Relembre a história do ídolo vascaíno Ademir Menezes

24/06/2020 às 15h33 - CLUBE

Era um 24 de junho muito diferente. Em 1950, milhares de brasileiros rumavam para assistir a um jogo no gigante Maracanã pela primeira vez. Ali, o Brasil estreava na Copa do Mundo diante do México. Havia desconfiança sobre até onde aquela equipe poderia chegar, mas, aos 32 minutos da etapa inicial, um certo atacante marcava de cabeça o primeiro gol do estádio e ainda fazia o último para fechar o placar em 4 a 0.

Há 70 anos, portanto, Ademir Marques de Menezes abria o templo do futebol do jeito que melhor sabia fazer e enchia todo um povo de esperança. Depois, na final, amargou uma derrota para o Uruguai que não condiz com a trajetória dele. Até hoje, o ponta de lança é o maior artilheiro do país em uma única edição de Mundial. Foram nove gols marcados em 1950.
 

Mesmo sem o título da Copa do Mundo, Ademir foi um campeão por natureza. Antes e depois daquele Mundial, fez 301 gols só pelo Vasco e empilhou taças no chamado Expresso da Vitória. Também foi vencedor no Fluminense. Uma sina que, na verdade, nasceu no Recife, sua terra natal, e vem carregada de inovações para a função de um homem de ataque.

Tudo começou muito cedo. Em 1935, com 12 anos, um menino franzino, de queixo proeminente e bigode ralo impressionava com suas arrancadas e arremates precisos. Ele ainda jogava no campo de areia do Centro Esportivo do Pina - time do bairro de mesmo nome e que era o reduto de Ademir localizado na zona sul da capital pernambucana.

- Na Praia do Pina, quando não estava roubando caju na chácara do Zé Pedro e levando "tiros de sal" nas pernas (não doía, mas como coçava, meu Deus!) meu passatempo era o bate-bola, a linha de passes ou a pelada de rua, afirmou à Revista da Semana, em 1956.

 

Dali, partiu para o Sport e criou uma relação muito próxima. Tamanha é a ligação que virou uma estátua, fincada na sede do clube. Não é à toa. Como rubro-negro, Ademir foi campeão estadual juvenil como capitão e aos 15 anos. Aos 18, levantou o Campeonato Pernambucano profissional como artilheiro e ainda disputou provas de atletismo e natação.

Na mesma temporada, iniciou uma excursão pelas regiões Sul e Sudeste e virou alvo de disputa entre Fluminense e Vasco até que decidiu virar alvinegro para fazer história. Mas nunca esqueceu do Sport.

"Clube do meu coração, o Sport Recife eu considero como a minha namorada", afirmou em entrevista à Rede Globo (veja vídeo abaixo).

Você entenderá por que essa identificação não é para menos.
 

Um jogador revolucionário com seu “rush”

Como se pode ver, desde o começo, tudo na vida de Ademir foi rápido. Aliás, muito rápido. Ele fazia da sua condição física uma grande arma. Com suas arrancadas, dizem que Queixada, como também era conhecido, criou a posição de ponta de lança e obrigou os adversários até mudarem de esquema tático para se defender melhor.

- Ele tinha uma jogada que vinha da intermediária e saía com uma velocidade impressionante. Era difícil de parar. Fez muitos gols assim”, diz o jornalista esportivo Lenivaldo Aragão, que, antes de ficar próximo do jogador, acompanhava os lances de Ademir na tela do cinema, em compactos exibidos antes dos filmes.

Passando um a um, Ademir costumava também finalizar com precisão com as duas pernas. Tão em moda no vocabulário esportivo da época, veio então do inglês, a expressão que caracterizou o seu futebol: o rush (a arrancada) de Ademir.

- Quantas vezes amaldiçoei os "rushes" de Ademir! Ele arrancava do meio-campo, temível, e, como um raio, entrava pela grande área, fulminante. O desfecho da jogada era sempre o mesmo: uma bola no fundo da rede, um goleiro desvalido e o meu coração magoado”, escreveu o falecido jornalista e torcedor do Botafogo, Armando Nogueira, na crônica Um Artilheiro no Meu Coração publicada no jornal O Globo.

O que poucos sabem, porém, é que a combinação do aspecto físico com a grande capacidade de driblar nasceu em Ademir através da inspiração em um companheiro do Sport. O argentino Magri, com quem atuou nos profissionais do Leão, foi um grande conselheiro do jogador.

