essa geração 03, 04, 05 nós conseguimos preparar essa geração um pouco mais.

- Quando eu falo em preparar, são as oportunidades de estar com os atletas, de ter preparações. Para fazer aquele Sul-Americano 2023, nós fizemos oito jogos, com um nível muito bom, tá? Nós fizemos uma preparação em Salvador, que já foi boa, né? Com dois jogos televisionados também: Bahia e Vitória. Nós fizemos uma preparação em Cariacica, que foi muito boa. Nós enfrentamos ali naquela oportunidade o Paraguai, o Equador e o Uruguai. Depois, nós fizemos também um torneio Internacional, onde nós fomos campeões desse torneio em Cariacica, ganhando do Uruguai naquela oportunidade por 7 a 0. Ganhamos do Paraguai de 5 a 2, do Equador de 4 a 1. E depois nós fizemos uma outra preparação no Uruguai, com mais três jogos.

- Enfrentamos a Argentina, enfrentamos novamente o Uruguai, enfrentamos uma outra escola, que foi o Uzbequistão naquela oportunidade. Isso também dá uma experiência muito grande para os atletas. E os dois últimos jogos antes do Sul-Americano, nós enfrentamos o Chile, com dois jogos no Chile. Então, aquela geração esteve muito mais preparada do que essa última geração, né? Nós chegamos naquele Sul-Americano muito mais preparados. Alguns atletas como Andrey, Mycael, esses atletas já fizeram um sub-15, já tinham sido campeões sub-15. Então, eram atletas que já tinham um histórico de seleção brasileira, que isso também ajudou.

- Então, nós não ganhamos aquele Sul-Americano invicto à toa, né? É lógico que com muita dificuldade assim depois no Mundial para a liberação dos atletas. Mas o time, quando a gente fala de respaldo, fala de preparação, de estar mais preparado é porque os atletas tiveram um enfrentamento com o nível daquilo que eles iam enfrentar lá na frente. O Mundial, infelizmente, a gente estava muito preparado naquele Mundial, né? Embora, eu já estivesse também na seleção brasileira... quando você pede foco para os atletas, talvez os atletas: “poxa, professor, mas você está indo lá no Brasil fazer a convocação para a seleção principal.”

- Aquele jogo contra Israel nós perdemos quatro jogadores da fase defensiva, né? Um campeonato mundial onde você pode levar 21 atletas, 18 jogadores de linha, você perder quatro atletas isso muda a estrutura de estratégia, enfim, de uma série de série de situações. Quatro jogadores da fase defensiva. Nós perdemos Mycael, Arthur, Robert Renan, Kaiki Bruno.

É uma dificuldade muito grande essa questão do trabalho na base por conta da liberação dos clubes. Você passou por muitas e muitas situações de convocação de atleta e o clube não liberar. Você acha que tem alguma solução para isso?

- Na sub-20, a gente tem a dificuldade que a gente não consegue levar o que a gente tem de melhor da geração. Então assim, a CBF teria que fazer um investimento maior em relação a preparações. Vou te dar um exemplo. Essa geração agora era 05, 06 e 07, tá? Se você consegue levar um time no Sul-Americano, dificilmente, ainda mais sendo campeão. Se você pegar o time do Sul-Americano. Já não teve o Felipe Longo porque ele era o segundo goleiro do Corinthians. Se você pegar, a gente já não teve o Moscardo, que foi bem no Sul-Americano, já chamou atenção. Ele estava em um time da França, né? Foi para Portugal. O Braga já não liberou. Você pega o Bidon. Hoje é titular do Corinthians. Você pega Pedrinho, você pega o Rayan. Como é que o Vasco vai liberar o Rayan? São jogadores que estiveram no Sul-Americano e que não vão. São jogadores nascidos em 2005, 2006, né? Então, vai sobrar para quem? Vai cair no colo do 2007, que são jogadores mais jovens. Então, esses jogadores têm que serem preparados. Eles têm que ter vestido a camisa da seleção brasileira.

