Quase 15% dos jogadores de times pequenos da Série A do futebol carioca admitiram que já receberam proposta ou sondagem para manipular resultados ou lances de partidas. O número é o principal resultado de levantamento inédito do ge com mais de 100 jogadores que disputam a primeira divisão do Rio de Janeiro pelos times de menor investimento.
Há, inclusive, um inquérito aberto no Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro (TJD-RJ) e na Polícia Civil sobre um caso no Campeonato Carioca da Série A de 2026. Uma partida do "quadrangular da morte", torneio que define o rebaixamento na competição, é alvo da investigação.
A suspeita partiu de um alerta disparado pela Federação do Rio aos clubes, apontando movimentações anormais em casas de apostas. Ao menos dois jogadores, de dois clubes diferentes, são apontados como suspeitos. O ge apurou que um deles foi afastado e não atua mais por sua equipe.
Alguns depoimentos já foram tomados pelos investigadores da Delegacia do Consumidor, a DECON, que assume os inquéritos relacionados a manipulação de resultados no futebol do Rio de Janeiro. O presidente da Ferj, Rubens Lopes, foi um dos convidados a depor.
Até o momento, esse foi o único alerta de suspeita de manipulação em jogos da Série A do Carioca deste ano.
O censo do Carioca 2026, feito de maneira anônima com os atletas em sete perguntas objetivas sobre vida e a carreira, será publicado em duas partes pelo ge. A primeira trata da manipulação no futebol. Dos 116 atletas ouvidos entre os oito pequenos, 17 responderam "sim" para a pergunta "você já recebeu proposta ou foi alguma vez sondado para manipular resultados/lances de jogos?". Correspondente a exatos 14,6%.
- Isso aí se tornou um vírus, né? A gente não vê.
A constatação é de Alfredo Sampaio, presidente da SAFERJ (Sindicato dos Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro). Neste Carioca, ele dirigiu o Sampaio Corrêa e agora comanda a Portuguesa da Ilha do Governador.
Mesmo com a pesquisa anônima, Alfredo entende que o número de jogadores procurados para manipulação deve ser ainda maior.
- Acho que ninguém admite, seja por vergonha ou por medo. Nas divisões de baixo, principalmente de série B, série C, ali é um horror. É um negócio difícil de você controlar - comenta Alfredo Sampaio.
A Série A do Carioca tem um jogador que voltou da eliminação do futebol. É o atacante Ygor Catatau, que disputou e foi até as quartas de final do Carioca com o Volta Redonda. Ele foi suspenso em 2023 quando jogava pelo Sampaio Corrêa, na Série B do Brasileirão daquele ano. O jogador conseguiu a revisão da pena e voltou a jogar no fim do ano passado.
Por nota, a Ferj não comentou o caso sob investigação em 2026 - existe ao menos um alerta emitido pela empresa especializada em monitorar casos suspeitos. Mas a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro ressaltou que os casos estão diminuindo nos últimos anos. Confira a nota:
"Com o intuito de proteger o esporte, a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro tem adotado medidas de combate à manipulação de resultados há VÁRIOS anos. Além da contratação de empresa internacional de serviços de integridade, o Departamento Jurídico da entidade encaminha todas as denúncias - sejam anônimas à sua Ouvidoria ou oriundas de relatórios emitidos pela parceira de monitoramento - para a Polícia Civil, Ministério Público, Juizado do Torcedor, Superior Tribunal de Justiça Desportiva, Tribunal de Justiça Desportiva-RJ e Confederação Brasileira de Futebol, com o objetivo de, com a soma de esforços, encontrar e penalizar esportivamente e criminalmente os envolvidos. Vale ressaltar que, após as ações e também trabalho conjunto entre os órgãos, o número de casos apresenta queda vertiginosa: 19 (2022), 7 (2023), 3 (2024) e 2 (2025)."
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