- Magri foi um dos amigos que mais influência tiveram na minha vida de profissional de futebol. Eu gostava muito de driblar. [Ele] Sugeriu-me a experimentação de um novo trabalho à base da velocidade de jogo. Desde então nos meus constantes exercícios de ginástica, passei a aplicar-me com mais afinco ao desenvolvimento da velocidade e o apuro da resistência física. Foi, repito, um dos mais sábios e úteis conselhos que recebi de um verdadeiro amigo, disse Ademir Menezes à Revista da Semana.

Liderança e destaque em título no juvenil

A consciência do que fazia em campo vinha atrelada a uma condição de líder. Aos 15 anos, Ademir Menezes foi capitão da equipe juvenil do Sport e conduziu o time pernambucano ao título da categoria em cima do Santa Cruz, em 1938.

A finalíssima da competição foi disputada no dia 6 de novembro, no campo da avenida Malaquias, onde hoje está erguido o Museu do Estado, na zona norte da capital Recife. Ali, o Leão bateu a Cobra Coral por 3 a 0, no último jogo de uma melhor de três.
 

Os jornais da época não detalham de quem foram os gols do duelo decisivo, mas há menções sobre o destaque de Ademir Menezes. A expectativa sobre o atleta, na realidade, já vinha de antes do grande confronto.

Em uma entrevista ao extinto Diario da Manhã, o jovem mostrou liderança e uma confiança que, segundo a publicação, já dava a impressão de que o Sport sairia vencedor mesmo antes da série decisiva começar.

- Diga mesmo que, em cada jogador da nossa equipe, está um jogador decidido do primeiro ao último minuto da partida, afirmou Ademir, em entrevista resgatada pelo portal Vavel, em 2017.
 

Antes de ser Queixada, era Mosquito

Enquanto talhava a imagem de atleta promissor com talento e liderança, Ademir Menezes também se arriscava em outras modalidades no Sport. No ano seguinte ao conquistar o Campeonato Pernambucano de Juvenil no futebol, os recortes de jornais da época demonstram que ele disputou provas de natação e atletismo.

Em 1939, por exemplo, correu a prova de 50 metros rasos no 1º Circuito da Cidade promovido pela Federação Pernambucana de Desportos. Na categoria juvenil, ficou em terceiro lugar. A velocidade, de fato, seria uma aliada do rubro-negro dentro dos campos.
 

Nessa época, Ademir não era conhecido como Queixada. Era Mosquito. Tudo por conta do porte franzino. Uma condição, por sinal, que o levou a usar de artifícios curiosos para poder cumprir regras básicas e ingressar no infantil do Sport.

- O meu ingresso no infantil só foi possível pelos artifícios empregados para burlar o regulamento da Federação de Atletismo. Foram precisos alguns grãos de chumbo no sapato e alçar-me nas pontas dos pés para completar o peso e altura exigidos, relembrou Ademir para a Revista da Semana.

O começo precoce como profissional

Mas o talento que possuía com a bola não dava o direito a Ademir de ter um futuro diferente em outra modalidade que não fosse a do futebol. Logo com 16 anos e como meia direita, ele começou a caminhada nos profissionais do Sport promovido pelo técnico Ricardo Diaz.

A estreia no time titular veio em 29 de junho de 1939 e foi indigesta. Em uma linha ofensiva toda formada por juvenis, o ainda projeto de craque não conseguiu evitar a goleada de 5 a 1 para o extinto Tramways, time bicampeão estadual. Ainda assim, o setor recebeu elogios da imprensa.

Em 1940, o talento de Ademir começava ainda mais reconhecido na terra natal. O jogador já fazia parte da seleção pernambucana. À época, havia o Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais e não de clubes.
 

Na preparação para o duelo com o Ceará, inclusive, Ademir recebeu elogios contundentes do técnico Oswaldo Salsa, conforme aponta a publicação do jornal Pequeno do dia 14 de dezembro de 1940.

“É a revelação do selecionado vindo do quadro juvenil do Sport para o 1º quadro. Ótimo finalista e grande driblador (...). Jogador de grande futuro.”
 

Em campo, porém, Ademir não teve o desempenho esperado e foi apontado como o “mais fraco do ataque” no duelo que terminou em 2 a 1 para os pernambucanos e que posteriormente seria anulado por problemas na inscrição de um atleta do time local.

- É ainda muito novo para as partidas de grande responsabilidade, sacramentou a imprensa à época.

Ao virar o calendário para 1941, Ademir mostraria justamente o oposto. Seria o ano do nascimento de um craque ainda muito jovem.