- Então, a gente tem que arrumar uma maneira para ter mais preparações, quando eu falo em preparação, você vê que eu já comecei falando da geração 03, 04, 05. Quantas preparações nós fizemos? Para ir para esse Sul-Americano de 2025, nós fizemos algumas preparações, mas todas as preparações na Granja, sem enfrentar aquilo que na verdade seriam os adversários lá na frente. Muitos deles não tiveram oportunidade de jogar contra um adversário sul-americano, então vai sentir em uma competição, como um campeonato Sul-Americano. E aí, no Mundial, vai ter outros atletas. Então, são atletas que teriam que ter se preparado melhor, né? Aí, você pega a Europa. Europa tem um sub-15, sub-16, sub-17, sub-18, sub-19, sub-20. Então assim, a Espanha, que nós enfrentamos, tinham vários jogadores 07, mas o 07 se tem um jogo contra a Itália 05, tem um 06, tem um 07 também. Então, a geração ela joga junto.

- E essa geração 07 é uma geração muito boa do futebol brasileiro. Muito boa, com ótimos jogadores. Nós fizemos uma preparação. Eu fiz uma convocação. Nós fizemos um torneio Internacional em Cascais. Foi a única preparação desses atletas. Vários desses atletas estiveram no Mundial, jogando um campeonato mundial.

Essa falta de de preparação é questão de ajuste de calendário?

- Ajuste de calendário. Porque se você não consegue a liberação dos atletas lá de fora, os melhores da geração, você consegue arrumar uma maneira no próprio campeonato sub-20, dar oportunidade para esses jogadores. Porque o jogador ele tem que vestir a camisa da seleção brasileira para disputar uma competição tão importante quanto.

Como era o trabalho de acompanhamento dos atletas na rotina na CBF? Eram quantas pessoas ali para analisar os jogos? Vocês viam todos os campeonatos possíveis das categorias?

- Tem os profissionais voltados para isso lá, mas eu via muita coisa. Tem que trabalhar muito, tem que ver muita coisa, muitos jogos, fazer as visitas, gostava muito de fazer as visitas. É um trabalho completamente diferente, né? A gente não tem o dia a dia no campo. Mas, o nosso dia a dia tem que ser um dia a dia de observações.

Esse trabalho na seleção olímpica foi um trabalho longo, de 2022 a 2025. Nesse período, a CBF também passou por uma ebulição. A parte política atrapalhou o teu trabalho em algum momento ou não?

- Cara, eu acho que não. Eu fui praticamente treinador da seleção principal durante cinco meses, duas Datas FIFA, né? E depois eu fui o treinador da sub-23. Eu acho que faltou ali um projeto olímpico que não teve na verdade, né? Se você pegar quando o Brasil foi campeão, as preparações que o Brasil fez foram muito maiores do que nós fizemos. Na verdade, nós fizemos um jogo contra Marrocos. Uma preparação em Marrocos. Não teve o outro jogo por causa do terremoto. Depois nós fizemos dois jogos em São Paulo contra a Inter de Limeira e um contra o Red Bull Bragantino. Então assim, se preparou muito mal também para fazer aquele pré-Olímpico.

- Com todas as dificuldades, a gente conseguiu a classificação na primeira fase, o líder da chave. E tivemos dificuldade. Normal da competição, se você pegar a Argentina e o Paraguai, que classificaram. Se você pegar a Argentina, o Almada fez cinco gols na competição. O Diego, que é o meio-campista do Paraguai, ele fez cinco gols também na competição. Nós levamos o Endrick... nosso ataque era Endrick e John Kennedy. Nós fizemos três gols na competição. Então assim, as coisas não aconteceram. Se você pegar, de seis competições oficiais que a gente teve à frente da seleção brasileira, nós conseguimos vencer três competições. Com todas essas dificuldades, né? Ficamos em terceiro no Pré-Olímpico, né? O Pan-Americano e o Sul-Americano invicto. Isso é muito difícil. O processo de superação nesse Sul-Americano foi gigantesco, né? Depois daquela derrota contra a Argentina, né?

Como foi a virada de chave no Sul-Americano depois de perder por 6 a 0 para a Argentina na estreia?

- A gente tem uma dificuldade muito grande, porque a maioria das competições é em janeiro. Pré-olímpico é janeiro. Sul-Americano em janeiro. Então assim, são competições que você está fazendo uma competição em plena pré-temporada. E aí, se você pegar a minutagem desses atletas que participam dessas competições, a maioria desses atletas não eram titulares nos seus clubes. Então, com minutagem muito baixa. Isso também dificulta muito. E caiu na situação que eu te falei, né? As nossas preparações não foram preparações para você jogar um campeonato sul-americano.

Você tinha normalmente quanto tempo com os atletas? Quantos dias?

- A gente fica 10, 12 dias.

Dá tempo de implementar alguma coisa ali? A filosofia de jogo?

