Futebol

Vasco joga contra a Ponte Preta em noite com traje de gala

Dono de uma das histórias mais dignas do futebol brasileiro, com a bandeira contra o racismo e o poder de inclusão no esporte, o Vasco criou uma nova etiqueta no futebol. No lugar do tom que representa o luto, vestir-se de preto, em São Januário, é ato de celebração à vida nova. Com camisas negras, em homenagem aos campeões de 1923, o time enfrenta a Ponte Preta, nesta quinta-feira, às 21h, em São Januário, disposto a marcar as diferenças em relação ao clube do interior paulista.

Embora os dois clubes tenham uniformes parecidos, com a faixa preta atravessada no fundo branco, ou vice- versa, só o Vasco tem esquadrões históricos e grandes conquistas a celebrar. Um dos clubes mais antigos do Brasil, fundado em 1900, a Ponte Preta têm tradição de respeito, mesmo que jamais tenha comemorado um título na Série A, seja estadual ou nacional.

— Temos que nos impor em casa. Fazer o adversário sentir o clima de caldeirão de São Januário. Torcida e time de mãos dadas sempre foram importantes no Vasco — lembrou o técnico Dorival Júnior.

O time vem de um empate com o Goiás e uma derrota para o Botafogo. Perdeu seus dois volantes titulares, Guiñazu e Sandro Silva, com lesões sérias, mas a hora é de recuperar terreno e se impor. Conquistar os três pontos em casa, hoje, é quase uma obrigação, para o time respirar na tabela do Campeonato Brasileiro.

A camisa preta serve como uma inspiração para os jogadores reencontrarem o caminho das conquistas.

Movido a desafios

Mais importante do que o título de 1923 foi a postura da diretoria do Vasco diante da perseguição que o clube passaria a sofrer por ter em seu elenco jogadores negros e pobres, em uma época em que o futebol era um privilégio das elites.

Obrigado a afastar 12 atletas, sob a alegação de que tinham condição social inferior para se manter na Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (Amea), o clube ficou do lado daqueles que defendiam a sua camisa e decidiu pela sua desfiliação.

Em resposta à Amea, carta do então presidente do Vasco, José Augusto Prestes, tornou-se um marco e uma declaração de princípios que, até hoje, orientam o clube.

O texto, datado do dia 7 de abril de 1924, ainda ecoa como um grito de independência do Vasco: “São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira, e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias. Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da Amea”.

O rompimento obrigou o Vasco a enfrentar novos desafios até reatar os laços. Já de volta, em 1926, o clube ainda sofreu preconceito, dessa vez, por não ter estádio próprio.
Em vez de se sentir diminuído com a provocação, o Vasco tirou forças para construir São Januário em um mutirão que envolveu trabalhadores, comerciantes e toda a comunidade que decidiu abraçar o clube. Aquele que já foi o maior estádio das Américas ainda abriga um sentimento que não tem tamanho. A festa em torno dos camisas pretas não pode parar.

VASCO: Diogo Silva, Nei, Jomar, Renato Vaz e Yotún; Abuda, Filipe Souto, Juninho e Pedro Ken; Éder Luís e André.

PONTE PRETA: Roberto, Régis, Gustavo, César e Diego Sacoman; Baraka, Fernando Bob, Ramírez, Chiquinho e Rildo; William.

Fonte: O Globo
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