Hat-trick no Náutico, artilharia e título estadual

Antes de iniciar seu auge no Sport, Ademir Menezes começou 1941 ainda na disputa do Estadual de 1940. A competição havia sido paralisada para o Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais e só foi retomada no primeiro semestre deste ano.

Para o atleta, já era o momento de se firmar. Não com tantos gols, mas com constantes apresentações como titular. Portanto, ganhou corpo na campanha que acabou com o vice-campeonato, atrás apenas do Santa Cruz.

A taça, no entanto, era questão de tempo. Ademir viria a ser o grande destaque do Campeonato Pernambucano de 1941. Nele, o Sport foi campeão invicto, com 11 vitórias (1 por W.O) e um empate. Queixada foi o artilheiro da competição, com 11 gols. Tudo isso aos 18 anos.

Ao longo do certame, Ademir foi distribuindo gols até que, na última rodada, massacrou o Náutico fazendo um hat-trick (três tentos) no 8 a 1 histórico. Artilharia e título garantidos.
 

Ademir rompe fronteiras de Pernambuco

Com a faixa de campeão e a marca de artilheiro, Ademir voltou à seleção pernambucana para sua segunda participação no campeonato brasileiro a todo gás. No dia 26 de outubro, ele comandou o ataque local em uma goleada esmagadora de 9 a 0 sobre a Paraíba. Foram quatro só do atacante rubro-negro.

- Dia a dia este pebolista conquista ponto mais alto. No choque de domingo, Ademir foi um grande jogador. Um construtor, um elemento de ligação insuperável. Quando chega a vez de concluir, estava na linha de frente e seu tiro se fazia respeitar, publicou o Diario de Pernambuco (leia abaixo) .
 

Ademir passou, de fato e de direito, a ser tudo o que se esperava dele, ainda que muito jovem. Era, então, a hora de ganhar o Brasil. E assim foi feito. Depois de bater o estado vizinho, a caravana pernambucana embarcou para o Rio de Janeiro para disputar mais dois jogos da competição nacional.

Ao chegar no centro do futebol do país à época, o Fluminense já cresceu os olhos para o atleta recifense. Ademir nas Laranjeiras? O assunto era quente. Outrora desgostoso da ideia de ver o filho jogador, Antônio Menezes virou uma espécie de empresário que garantiu grandes contratos ao filho ao longo da carreira e chegou a confirmar que ele ficaria no Tricolor.
 

Mas o tempo mostrou que não seria bem assim. Ainda não era a hora. Ademir tinha mais uma missão importante a cumprir. Antes de virar estrela nacional, tinha que fazer do Sport um time respeitado fora das fronteiras pernambucanas.

E, chegando até aqui nessa história, você já sabe que Ademir cumpre com sua missão com velocidade, assistências e gols. O Sport aproveitou que vários jogadores do seu time campeão estadual já estavam no Rio de Janeiro com a seleção pernambucana e foi até a capital fluminense para uma excursão histórica.

O pai de Ademir, Antônio Menezes, também fez parte da comitiva como secretário da embaixada rubro-negra. A presença dele foi um ponto chave para uma mudança de rumo na carreira do atleta.


Caravana do Sport pelo Sul e Sudeste faz história

Em 1941, os times do Nordeste eram coadjuvantes no cenário nacional. O Sport, no entanto, atreveu-se a mudar o rumo dessa história. Queria incomodar os grandes e assim o fez graças ao talento de Ademir em boa parte.

O clube rubro-negro passou por Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e novamente a capital fluminense. A longa viagem começou em dezembro de 1941 e só terminou em março de 1942.
 

Nessas andanças, perdeu quatro partidas, empatou duas e ganhou onze. Foram 29 gols sofridos contra 46 marcados. Desses, dez foram só de Ademir Menezes. Calibrado, o Leão fez Flamengo, Grêmio, Coritiba, Atlético-MG e América-MG de vítimas. Na conta, também teve um outro rival de peso.

O grande jogo contra o Vasco

No dia 1º de março de 1942, o Sport visitou o Vasco, em Caio Martins, para a penúltima partida da excursão. Era chegado o grande momento de Ademir com a camisa rubro-negra.

Aquele garoto do bairro do Pina já havia ganhado corpo para não se intimidar diante de um rival de peso e comandou uma virada inesquecível para o Leão.

O Alvinegro vencia a partida por 3 a 0 até que o então meia disparou em alta velocidade para mudar a história do jogo e da sua vida. O rush de Ademir, definitivamente, ganhava o Brasil.