- Dá se você consegue trazer os mesmos jogadores. A seleção de base, você não consegue trazer os mesmos jogadores. Então assim, o que eu fiz no Sul-Americano lá atrás é quase que impossível você fazer no outro Sul-Americano. Até a maneira de jogar. Você tem que mudar porque são características, são jogadores diferentes. E quando você consegue dar um padrão, você já não tem mais esses jogadores. Se você pegar o final do Sul-Americano, a gente já terminou bem o final do Sul-Americano, com toda a dificuldade que aconteceu no começo. Depois foi muito mais na conversa, né? Nós acertamos também a maneira ali de jogar. Teve algumas mudanças em relação a jogadores também.

Uso do vídeo e materiais de preparação para os atletas

- Você tem que aproveitar muito bem o tempo, né? Na apresentação, a gente já fazia um tático regenerativo, voltado para as fases do jogo. Todas as minhas apresentações no grupo, eu mostrava uma série de situações. Se você conseguisse levar os mesmos jogadores, era muito melhor, né? Sempre tinha três, quatro jogadores diferentes ou cinco, seis jogadores diferentes. Então, o nosso primeiro treino era sempre um regenerativo tático, você já ia em cima das fases do jogo, porque você não tem tempo. E quando você tem tempo, talvez você treinar um pouquinho de comportamento daquilo que você pensa.

- Tem que otimizar muito bem o tempo, porque ele é muito curto, mas isso aí também te ajuda muito no crescimento de trabalho. Nós já enfrentamos a Argentina fazendo um treino só. Então assim, a metade de um grupo chegou na segunda, chegou todos os atletas na terça. Na quarta-feira, a gente estava jogando contra a Argentina, um torneio Internacional. Essa é a nossa dificuldade.

Tem algumas seleções que, de repente, a preparação é um pouco maior ou os caras jogam juntos há mais tempo e aí tem esse desnível. Na seleção brasileira acontece muito de chegar grupos diferentes ao longo do tempo e isso atrapalha ter uma uniformidade, né? Isso é uma das explicações também para alguns resultados negativos que depois vieram com a seleção?

- Cara, eu acho que também são essas dificuldades. Se você pegar o campeonato mundial, desde que eu cheguei na seleção brasileira, o meu sonho sempre foi ser campeão mundial, tá? Eu sempre tinha isso como (meta). E sempre transmiti e sempre passava isso para os atletas. E nós não conseguimos. Talvez no Mundial de 2023 tenha sido aonde a gente estava mais preparado, porque aquela equipe era mais preparada do que essa geração. Naquele outro Mundial também caímos numa chave da morte, com Itália e com Nigéria. Dessa vez, também uma dificuldade muito grande. A chave que nós enfrentamos. Os adversários mais preparados do que o Brasil. Se você pegar o México, o México nós empatamos aquele primeiro jogo. Mas, nós tivemos muita dificuldade no jogo, embora nós conseguimos empatar e virar o jogo, né? Tomamos aquele gol do Ochoa já no finalzinho de bola parada. Coisa que dificilmente a gente toma gol de bola parada.

- Se você pegar o México, nós enfrentamos o México num amistoso Internacional aqui em São Januário. Dois jogos em São Januário. Se você pegar, você vê a escalação do México, o México teve daquele jogo para o jogo do mundial, quase 90%. E se você pegar o nosso time daquele jogo para o mundial, a diferença de troca de atletas é muito grande. Se você pegar o Marrocos, a preparação que o Marrocos vem fazendo né? Eu enfrentei o Marrocos três vezes. Três vezes, eu não consegui ganhar do Marrocos. Nós enfrentamos o Marrocos lá pela seleção principal. A Copa do Mundo que Marrocos fez com a seleção principal, né? A atmosfera criada para aquele jogo. Aí, depois nós voltamos com a Seleção Olímpica, aí teve um jogo. Perdemos o jogo. Teria o outro jogo, mas teve o terremoto. E eu vi essa seleção de Marrocos agora muito preparada. Muito preparada fisicamente, tecnicamente, com bons jogadores, conseguem fazer mais preparações, conseguem estar com os atletas mais vezes. Isso é um facilitador. E vem a Espanha. A Espanha é Europa. A Espanha trabalha o 2007, o 2006, o 2005.

