Por Vanessa Simplicio, mãe de Rayan
“Meu Tigrão, olha tudo que aconteceu na sua vida. Você vai jogar sua primeira Copa do Mundo. Quando o Ancelotti falou seu nome, eu chorei de um lado e seu pai de outro, ele passou até mal. Brinquei que não era a hora dele morrer. Toda a família estava muito feliz, e não é à toa. Lembra tudo que passamos?
Essa reportagem faz parte da série 'Raízes de Campeão', que traz cartas de familiares e amigos para os jogadores da Seleção Brasileira; leia o relato do pai de Léo Pereira, do primo do goleiro Weverton, do olheiro de Danilo Santos e do 1º técnico de Casemiro
Não sei se já te falei, mas a gente nem imaginava te colocar no futebol. Você sempre foi bom, mas pela decepção que seu pai passou, queríamos um outro caminho. Mas você sempre gostou. Nunca quis brinquedo, era só bola.
E o seu começo no futebol foi coisa de Deus. Quando você nasceu, seu pai desistiu de jogar e mudamos para o Espírito Santo, ele queria ficar um pouquinho com a família dele. Fomos todos juntos.
Foi quando minha mãe ficou doente, com depressão, e voltamos para o Rio. Ela precisava de mim. Tudo foi rápido, um mês depois sua avó ficou boa, e você começou a treinar com o seu tio, lá na quadra. O rapaz do ponto de ônibus te viu e falou para te levarmos para fazer um treino. Eu e seu pai não podíamos, estávamos trabalhando, por isso o tio te levou e você se destacou, passou de primeira. Assim começou sua trajetória: salão na Federação e depois campo.
Nos seus primeiros jogos, seu pai, que sempre foi calado, chorava quando te via fazendo os gols. Eu olhava para ele e via que tudo que ele tinha vivido ainda estava no coração dele. Parecia que ele passava por dupla honra.
"Você começou a frequentar a igreja e o pastor sempre disse que Deus ia soprar seu nome pro mundo, e isso está acontecendo."
Porém, nada foi fácil, né? No começo, os desafios continuavam, mas sempre tivémos pessoas ao nosso lado. Não tínhamos condições, mas sempre te davam carona para ir aos treinos, o Marcão, o Joeder. Eu também pegava o trem para Marechal para te levar treinar. Era longe, mas queríamos que você sempre melhorasse.
Temos que ser gratos até hoje a essas pessoas, porque não é fácil ir aos jogos com 7 ou 8 anos. Não tínhamos condições, e você viajou para os Estados Unidos sem pagarmos nada. As pessoas nos ajudaram, fizemos rifa, vendia bolo de pote... Suas primeiras chuteiras foram no cartão de uma amiga, e depois eu pagava ela parcelado.
Aos 16 anos, você provou o seu talento e chegou ao profissional do Vasco. Que honra vestir a camisa do clube do coração. Mas, se engana quem pensa que foi fácil. Foi uma fase desafiadora. Nunca vou me esquecer daquele rapaz que te ofendeu na saída do treino. Como alguém tão jovem poderia ser cobrado daquele jeito? Seu pai até correu para o CT para ver o que estava acontecendo.
Você chegou em casa e ficou triste. Foram dois dias no quarto, quieto, e nós nos preocupamos. Ficamos até com medo que você desistisse. Mas olha até onde você já tinha chegado: 16 anos e profissional do Vasco.
Te falei que era bola pra frente, seu pai também conversou com você. 'Rayan, esse é seu sonho e uma hora vai dar certo. Se errar, uma hora também vai acertar'. Você teve uma família estruturada naquele momento. Tem sua esposa, seus amigos da comunidade, o Esquerdinha, o Allan, o Hugo, o Guilherme e Bebezão. Todos ajudaram.
Ah, e as pessoas não sabem, mas nesse momento sua avó estava doente, com câncer, e ficou paraplégica. Você nos ajudou muito nisso. Eu fui morar no Recreio e você sempre me ajudava a carregar ela. Três anos depois, ela faleceu, mas te viu jogando no profissional do Vasco. Ela xingava os torcedores que reclamavam de você e depois chorava de emoção quando você fazia gol. Foi uma época muito difícil, suas tias faleceram. O torcedor te xingava e não sabia da sua vida pessoal.
Você defendia o nosso time, vivia o que seu pai sonhou, mas o Vasco na época estava doido pra te vender e nós não queríamos. Batemos o pé que não. Tinha proposta de um país em guerra e do Botafogo. E aí chegou o [Fernando] Diniz, foi quando tudo aconteceu. Você teve uma crescente muito grande de confiança. Ele chamou eu e seu pai para conversar. Quando te viu treinando, falou que você era diferente, que podia vender todo mundo, até ele, menos você. Lembra que eu te falei: 'Calma agora é a hora, meu filho, consagra sua vida a Deus e caí pra dentro'.
Você fez isso e tudo deu certo. Você chegou ao Bournemouth. Hoje, a parte mais difícil é a saudade. Tem hora que sento e choro conversando com seu pai. Te ligo para saber como você está, o que acalenta meu coração é saber que você está bem. Fico feliz com o acolhimento que todo mundo te deu lá.
Eu acho bonito que mesmo longe você tem seu sobrinho como um filho. Ele não escuta direito por causa de um problema no parto, mas você sempre cuida. Pede pra ele estudar, cuida do aparelho auditivo dele. Isso transborda meu coração de alegria.
E, agora, você está aí, com todo o Brasil gritando seu nome. Meu filho, que Deus te abençoe, que Deus te proteja, que Jesus cubra todos os seus com o sangue dele sagrado. Lembre de tudo que você passou, tudo que seu pai te contou que viveu, a luta. Guerreie, que vai dar tudo certo. Dê o seu melhor, faça o que sabe fazer de melhor dentro de campo. Deus vai te abençoar, eu peço isso pra ele todos os dias. Já deu tudo certo e vocês vão trazer essa taça para o Brasil. Te amo.”
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