Ele marcou dois gols ajudando o Leão a virar o marcador e terminar a partida com um 5 a 4 improvável. Depois, Ademir e os outros destaques do time foram cercados por fãs.

"Sem dúvida, aquela corrida em torno dos jogadores do rubro-negro nortista, aquele interesse de 'fans' (...) representava o melhor elogio feito ao campeão pernambucano de 1941", descreveu o Jornal dos Sports, na edição do dia 3 de março de 1942.
 

A decisão de ir para o Vasco

Até aqui, você poderia imaginar que Ademir fez de tudo em campo para mostrar que, ao Vasco, valeria à pena qualquer esforço financeiro para contratá-lo. O ponto, na verdade, não era exatamente esse.

Durante a preparação para a partida em que brilhou, a delegação rubro-negra ficou hospedada em São Januário. E foi em casa que a direção do Vasco decidiu atacar para fechar com a joia rubro-negra.

Em 22 de fevereiro, o Jornal dos Sports já trazia a possibilidade de Ademir ficar no Cruzmaltino de vez, deixando a história do Fluminense para depois.
 

No dia 25, veio a confirmação. Ademir assinou contrato às 13h de uma quarta-feira, na sede do clube alvinegro. O vínculo inicial era de dois anos, com luvas de 40 contos adiantadas ao atleta e 800 mil réis de salário.

Para a negociação ser formalizada, o pai do jogador Antônio Menezes foi figura fundamental. Ele interviu na escolha do clube e esteve ao lado do filho no momento da assinatura do acordo.

"Bem ... 40 contos e 800 mil réis de ordenado representavam alguma coisa em 1942 ... Papai botou a mão na grana e não vi um tostão", recordou Ademir, na Revista da Semana, em 1956.
 

Depois, Ademir ainda treinou com os novos companheiros. Na histórica atuação de 5 a 4, portanto, o jogador já tinha tudo acertado com o Vasco. Ali, em campo, ele só dava mais uma amostra do que seria capaz de fazer ao longo da carreira.

Ademir ainda voltaria ao Recife para fazer mais um jogo pelo Sport, um amistoso perdido por 2 a 1 para o Santa Cruz, no dia 15 de março. Faria a sua primeira despedida do Leão sem gols. Por outro lado, já tinha feito história com os 27 que já havia assinado pelo Leão.

Antes de pegar o avião rumo ao Rio de Janeiro, onde entraria para a história, o recifense declarou todo seu respeito e amor ao Sport.

“(...) Clube que nunca terei como adversário, pois jamais entrarei em campo para preliar contra o seu quadro”, disse, em entrevista ao Jornal Pequeno.

Depois, Ademir partiu para fazer história. Um gênio que abriu portas em São Januário para que outros rubro-negros - como o bicampeão do mundo Vavá, o Peito de Aço, Almir Pernambuquinho e Juninho Pernambucano, o Reizinho - também virassem referência.


Última partida da carreira foi no Sport

Após virar um dos grandes nomes do futebol brasileiro, Ademir se aposentou como começou. Em vermelho e preto. O último jogo dele foi aos 34 anos pelo Sport em um clássico vencido por 2 a 0 diante do Bahia, na Ilha do Retiro, em 10 de março de 1957.

Mas, na edição do dia seguinte, foi preciso o jornal Diario de Pernambuco fazer uma defesa expressa do então atacante.

A partida foi marcada como um jogo de despedida. Era festivo. Já sem treinar com a mesma frequência de antes, Ademir foi a campo como titular e arriscou alguns do seus chutes potentes.

Porém, sem estar em forma, não esteve no melhor nível e recebeu críticas de parte da torcida que fizeram o jornalista Viriato Rodrigues lhe proteger.

- O que está acontecendo com o craque é somente fora de forma, por ter estado vários meses sem tocar na pelota. Voltando aos treinos, muito garoto por aí fica atrás.
 

Mas a história de Ademir já estava feita. Em 1996, ele morreu vítima de um câncer. Mas, sua imagem ficou eternizada com uma estátua, que hoje está localizada em frente à sede do Sport, clube que tanto amava.

“Ele, quando vinha aqui, fazia questão de visitar o Sport. Ele se tornou um verdadeiro rubro-negro e virou uma espécie de embaixador daqui. Até quando tinha jogo de Náutico e Santa Cruz, ele ia nos vestiários cumprimentar os jogadores. Qualquer um que quisesse falar com ele, estava sempre à disposição. Ele se orgulhava de apresentar o estado e o futebol local”, lembra o jornalista Lenivaldo Aragão.

Fonte: Globoesporte.com