"A gente correu todos os riscos", lamenta Ramon Menezes após eliminação do Brasil no Mundial Sub-20

- Mas foram jogos que a gente poderia ter ganhado também, né? Se você pegar chances criadas, você vai lá em chances criadas de Brasil e Marrocos. Você vai ver que o Brasil teve mais chances criadas do que Marrocos. Eles aproveitaram. Se você for ver o jogo da Espanha, chances criadas, o Brasil teve mais chance do que a Espanha. Tem coisas que fogem do nosso controle. Então, infelizmente, a gente não conseguiu. É lógico que quando eu falo que seleção brasileira é o topo da pirâmide, né? Seleção brasileira você tem que sempre pensar e querer vencer e eu queria que essa geração tivesse muito mais preparada para que a gente representasse melhor vestindo a camisa da seleção brasileira. Porque o torcedor ele merece, cara. O torcedor ele merece. Ele fica chateado, mas ele também não sabe o contexto. Aquilo que se passa, todas as nossas dificuldades. O cara, quando vê uma convocação, ele acha que você deixou de levar alguém quando ele não vê a figura de um grande atleta na convocação, ele acha que você deixou de levar alguém. Pelo contrário. É porque você não pôde levar, né? A seleção brasileira, sem dúvida, é lugar dos melhores e a gente pensa assim. Sempre pensei dessa maneira. Mas, foi uma passagem de seis competições oficiais, três títulos. Então, ficou 50/50. Em três torneios internacionais, ganhamos dois torneios internacionais.

Durante a tua passagem pela Seleção, você teve a oportunidade de trabalhar com muita garotada boa da geração atual: Estêvão, Endrick, Vitor Roque, Andrey Santos. Como foi trabalhar com essa galera que já está despontando bem no cenário nacional e internacional?

- Eu me sinto um privilegiado de ter trabalhado com esses atletas. Um respeito muito grande. O trabalho foi muito bom enquanto nós tivemos juntos, sabe? Aprendi muito com esses atletas. Assim, talvez também tenha passado muita coisa para esses atletas. Jogadores promissores, né? Você vê o Estevão. Ele esteve conosco em apenas uma preparação. Em uma preparação, a gente já viu que é muito promissor. Um jogador diferente. Eu já cheguei a falar isso em algumas entrevistas. É um atleta que você não precisa falar muita coisa com ele. É um atleta muito inteligente, de muita qualidade técnica, de um refino técnico impressionante. Inteligente também para jogar na fase defensiva, o que ele fazia no Palmeiras, senão ele não jogaria no Palmeiras. Ele ajudava também na fase defensiva. Um jogador que pode jogar por dentro, por fora, pela sua qualidade. Esse menino vai muito longe.

- Então, a gente teve a felicidade de trabalhar com jogadores que hoje estão na seleção brasileira, né? O Andrey Santos era o capitão da equipe. Um cara que evoluiu muito o seu jogo. Vejo o Andrey como um primeiro volante diferente, com muita capacidade na construção, na criação e, por vezes, podendo ser até esse jogador da finalização. Ele foi artilheiro de um campeonato sul-americano juntamente com o Vitor Roque.

- O Vitor Roque é outro. Ele esteve conosco em poucas oportunidades. Ele teve em um torneio Internacional em Cariacica. Nós ganhamos aquele o torneio. Nós fomos campeões. Ganhamos na final de 7 a 0 do Uruguai. Ele estava. Jogou o Sul-Americano. Foi artilheiro da competição. Muito forte. Jogador muito rápido. Eu costumo dizer que com o Vítor Roque, você pode adiantar as linhas porque ele pressiona o tempo todo. Se o adversário te colocar em uma situação desconfortável para trás, você tem uma transição por dentro que é impressionante. E ele vem mostrando isso, recuperou todo o seu potencial agora no Palmeiras. Então assim, eu tive a felicidade de trabalhar com ótimos jogadores.

A gente vai chegar numa Copa do Mundo esse ano. A gente sempre teve o Neymar como a figura central. O Neymar ainda não está 100% e a gente não sabe se a gente vai ter o Neymar 100% para a Copa do Mundo. Na ausência do Neymar, me parece que o Estêvão é um nome que está em evidência na seleção brasileira. Você acha que ele tem um potencial de carregar o peso de ser o cara da seleção na principal também?

- O Estevão é muito jovem, mas hoje ele já carrega uma responsabilidade dentro da seleção brasileira de ser o protagonista. Hoje ele já é um dos protagonistas da seleção brasileira. E isso quem ganha é a seleção brasileira. E as últimas atuações dele, ele mostrou isso. Mas, nós temos aí uma safra muito interessante.

