A diretoria do Vasco e os representantes de Marcos Lamacchia avançaram nas últimas semanas para a venda da SAF. Na mesa de negociação, há informações sobre o plano de pagamento da recuperação judicial, a composição da dívida tributária, que está fora da RJ, e o tamanho da ordem de investimento pela competitividade do futebol e na estrutura do clube.
Entre os mais otimistas, um acordo para a venda pode ser selado em poucas semanas - há minutas sendo trocadas, como publicado pelo canal Colina 1927, para a venda de 90% do futebol. Mas os mais cautelosos não esperam conclusão do negócio em tão pouco tempo - ainda precisa passar pelos conselhos do clube e também de solução sobre a parte comprada pela 777 (hoje, A-CAP).
O Vasco colocou três pilares básicos da negociação:
Hoje, boa parte da dívida está concentrada na recuperação judicial, mas com parte importante na dívida tributária em discussões com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. Quanto custa essa dívida? Pelo menos R$ 1 bilhão. A RJ, porém, prevê plano de pagamento mais suave em ao menos 10 anos de toda a dívida trabalhista.
Com gastos considerados significativos em folha salarial, em reforços. Quanto é o valor e por quanto tempo seriam feitos os aportes? É um dos cálculos mais complexos, mas o Vasco desejava aprovar penalidades - em multas pecuniárias para a associação - no caso de mau desempenho esportivo.
Ainda neste ponto, o Vasco e o futuro investidor buscam entendimento no reaproveitamento do dinheiro de venda de jogador. Um dos planos originais da RJ previam que 6% sobre receitas extraordinárias líquidas - em linhas gerais, venda de ativo (jogador) - deveriam ser usados para pagar dívidas dentro da recuperação judicial. O Vasco também quer que seja destinado a um fundo para contratação de atletas.
Do outro lado, o investidor entende que se não pode contar com estes recursos de vendas para os próprios aportes, o "cheque final" da negociação tende a ser menor. Apesar do debate, os lados não veem grandes obstáculos neste ponto.
A maior urgência do Vasco é o equipamento do centro de treinamento. Tanto para o profissional quanto para a base. Existem negociações para estabelecer também o valor necessário para aporte numa estrutura de ponta para o futebol vascaíno.
Apesar de divergências pontuais, as partes acreditam em acordo próximo. Apesar de não haver unanimidade dentro da diretoria do Vasco, porque a venda da SAF ainda gera debates políticos. Um grupo que muitos chamam de "G8", com Pedrinho, outros vice-presidentes e pessoas influentes na gestão, tem manifestações reticentes da necessidade da venda por entenderem que a recuperação judicial permite fôlego independente ao clube.
O negócio também pode passar por uma transição com Pedrinho inicialmente na governança da SAF. A boa relação com a família Lamacchia é um diferencial desde o início das tratativas, quando ele chegou a anunciar em campanha o desejo de parceria com José Carlos Lamacchia, pai de Marcos. Do outro lado, o advogado André Sica, ex-Palmeiras e que tem escritório particular com participações em diversos acordos de SAFs pelo Brasil, é quem senta à mesa a pedido de Marcos Lamacchia.
A gestão de Pedrinho e o investidor não acreditam em empecilho na Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), criada para fiscalizar a aplicação do conjunto de regras do fair play financeiro no Brasil. Ainda não houve contato formal nem com a CBF nem com a ANRESF.
O artigo 86 do SSF (Sistema de Sustentabilidade Financeira, nome formal das regras do fair play) veda que "qualquer pessoa, física ou jurídica, detenha, direta ou indiretamente, controle ou influência significativa sobre mais de um clube". A influência significativa é definida como "a capacidade de dirigir políticas financeiras ou operacionais, exercer veto relevante, nomear administradores-chave ou deter, isolada ou conjuntamente, mais de 10% dos direitos de voto com acordos de voto ou vetos qualificados, bem como contratos de financiamento que imponham covenants com poder decisório".
Mas o Vasco e o investidor estudam alternativas. A direção de Pedrinho e Marcos Lamacchia consideram que há ferramentas viáveis para não haver conflito com as regras da negociação.
Uma das alternativas estudadas seria a suspensão temporária do direito a veto e a voto do comprador da SAF enquanto Leila Pereira for presidente do Palmeiras. Ou até mesmo início com participação inferior a 10% da participação societária. O processo, conhecido como "blind trust", trata de mecanismo jurídico para transferir ativos para um administrador independente.
Na última semana, o ge conversou com Caio Resende, presidente da ANRESF, que apontou que haverá uma "análise rigorosa" em caso de venda da SAF do Vasco para o grupo de Marcos Lamacchia. A agência tem a missão de monitorar e aplicar as regras do chamado Sistema de Sustentabilidade Financeira, o nome dado ao fair play financeiro lançado em 2026 pela CBF.
— O que a gente percebe lá fora é que a análise desse tipo de caso pode se tornar muito complicada. É uma análise que a estrutura societária de cada clube, de que pessoas ou que grupos têm de fato poder decisório dentro de cada clube — disse Caio Resende ao ge.
Há quase dois anos caminhando sem um investidor para a SAF, o Vasco vive momento de maior expectativa para, enfim, costurar um acordo e ter um respiro financeiro para o clube . O filho de Lamacchia fundou em 2011 a Blue Star, uma gestora financeira de fundos de investimento, mas foi diretor da Crefisa por muitos anos e também trabalhou no banco Alfa.
Hoje, vive entre Aspen, no Colorado (EUA), e São Paulo. Ele acompanha de perto as negociações - e as repercussões entre torcedores vascaínos - e colocou parte da estrutura jurídica e financeira de suas empresas para se debruçar sobre os números do negócio.
Hoje, a divisão de ações da SAF vascaína é a seguinte:
Para vender a parte que está em discussão na arbitragem, será necessário um acordo ou uma decisão judicial a favor do Vasco.
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