Trabalho na seleção brasileira principal

- Eu tinha acabado de ser campeão sul-americano, né? E assim, pelo fato da gente ter feito aquela competição da maneira que nós fizemos invictos, né? E o Brasil estando sem treinador logo na minha chegada houve a possibilidade de assumir a principal, como interino. Esperando a chegada do Ancelotti, que depois veio a ser o treinador da principal. Então, eu fiquei praticamente cinco meses fazendo o sub-20 e fazendo também a principal. Tanto é que na nossa primeira convocação para Marrocos, eu levei cinco atletas que estiveram conosco no Sul-Americano. Levei o Mycael, o Arthur lateral-direito, Robert Renan, o Andrey Santos e Vitor Roque.

- Pô, isso é um sonho, né? É um sonho para todo treinador. É você trabalhar com praticamente os melhores jogadores do mundo. Respeito muito grande. Fizemos aquele jogo lá contra Marrocos, um jogo muito aberto. Nós poderíamos ter saído dali com o resultado positivo. Enfrentamos o Marrocos, que vinha de uma grande Copa do Mundo. Marrocos muito preparado, um time muito forte. E depois fizemos aqueles dois jogos. Vitória contra Guiné. E Senegal, onde a gente começou muito bem o jogo, fizemos logo no começo do jogo, uma jogada muito bem trabalhada, com um gol do Paquetá. Mas depois, o Senegal tomou conta do jogo, Foi um resultado que a gente não esperava. Mas era começo também de trabalho.

O que acontecia na seleção para não dar liga?

- Eu observava uma dificuldade gigantesca, que todos esses treinadores tiveram. E depois da chegada do Ancelotti eu acho que acalmou tudo. Mesmo o time oscilando em alguns momentos também, mesmo com o Ancelotti. Mas, eu acho que a figura do Ancelotti trouxe uma serenidade, uma calma, uma tranquilidade. Enfim, seleção brasileira, eu falo direto, é o topo da pirâmide, né?

Acabou tendo esse período de instabilidade com os próprios treinadores, que vieram depois, até com o Ancelotti teve alguns jogos que a seleção não desenrolou bem.

- É, mas o ambiente hoje está diferente. A atmosfera está diferente.

Troca de figurinhas com os sucessores na Seleção

- A gente sempre teve muita troca lá dentro e sempre deixei muita vontade para qualquer tipo de informação que eles quisessem saber, né? Rodrigo Caetano, Cícero, são caras também mais próximos, que acompanham também o trabalho, que acompanharam o trabalho, né? Rodrigo Caetano foi no último Sul-Americano. Cícero esteve presente em toda a competição.

Com Ancelotti teve alguma troca também?

- O Ancelotti é um cara fantástico. Sempre me tratou muito bem lá dentro, né? O próprio Diniz. O Dorival a gente falava muito em relação a jogadores também. Sempre me perguntou.

Avaliação dos três anos na CBF

- Me deu muita bagagem. Muita experiência, né? Trabalhei com grandes jogadores. Tive a oportunidade de fazer campeonatos importantes, de ganhar campeonatos importantes também. Eu queria muito ter sido campeão do mundo, mas infelizmente, isso não aconteceu. Mas é a bagagem que fica. É o conhecimento que isso me deu, de futebol, de conhecimento de atletas, de relacionamento. As relações com os próprios atletas também, né? Fui treinador do time principal da seleção brasileira. Eu saí bem melhor do que eu entrei,. Eu fiquei na seleção brasileira, na minha contagem de 67 jogos oficiais: 45 vitórias, 14 derrotas e 8 empates. Essa é a minha trajetória.

Depois daquela eliminação nesse último mundial, você já esperava que poderia ter uma saída?

- Eu acho que é o fim de um ciclo. Eu esperava, mas não da maneira como foi. Eu esperava chegar aqui, ser chamado lá na CBF. Ter uma conversa. Eu fui pego até de surpresa porque eu fui comunicado pelo telefone. Ainda mais se tratando de seleção brasileira, de CBF. Eu não esperava, mas enfim. Torço a mesma coisa e agradeço a papai do céu todos os dias por ter me dado essa grande oportunidade de ter vestido a camisa da seleção brasileira como atleta e ter sido treinador da seleção brasileira. Fui campeão sul-americano como atleta e bicampeão como treinador.

Foto: Rafael Ribeiro/Vasco.com.brRamon Menezes
Ramon Menezes

Fonte: ge
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